“A desigualdade tem que ser o grito da nossa luta!”, acredita Darren Walker, presidente da Fundação Ford

Para alcançarmos um mundo mais justo e pacífico, é preciso enfrentarmos ainda três grandes barreiras: as mudanças climáticas, o crescimento da injustiça e as desigualdades. A Fundação Ford – uma das maiores fundações do mundo criada há 78 anos, sendo que está há 53 no Brasil – definiu justamente o combate às desigualdades como sua nova estratégia de atuação nos 10 escritórios ao redor do mundo,  instalados na Ásia, África e América Latina.

Afinal, motivos para tal não faltam: dados do relatório da Oxfam “A Economia para o 1%”, apresentado no Fórum Econômico Mundial, em Davos, mostram que, em 2015, apenas 62 indivíduos no mundo todo detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões de pessoas – a metade mais afetada pela pobreza da humanidade.

Para compartilhar a sua experiência neste campo, Darren Walker, presidente da Fundação Ford, realizou uma conferência especial sobre “Filantropia e desigualdades”, durante o primeiro dia do 9º Congresso GIFE, atividade que contou com a mediação de Laura Greenhalgh, jornalista da Arq. Futuro.

Darren iniciou a sua fala destacando as motivações para essa nova atuação da Fundação. “Seja em qual lugar do mundo estiver, a desigualdade é profundamente sentida e a força motriz é consistente. E não falo das forças típicas ressaltadas pelos técnicos e economistas, como a globlização e a tecnologia. Mas ressalto aquelas que têm efeito sobre à desigualdade: as narrativas culturais, que são usadas para justificar porque alguns têm privilégios e outros não; o preconceito persistente, que busca de tantas maneiras marginalizar as pessoas da sociedade; a as regras da economia, que beneficiam os mais ricos”, disse.

O efeito, inclusive, dessa marginalização das pessoas da economia é a sua exclusão também dos processos políticos, o que acaba alavancando o sentimento de perda de potencial humano. “E é isso o que nós vemos nas sociedades desiguais: desperdício de potencial humano e falta de esperança. Certamente eu posso falar que a maior ameaça à nossa democracia é a falta de esperança que está no coração da narrativa. E quando tiramos a esperança das pessoas, a raiva, a frustação e as coisas disfuncionais crescem”, disse.

Segundo Darren, para alcançarmos uma democracia forte é necessária uma sociedade civil vibrante e resistente, que seja capaz de enfrentar e reagir frente às questões emergentes urgentes. Por isso, é essencial o apoio dos investidores sociais direcionando recursos para o fortalecimento das organizações da sociedade civil.

“Muitos de nós investidores de impacto social tratamos estas entidades como se fossem nossas contratadas. Mas essa não é a maneira como vemos a filantropia. O nosso papel é dar voz a estas pessoas, apoiar as suas instituições e suas ideais. Se estivermos focados apenas nos nossos próprios projetos, não seremos capazes de fortalecê-las em suas missões. É essencial entendermos que se temos um ecossistema forte, seja qual for a área de atuação dos investidores – saúde, educação, meio ambiente etc –  teremos resultados muito mais efetivos”, comentou.

O presidente da Fundação Ford ressaltou ainda o fato de que as fundações e institutos têm o privilégio de investir em iniciativas de longo prazo, tendo em vista que não precisam seguir o tempo dos governos, marcado por mandatos de poucos anos e a necessidade de mostrar resultados à população.

Como exemplo, Darren citou um projeto desenvolvido pela Fundação Ford na África do Sul durante 40 anos, por conta do regime de apartheid, exigindo um forte compromisso da organização com a justiça social e não apenas com métricas de resultados.

“Tenho certeza que se tivéssemos feito uma avaliação do programa neste período, iriam nos dizer que a iniciativa não estava tendo sucesso e que seria melhorar pararmos de investir lá. Mas, continuamos porque era a coisa certa a se fazer. E é isso que uma organização que está preocupada com justiça social precisa assumir. Muitas vezes não vamos conseguir colocar os impactos numa métrica quantificável. E não há problemas nisso”, ressaltou.

Novos tempos

Recentemente, Darren Walker publicou um artigo  no “The New York Times”, no qual defendeu a ideia de que não basta retribuir à sociedade, mas é preciso combater as causas estruturais das desigualdades. Em outras palavras, a filantropia não pode mais lidar simplesmente com o que está acontecendo no mundo, mas também deve questionar a forma como isso vem acontecendo e o porquê.

Questionado pela mediadora sobre o texto, Darren ressaltou que o pensamento a respeito da filantropia de 120 anos não é mais suficiente frente aos problemas atuais, que demandam ações estruturais e sistêmicas. No entanto, lembrou que são questões pouco atraentes, o que faz com que muitos não queiram atuar, mas que tendem a ter impactos realmente relevantes.

Neste sentido, o presidente da Fundação Ford fez uma convocatória aos presentes, convidando-os a atuar no rompimento das estruturas, que reforçam as desigualdades existentes. “Nós, que somos privilegiados, de que forma temos utilizado esse privilégio? Temos mantido essas estruturas ou temos atuado para a construção de uma democracia em que mais pessoas possam viver com equidade? Eu me contento em achar que, como as coisas estão bem para mim, então basta? Precisamos decidir como vamos usar os nossos privilégios”, reforçou.

Clique aqui e confira o debate online promovido pelo GIFE a respeito do tema: filantropia e desigualdades.

Para mais notícias do 9º congresso, acesse.

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