Alinhamento entre investimento social e negócio: o que o Censo GIFE nos revela?

Artigo de Rafael Oliva publicado no Censo GIFE 2014. Confira outros artigos e os resultados da pesquisa, aqui.

Nos últimos anos, o alinhamento entre investimento social e negócio tornou-se tema proeminente para os associados do GIFE, sendo cada vez mais percebido como inevitável entre institutos e fundações vinculados ao campo da ação social empresarial.

Essa mobilização não é certamente casual. Ao trazer para o centro da reflexão a relação entre investimento social privado (ISP) e negócio, o assunto tem desestabilizado convenções estabelecidas no setor e impulsionado, para bom número de instituições, mudanças nas suas formas de atuar.

A centralidade do tema radica, assim, na sua dimensão simbólica e também nos seus impactos concretos – verificados e potenciais – sobre institutos e fundações, empresas, OSCs e pessoas. Nesse contexto, não surpreende a presença de diferentes percepções quanto às suas oportunidades e riscos, combinando-se manifestações de entusiasmo, incerteza, ceticismo e resistência.

1.1 Alinhamento

Os parágrafos acima podem sugerir que os termos desse debate sejam inteiramente claros, como se houvesse um marco conceitual compartilhado. Mas isso não acontece. Dois elementos talvez sejam mais presentes nas elaborações sobre o alinhamento. Ambos, entretanto, são bastante abrangentes, não oferecendo uma delimitação precisa para o fenômeno.

O primeiro é a ideia de que o alinhamento traduz um movimento de aproximação entre ISP e negócios, fazendo nisso um contraponto à visão proposta pelo GIFE nos anos 1990. Essa visão, principal orientação para o ISP até meados dos anos 2000, originou, como se sabe, um padrão de relacionamento entre institutos e fundações e áreas de negócios marcado por pouca proximidade e baixo nível de compartilhamento de decisões e ações[1].

Já o segundo elemento aponta para o sentido geral da aproximação entre ISP e negócio. Aqui se destaca o entendimento frequente de que o ISP deve produzir “retorno” para o negócio ou, sua variante, “gerar valor”, formulação que, entre outros efeitos, carrega a expectativa de que o ISP tenha seus impactos de algum modo tangibilizados e percebidos no âmbito corporativo.

O significado atribuído à “geração de valor” não é, porém, uniforme, levando a que a própria noção de “negócio” presente na reflexão sobre o alinhamento assuma distintas conotações e, assim, a ideia de aproximação seja apreendida de diferentes formas.

De fato, a depender do interlocutor, o significado de geração de valor flutua entre o retorno econômico-financeiro vinculado ao desempenho empresarial em seu sentido mais estrito, passando por acepções situadas no plano mais simbólico da reputação e da imagem, e também para outras possibilidades, inclusive o retorno percebido na contribuição potencial do ISP à reflexão estratégica da empresa como um todo[2].

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Reconhecendo a relevância do tema para o setor, o Censo GIFE 2014 passou a endereçar algumas questões sobre o alinhamento, buscando compreender como se dá a influência dos institutos e fundações nas empresas mantenedoras, e vice e versa, assim como as percepções dos respondentes sobre os riscos e benefícios desse processo[3].

1.2 Importância das atividades da mantenedora para institutos e fundações

O Censo questionou sobre a forma e frequência com que as iniciativas de institutos e fundações empresariais “levam em conta as atividades da empresa”. A indagação dá especial atenção à importância da atividade empresarial na definição de características chave dos projetos desenvolvidos. Dos oito itens abordados, cinco deles envolvem especificamente essas características[4].

Não é possível depreender qual é o grau de participação de representantes das empresas nessas escolhas, tampouco a natureza das iniciativas. Ainda assim, é possível inferir o grau de proximidade entre institutos e fundações e o negócio, já que os aspectos abordados demarcam a base de possibilidades para o alinhamento entre ISP e negócios a partir das ações realizadas.

Dessa perspectiva, chama a atenção a relativamente baixa consideração das atividades das empresas mantenedoras. Para seis dos oito itens analisados, mais de 60% dos institutos e fundações não considera as atividades da empresa mantenedora em nenhum momento ou o faz apenas eventualmente. Ao evidenciar que para parcela relevante dos respondentes, suas iniciativas estão sob influência reduzida das empresas mantenedoras, o conjunto das respostas mostra o caráter desigual e, em muitos casos ainda incipiente, do alinhamento para o conjunto dos associados empresariais do GIFE.

Isso fica realçado, por exemplo, ao se constatar que aquelas atividades não são, em média, determinantes para a definição de aspectos definidores como os conteúdos temáticos trabalhados e o público-alvo. Em 48% das organizações, as atividades da empresa mantenedora são consideradas apenas em alguns casos na definição dos conteúdos temáticos e sequer são consideradas para 12% das organizações. Já em relação à definição do público alvo, em 28% das organizações as atividades da mantenedora são consideradas apenas ocasionalmente e para 33% não são consideradas. Para a dimensão territorial, que assume, talvez, caráter ainda mais estratégico, o resultado é semelhante: embora seja objeto de maior atenção é significativo o percentual de instituições que desconsideram as atividades da empresa mantenedora para a definição dos locais de atuação das iniciativas dos institutos e fundações ou fazem uso apenas eventual dessa variável, 42%.

1.3 Influência dos institutos e fundações em processos da mantenedora

O Censo também pergunta de que modo os institutos e fundações avaliam a influência de suas práticas e de sua expertise nos “procedimentos e nos processos operacionais” da empresa mantenedora, abordando 10 aspectos distintos.

Destacam-se, nas respostas, dois aspectos. Primeiro, a auto avaliação em geral positiva da capacidade de incidência de institutos e fundações, uma vez que para 8 dos 10 itens mais de 60% dos respondentes afirmam ocorrer influência, patamar em boa medida surpreendente, dado bastante superior ao observado para a influência exercida pelas atividades da empresa nas iniciativas dos associados, como vimos acima.

Em segundo lugar, chama a atenção a abrangência da influência percebida por institutos e fundações, que compreende vários aspectos, envolvendo “princípios e valores” (80% das organizações consideram que influenciam as empresas em relação a seus princípios e valores), aspectos de comunicação (77% das organizações dizem contribuir para a melhoria do diálogo com a comunidade do entorno e 63% dizem influenciar a forma com que a empresa se comunica com o público em geral) e programas voltados aos colaboradores (63% das organizações influenciam a implementação de programas voltados aos colaboradores da empresa mantenedora), entre outros itens.

Em terceiro lugar, finalmente, é de se notar que nas perguntas que dizem respeito a aspectos mais operacionais da atividade empresarial, a percepção de influência alcança níveis consideravelmente menores: 28% dos institutos e fundações dizem influenciar os processos produtivos e 45% os procedimentos adotados com fornecedores e clientes.

Esse último resultado leva a duas observações: de um lado, o sentido geral do alinhamento ainda parece estar associado principalmente a dimensões simbólicas e de relacionamento e menos ao que poderia ser reconhecido como o core business do negócio.

De outro, soa intrigante que a elevada capacidade de influência no plano dos valores e no controle de externalidades negativas, auto-atribuída pelos institutos e fundações, não se converta em capacidade de influência também em aspectos operacionais. Isso indica, talvez, um entendimento impreciso da primeira indagação ou, ainda, uma possível fratura entre o nível discursivo e a sua efetivação nos processos e procedimentos ligados à produção.

1.4 Incerteza e otimismo

Em relação às implicações do alinhamento, o Censo GIFE 2014 abordou 25 possíveis hipóteses sobre os riscos e os benefícios do alinhamento[5], para as quais as organizações podiam concordar totalmente, parcialmente ou discordar, com isso possibilitando uma boa leitura das expectativas e inquietações existentes no setor em relação ao processo.

De saída, dois aspectos devem ser destacados com base nos resultados apurados pelo Censo. Primeiro, a presença de um grau elevado de incerteza em relação aos possíveis desdobramentos do alinhamento. Há, é certo, temas em que as dúvidas são menos intensas, como se verá adiante. Mas, em média, 38% das respostas às 25 perguntas mostram concordâncias parciais[6], o que indica não haver inteira segurança, entre os institutos e fundações, quanto ao sentido geral do processo.

Assim, ainda que se possa supor que para um subconjunto de instituições os caminhos do alinhamento podem estar mais consolidados – e, desse modo, as expectativas em relação a ele estabilizadas –, para o conjunto dos respondentes do Censo não é essa a situação predominante.

Além da incerteza, é possível identificar, em segundo lugar, uma inclinação otimista, sobressaindo a identificação de benefícios em comparação com as perdas e riscos associados ao alinhamento. Isto é, ainda que modulado por graus não irrelevantes de incerteza, há indicações fortes de que vai se conformando um ethos favorável a uma maior integração entre ISP e negócios.

Em média, o nível de concordância total com os possíveis benefícios percebidos do alinhamento é de 44%, bastante superior ao observado para os riscos, de cerca de 13%. E, confirmando esse viés, o nível de discordância quanto aos riscos é quase 5 vezes o observado em relação aos benefícios, o que mostra que os associados se sentem muito mais seguros na identificação de ganhos do que na visualização de possíveis perdas.

1.5 Principais benefícios

Entre os benefícios apontados, três expectativas apresentam índices mais elevados de concordância plena: a de que o alinhamento contribuirá para uma maior adesão dos dirigentes e colaboradores à atuação social da empresa (62%); a de que institutos e fundações poderão assumir novas funções com impactos positivos mais fortes na estratégia de gestão e de responsabilidade social da empresa (62%); e a de que o alinhamento poderá ampliar os benefícios de “mão dupla” (58%).

A primeira admite duas intepretações. Ela indica a esperança de que o alinhamento proporcione maior visibilidade ao ISP, do que se originaria um maior conhecimento e interesse de dirigentes e colaboradores frente à “área social”. Mas também que o diálogo com interesses e objetivos da empresa poderia promover maior adesão. Misturam-se, assim, a confiança de que a aproximação gerará reconhecimento do trabalho já desenvolvido e a compreensão de que a adequação do ISP às exigências, novas, do alinhamento pode favorecer o envolvimento de lideranças e colaboradores. Nos dois casos, a aposta na aproximação assume coloração positiva.

A segunda expectativa combina dois elementos relacionados, porém distintos, ao cogitar (i) a assunção de funções por institutos e fundações na estratégia de gestão e de responsabilidade social, aventando o aumento de sua capacidade de influência de  dentro da empresa; e (ii) a ampliação dos seus impactos, o que aponta para a hipótese de que o alinhamento poderia proporcionar maior efetividade no desenvolvimento dos projetos.

Não há como concluir com certeza se um desses elementos prevaleceu nas respostas, ou se influência e impacto foram percebidos de forma articulada. Todavia, a julgar pelas respostas analisadas no item anterior, é possível que institutos e fundações tenham concedido ênfase à sua capacidade de influência.

A terceira expectativa, por fim, é a de que o alinhamento poderá ampliar os benefícios de mão dupla (ganha-ganha). A intepretação isolada desse resultado não é simples, dado o caráter genérico do enunciado. Aparentemente, contudo, o seu significado principal é demonstrar que a retórica da “geração de valor compartilhado” tem ganho força dentro do setor como fundamentação para o alinhamento, também contribuindo, talvez, para o fortalecimento do viés otimista a que nos referimos anteriormente.

1.6         Riscos percebidos

Como apontado, é baixo o nível geral de convicção dos respondentes em relação aos riscos aventados pelo Censo. Para todas as situações, as discordâncias foram sempre mais elevadas que as concordâncias plenas e, em média, mais frequentes que as concordâncias parciais. Reforça-se aqui a combinação otimismo e incerteza.

Esse resultado, contudo, não deixa de causar surpresa. Em oficinas realizadas pelo GIFE ao longo de 2015 e também em entrevistas com associados feitas no âmbito de estudo sobre o tema [7], duas preocupações apareceram de modo recorrente.

Primeiro, que o alinhamento restrinja o leque e o perfil dos programas e projetos hoje desenvolvidos. Essa inquietação se expressa no temor de que a abrangência territorial do ISP se limite às áreas em que a empresa atua; no temor de abandono de uma das “premissas atuais” do ISP, a incidência em políticas públicas; e na preocupação de que o alinhamento estreite o espectro temático e de públicos alcançados, notadamente para agendas ligadas ao reconhecimento e à afirmação de direitos.

No Censo GIFE, 5 itens têm relação com esses riscos. Em quatro deles, a concordância total é inferior a 20%[8], sendo que o tema com menor percentual concerne ao “abandono de causas sociais relevantes que envolvem atividades de risco e/ou de pouca visibilidade” (12%), o que mais se aproxima da agenda de direitos, dimensão frequentemente enfatizada.

Uma segunda fonte frequente de inquietações, por seu turno, corresponde à ideia de que o alinhamento pode levar à “instrumentalização” do ISP pelo negócio, acarretando a sua “perda de legitimidade”. Mas para o conjunto dos respondentes do Censo esses temas não provocam grande perturbação, ao contrário. Apenas 3%, ou dois respondentes, admitem o risco de instrumentalização, frente a 63% de discordância total.

Se nos ativermos à leitura desses resultados, o que se constata, portanto, é que para a maioria dos associados não há temores significativos de que o alinhamento venha a produzir rupturas significativas no perfil das ações sociais desenvolvidas, tampouco de que o ISP tenha seu sentido público comprometido.

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A observação conjunta dos aspectos abordados acima delineia um quadro em que se destacam três traços. Primeiro, o caráter ainda incipiente do alinhamento para o conjunto dos institutos e fundações empresariais, o que se vê na reduzida importância dada às atividades da mantenedora nas escolhas feitas pela grande maioria dos respondentes ao Censo GIFE 2014. Segundo, a auto-imputação, por institutos e fundações, de uma expressiva capacidade de influência sobre a mantenedora, o que se dá sobretudo no plano dos princípios e valores, sem, no entanto, desdobrar-se com a mesma força no nível operacional. E, finalmente, a existência de um grau elevado de incerteza em relação ao alinhamento que, não obstante, é matizada por um viés claramente otimista, sobressaindo a identificação de benefícios em comparação com as perdas percebidas e entrevistas com o desenvolvimento do processo.

 

[1]  É disseminado o entendimento de que, no momento de formulação do conceito, o ISP foi pensado como algo não vinculado à operação empresarial, pretendendo qualificar uma ação voluntária e “desinteressada” das empresas de repactuação de responsabilidades públicas com governos e sociedade.

 

[2] Em outros casos, a demanda por geração de valor chega até mesmo a ser enunciada como um direcionamento aberto, projetando-se o seu delineamento para um caminho a ser ainda trilhado.

[3] As perguntas ligadas ao alinhamento ao negócio foram feitas para empresas, institutos e fundações familiares com envolvimento com as empresas da família e institutos e fundações empresarias, porém no âmbito deste artigo serão consideradas somente as respostas de institutos e fundações empresariais.

[5] Desse total, 12 perguntas indagavam sobre benefícios e 13 sobre riscos. Os itens seguintes discriminam cada um dos campos. Essas perguntas foram replicadas da pesquisa BISC com o objetivo de comparar os resultados com as amostras dos respectivos estudos.

[6] A resposta “concordo parcialmente” revela a admissão de que o benefício/risco pode ocorrer/existir, mas sem que haja convicção em relação a essa possibilidade.

[7] Refiro-me aqui a estudo específico sobre o alinhamento que irá compor o primeiro número da Série Temas do Investimento Social Privado. A publicação está em fase de finalização pelo autor e será publicada pelo GIFE no início de 2016.

[8] O alinhamento induz a ações mais focadas enquanto que os problemas sociais demandam soluções multissetoriais (18%); O alinhamento induz à realização de atividades com retorno de curto prazo o que nem sempre pode ser alcançado com os programas sociais (13%); Com o alinhamento a empresa se torna executora dos investimentos sociais e reduz os recursos transferidos para o apoio das organizações sem fins lucrativos (12%); O alinhamento pode levar ao abandono de causas sociais relevantes que envolvem atividades de risco e/ou de pouca visibilidade (12%). O quinto item seria com o alinhamento a empresa restringe sua atuação à área de influência dos negócios (30%).

 

Rafael Oliva é graduado e mestre em Economia pelo Instituto de Economia da Unicamp e doutor em Administração Pública e Governo pela EAESP-FGV. É consultor independente.

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