Pesquisa BISC traça um panorama do investimento social corporativo no Brasil

Com a proposta de avaliar a evolução dos compromissos sociais das empresas no país, a qualidade desses investimentos e a busca por novos elementos para a reflexão de tendências sobre o tema, foi lançada a 8ª edição da pesquisa BISC – Benchmarking de Investimento Social Corporativo. A apresentação dos resultados do estudo aconteceu num evento na sede da Comunitas, em São Paulo, no dia 27 de novembro.

Iniciada em 2008, a pesquisa BISC acompanha anualmente os investimentos sociais privados no Brasil e, por meio de uma parceria da Comunitas com o CECP – Committee Encouraging Corporate Philanthropy, o estudo permite também a comparação dos investimentos nacionais, com padrões internacionais.

Os resultados apresentados neste relatório refletem um universo de 312 empresas, 24 fundações empresariais, a federação de empresas do setor de indústria do Rio de Janeiro – sistema Firjan –, gestores sociais e lideranças de dez empresas e institutos empresariais, além dos trabalhos desenvolvidos pelo Grupo de Debates BISC – uma novidade desta edição. O grupo foi instituído pela Comunitas com o objetivo de explorar e aprofundar a reflexão sobre temas selecionados pelos parceiros e contribuir para a troca de experiências.

Com base nas tendências identificadas na edição 2014, a pesquisa deste ano apresenta as novas estratégias para investimentos sociais de empresas e suas implicações para os negócios, bem como as perspectivas dos investimentos sociais e da filantropia no contexto das mudanças na atuação social das empresas. Foram consideradas ainda as recentes alterações nas parcerias com organizações públicas e privadas, além das ocorridas na condução das aplicações sociais obrigatórias.

Panorama

De acordo com o estudo, é possível perceber alguns sinais de recuperação na área, apesar da crise econômica. Em 2014, a economia ficou praticamente estagnada (o PIB cresceu 0,2%), porém os investimentos sociais cresceram 11% em 2014, totalizando R$ 2,3 bilhões. Não foi o bastante para recuperar as perdas de 2013, mas o suficiente para elevar esse montante para o nível alcançado em 2011, quando a economia ainda se beneficiava do ciclo expansionista iniciado em 2009.

Um dado que merece ser destacado a respeito da questão apresentada é que boa parte da recuperação observada em 2014 deveu-se ao crescimento nos investimentos apoiados em incentivos fiscais, que cresceram 31% em relação aos valores de 2013.

A partir da série histórica da pesquisa é possível observar a clara tendência de crescimento dos investimentos sociais nos últimos oito anos e, nos próximos anos. espera-se confirmar a manutenção dessa trajetória.

Foi possível perceber também um movimento por parte das empresas em traçar novas estratégias voltadas para aumentar o impacto dos investimentos sociais. Todos avançaram no caminho de uma revisão da política de investimentos pautada pela busca de alinhamento aos negócios, na qual o fortalecimento da marca e a aproximação das comunidades devem combinar-se de forma equilibrada.

De certa forma, esse novo posicionamento também contribuiu para fortalecer a atuação dos institutos, cujos investimentos alcançaram o maior valor de toda a série, invertendo a tendência de aumento da participação dos investimentos realizados diretamente pelas empresas, que vinha sendo observada em anos anteriores. Isso porque a nova estratégia aponta para a necessidade de combinar duas expertises complementares: a das empresas, no tocante ao alinhamento aos negócios, e a dos institutos, na relação com as comunidades, o que se manifesta na forma de um aumento expressivo dos repasses de recursos das empresas para seus institutos.

Segundo a pesquisa BISC, observa-se também atuações diferentes por parte das várias áreas da empresa: os institutos e as fundações atuam diretamente na execução ou coordenação dos projetos e concentram-se nas atividades educacionais, por exemplo, enquanto os setores de responsabilidade social ou socioambiental se dedicam à condução das atividades de meio ambiente e de assistência social e delegam atividades das mais diversas áreas sociais para as outras unidades da empresa.

As diferenças entre as atividades desenvolvidas pelas empresas e por seus institutos podem ser percebidas também no público-alvo de seus investimentos. Os institutos se concentram mais nos jovens e crianças: 84% e 74% deles, respectivamente, atendem a esses dois grupos. Já as empresas, apesar de também atenderem maciçamente a esses dois grupos, tendem a dispersar mais a sua atuação e estendem as atividades para as comunidades do entorno (88%), adultos em geral (76%) e pessoas com deficiência (65%).

Foco de ação

Segundo Anna Peliano, coordenadora da pesquisa, a área de educação continua sendo a que recebe maior atenção por parte dos institutos e fundações: 70% dos seus recursos para esta área, algo na ordem de R$ 872 milhões, o que representa um aumento de 10% em relação ao ano anterior e de 50% se comparado a 2010. As ações são direcionadas principalmente para a educação formal (19%) e captação de gestores (13%).

Em relação ao local de atuação, existe uma prioridade para atuar nas localidades do entorno dos empreendimentos econômicos: 50% das empresas e mais de um terço dos institutos concentram o seu atendimento nessas regiões. No entanto, como o grupo BISC abrange grandes empresas, as áreas de influência dos seus negócios nem sempre se limitam ao espaço geográfico de suas instalações. Isso explica o fato de que 39% das empresas e dos institutos expandem os seus investimentos para espaços maiores.

Outro ponto que merece ser destacado, de acordo com Anna Peliano, é em relação aos programas de voluntariado, que também têm se expandido nos últimos anos, apesar dos recursos terem diminuido. Nas empresas participantes da pesquisa, em média 15% dos colaboradores são voluntários, o que representa um aumento de 70 mil para 88 mil de voluntários em 2014 em comparação a 2012. Mais de metade das empresas investe cerca de R$ 500 mil/ano nos seus programas de voluntariado.

“Cresce também o entendimento de que os programas de voluntariado devem estar alinhados ao negócio e da necessidade de estimular cada vez mais as lideranças a participar das ações, tendo em vista que trata-se de uma estratégia de ganha-ganha”, destacou a especialista, ressaltando que os dados mostram o potencial para ampliar ainda mais estes programas.

Parcerias

A pesquisa BISC buscou ainda entender de que forma se dão as relações do investimento social corporativo com atores externos. Segundo Anna, as previsões apontavam para o fortalecimento das parcerias, com administrações públicas, cadeias de fornecedores e organizações na ponta. O resultado do estudo confirmou esta tendência, sendo que 80% das empresas envolveram organizações públicas no desenvolvimento da suas ações e mais da metade fortaleceu isso nos anos recentes. O relacionamento com as organizações também se manteve em 100% dos casos.

Diante desse cenário, inclusive, a Comunitas organizou um banco de dados a respeito destas organizações a fim de estimular ainda mais as parcerias. Em 2014, o grupo pesquisado se envolveu com mais de mil organizações e transferiu recursos na ordem de R$332 milhões.

Segundo a coordenadora da pesquisa, há fortes indícios de que há mudanças nestas relações, com processos de seleção cada vez mais rigorosos e exigentes, sendo que estão prevalecendo aquelas mais alinhadas aos valores da empresas.

O estudo apontou que, de 2011 a 2014, o número de organizações apoiadas reduziu, mas o recurso aumentou, com o crescimento voltado para aquelas que recebem mais de R$ 100 mil/ano. Houve também a ampliação dos prazos de parcerias, o que pode ter relação direta, na avaliação de Anna Peliano, com o fato de serem privilegiados projetos mais estruturados e maiores.

A BISC 2015 analisou com mais detalhes as relações de parcerias, no que diz respeito a motivações, ações desenvolvidas, maiores beneficios e dificuldades etc. Anna Peliano destacou principalmente os benefícios das atuações conjuntas, como a ampliação do alcance dos projetos e o potencial de gerar transformação;  aproximação das comunidades; construção de redes; melhorias das políticas públicas; e legitimidade maior dos projetos. Segundo a pesquisa, 80% considera satisfatória essa relação, principalmente junto às organizações.

Em relação à gestão, empresas e institutos diferem bastante na forma de gerir seus investimentos sociais. Nas empresas, apenas 15% dos recursos são destinados para projetos conduzidos diretamente pelos seus colaboradores e o restante é transferido para terceiros, seja para executar os projetos concebidos pela empresa, seja para apoiar os projetos de outras organizações.

Vale mencionar que, em relação aos repasses para terceiros, as empresas tiveram dificuldades de informar as parcelas transferidas por tipo de instituição (universidades, organizações sem fins lucrativos, outras empresas privadas etc.) e agruparam os repasses no item “outros”, que representam 60% do total do seu investimento. Já os institutos destinam 67% dos seus recursos para projetos concebidos e executados por eles mesmos e 16% para organizações sem fins lucrativos executarem seus próprios projetos.

Anna Peliano destacou, por fim, alguns aspectos analisados pelo Grupo de Debates criado pela Comunitas, que trabalhou dois temas principais: alinhamento do investimento social ao negócio e parcerias.

Sobre as parcerias, alguns aspectos foram considerados essenciais para se estabelecer ações conjuntas: boa estratégia de seleção de parceiros;  forte interação para ter um diálogo de iguais;  projetos bem desenhados e adequados; definição clara de competências; acompanhamento, controle e avaliação para ajustes; e estratégia de financiamento, com previsão de contrapartidas para cada parceiro.

Exemplos práticos

Durante o evento de lançamento da BISC 2015, Cloves Carvalho, diretor do Instituto Votorantim, foi convidado a compartilhar a experiência da organização em relação às parcerias estabelecidas, principalmente junto ao poder público.

Cloves ressaltou que estabelecer parcerias é sempre um desafio, mas que é possível perceber a ampliação de ações conjuntas, pois as diversas partes estão aprendendo a confiar mais, algo que é fundamental para que os resultados possam acontecer. O diretor do IV lembrou ainda que a aproximação com o setor público é fundamental, pois ele é o ator que promove de fato o desenvolvimento, tendo em vista o montante de recurso investido e a escala de ação, o que gera de fato impacto e mudanças.

“E por isso mesmo essa relação deve se fortalecer. A solução para a crise que vivemos hoje é juntar forças, buscar pessoas interessadas em fazer mais e melhor. E, se os recursos estão cada vez mais escassos, precisamos saber utilizá-los da melhor maneira. Assim, as parcerias passam a ser vitais”, disse, destacando a importância de se fortalecer ainda mais as iniciativas entre o próprio setor privado.

“Ainda não conseguimos nem ter o mapeamento de quem atua no mesmo território e poder juntar forças. Esse é um ponto que deve ser explorado para alavancar mais investimento e gerar impacto social”, completou.

Cloves trouxe como exemplo de atuação conjunta a parceria estabelecida pelo Instituto Votorantim com o BNDES há cinco anos e que foi renovada por mais cinco, para o fortalecimento de cadeias produtivas e geração de renda. Atualmente, 48 projetos estão em andamento pelo país.

De acordo com o diretor do IV, o aprendizado neste processo tem sido muito grande para ambos. “Tivemos que aperfeiçoar no Instituto a nossa gestão e prestar contas de maneira mais detalhada. Aprendemos também a ter um olhar mais plural e diverso, atendendo municípios, por exemplo, que talvez não fossem o nosso foco no primeiro momento, assim como a respeitar o tempo social, ou seja, o tempo que essas organizações e cooperativas levam para entender o que é se formalizar, produzir, vender e conquistar o aumento de renda”.

Agora, o Instituto enfrenta um novo desafio que é o de ‘sair de campo’ e ajudar estes projetos a conquistarem sua sustentabilidade. “Neste momento trazemos para o debate novamente a questão das parcerias. Precisamos conhecer quem são os atores locais que poderão ajudá-los a dar essa continuidade às ações sem o nosso apoio”, afirmou.

Durante o debate, Andreia Rabetim, gerente de Parcerias Intersetoriais da Vale, apresentou também aspectos que considera fundamentais para parcerias duradouras, que é o estabelecimento de um diálogo baseado no respeito e a escuta ativa das comunidades, para que os institutos, fundações e empresas possam compreender as demandas e dar respostas adequadas às expectativas estabelecidas. “Por isso, é fundamental essa visão que tem se ampliado das empresas de que elas não são os atores principais, mas sim mais um ator nesta comunidade”, ressaltou.

Segundo Andreia, instituições como o GIFE e a Comunitas são essenciais para ajudar os investidores sociais a fortalecerem estas parcerias e que é preciso ainda avançar numa articulação entre o próprio setor para que as articulações intersetoriais sejam mais efetivas.

Estudo

Clique aqui para acessar o relatório completo da BISC 2015.

 

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