Comunicação é parte intrínseca do processo avaliativo, apontam especialistas

Pensar a comunicação como estratégia fundamental e parte de todo o processo avaliativo – no antes, no durante e no depois – pode garantir que os resultados façam sentido e sejam de fato utilizados pelos vários atores e públicos envolvidos. Essa é a aposta de especialistas presentes no 4º encontro do Ciclo de Avaliação, promovido pelo GIFE, pela Fundação Itaú Social e a Fundação Roberto Marinho no dia 05 de julho, em São Paulo.

A atividade, que marcou o fim deste ciclo, discutiu também a importância e o uso da avaliação no desenvolvimento organizacional (clique aqui e leia a matéria a respeito).

Os consultores em projetos de monitoramento e avaliação, Clarice Corrêa de Mendonça e Guilherme Andrade Silveira, da Herkenhoff & Prates (HP), destacaram que é preciso responder primeiro uma série de dilemas da avaliação para poder pensar na comunicação. O primeiro deles é: avaliar para quê? Dependendo da resposta, ou seja, do objetivo que se quer com a avaliação – que pode ser comunicar os resultados ao mundo, mobilizar grupos, prestar contas aos financiadores, possibilitar correções de rumos etc. –, as estratégias de comunicação serão diferentes.

Se a proposta for prestar contas aos financiadores, por exemplo, o melhor produto de comunicação a ser elaborado pode ser um relatório mais denso com todos os dados da avaliação. Agora, se a ideia for utilizar a avaliação para mobilizar um público externo, talvez o ideal seja a produção de um vídeo com algumas informações-chave levantadas na avaliação.

Outra pergunta primordial a se fazer é: avaliar para quem? Como há diversos públicos a serem atingidos e envolvidos, será fundamental entender previamente estes perfis para produzir uma comunicação que, de fato, possa chegar, mobilizar e ser entendida por este público, com uma linguagem adequada e certeira, a fim de que os dados possam ser compreendidos e utilizados.

Quais são as características, interesses e linguagens de cada um destes públicos? Quais são os canais que eles acessam? Estão nas redes sociais ou nos jornais impressos? Quem são os grupos que podem influenciar este público que eu quero alcançar?

Ao pensar no público, será preciso também, como lembrou Ana Penido (diretora executiva do Instituto Inspirare), pensar no que comunicar, construindo uma narrativa que identifique as mensagens-chave – aquelas essenciais, úteis, relevantes e fundamentais de serem destacadas, para atingir o propósito inicial. Nesse sentido, outras perguntas surgem: Qual informação é útil para cada interlocutor? Quanta informação cada interlocutor pode consumir?

Assim, da mesma forma que em relação aos objetivos, o produto de comunicação será diferente em acordo com o público: talvez criar um infográfico seja a melhor forma de chegar ao público jovem, enquanto um resumo executivo pode caber melhor aos gestores do projeto. “Em todo o processo, dois pontos são fundamentais para se ater: a linguagem, que precisa ser adaptável ao público, e o formato, que deve ser inovador e criativo. Além disso, é preciso prever, desde o início, recursos específicos para se produzir estes vários produtos de comunicação”, ponderou a consultora Clarice, destacando que o entendimento de contextos é ponto crucial para saber se comunicar da melhor forma.

Nesse sentido, a atuação de especialistas no tema do estudo pode ajudar na definição dos conteúdos centrais a serem destacados para cada público. Além disso, a realização de feedbacks com os vários interlocutores ativados durante o processo avaliativo, ao longo do caminho, pode ainda proporcionar um constante amadurecimento dos resultados e da forma de comunicá-los.

Segundo Guilherme, outra questão central ao comunicar uma avaliação não é apenas apresentar os resultados, como, por exemplo, a situação de uma determinada rede de ensino, mas também apresentar possíveis encaminhamentos e soluções para a melhoria.

Portanto, o processo de diálogo sobre os resultados é etapa primordial para que a avaliação e as informações levantadas sejam de fato significativas e criem-se entendimentos conjuntos sobre os resultados e os próximos passos a serem dados. Assim, a comunicação dos resultados de uma avaliação pode despontar ações de mobilização e de incidência.

 

Comunicação na prática

Para ilustrar esse processo, Anna Penido compartilhou com os presentes toda a estratégia de comunicação dos resultados da pesquisa “Nossa Escola em (re)Construção”, realizada com 132 mil jovens de 13 a 21 anos, sobre o que pensam da escola e como gostariam que ela fosse.

Entre os produtos produzidos, por exemplo, foi elaborado previamente um teaser, de um minuto, divulgado duas semanas antes do lançamento da pesquisa, para levantar a curiosidade das pessoas sobre o que estaria por vir. Em seguida, foi elaborado um hotsite em que é possível acessar o relatório completo, além de diversos dados da pesquisa em formato de infográficos, com os destaques das mensagens-chave. No espaço, há ainda um vídeo com depoimentos de jovens participantes sobre o processo. “Os números de uma avaliação não têm cara, não têm alma, não têm algo envolvente. O vídeo humaniza os dados”, destacou Anna.

Para as mídias tradicionais, foi enviado um release genérico com os resultados da pesquisa, além da customização deste texto para os veículos de imprensa específicos. Algumas pessoas envolvidas no processo da avaliação foram preparadas também para dar entrevistas. “É preciso lembrar que a narrativa não vem só no produto, mas da nossa forma de apresentação, na oralidade. Por isso, é preciso se preparar para falar dos resultados, saber qual a mensagem que tem que falar mais, até mesmo quando o jornalista não pergunta”, completou a diretora do Inspirare.

Para as mídias institucionais – site do Inspirare, Porvir e parceiros – também foram preparados textos a respeito e publicados ao longo do processo – antes, durante e depois –, tanto para convocar os participantes para a pesquisa, quanto para contar como estavam sendo as mobilizações e, depois, para repercutir os resultados finais. Anna lembrou que a comunicação via mídias sociais foi fundamental, com várias publicações a respeito e transmissão ao vivo durante o dia do lançamento da pesquisa, permitindo uma interação entre especialistas, jovens e internautas.

O Inspirare realizou ainda ações de mobilização, como eventos de lançamento e palestras sobre o tema, além de ações de incidência, como reuniões com gestores públicos para apresentar os dados, sempre com um recorte das informações relevantes para aquela rede de ensino. Em audiências públicas, os resultados da pesquisa foram utilizados para debater e sugerir mudanças nos processos educacionais, assim como subsídios para papers e documentos de incidência, a fim de ajudar na tomada de decisão.

 

Inovar para mobilizar

Construir uma narrativa criativa e inovadora para que a informação possa, de fato, gerar conhecimento, sensibilizar ou até mesmo mobilizar as pessoas, nem sempre é tarefa fácil. Para trazer novas inspirações neste campo, a antropóloga e fundadora do jornal digital Nexo, Paula Miraglia, apresentou de que forma o veículo tem pensado a sua formulação de narrativas que visam impactar o debate público.

O jornal foi lançado no final de 2015 e tem buscado produzir materiais que, mais do que a informação factual de uma notícia, possam também trazer o contexto e a explicação, aprofundando os assuntos abordados pela mídia. “Isso tem uma interface muito grande com a questão da avaliação: Qual é a pergunta que vamos fazer sobre aquele assunto? Qual é a perspectiva que vamos trazer para o leitor? O que realmente importa sobre este tema? A nossa ideia não é de neutralidade, mas somos muito assertivos e contundentes com o que queremos abordar. É trazer diferentes perspectivas e mostrar que o debate é possível, algo que ganha ainda mais importância no atual cenário do Brasil marcado pela polarização”, ponderou Paula.

O jornal hoje utiliza diferentes ferramentas e linguagens para tratar as informações, inclusive de estudos e pesquisas. A partir dos dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), por exemplo, a equipe se lançou o desafio de pensar em qual informação poderia provocar uma reflexão no leitor sobre desigualdade social e de renda no Brasil, conseguindo chamar a atenção para um tema que, mesmo diante da sua relevância, está desgastado. Assim, na seção ‘Interativo’, o Nexo criou uma ferramenta em que o leitor pode comparar o seu salário diante da realidade brasileira.

“É um jeito diferente de apresentar uma base dados, e conseguimos provocar uma reflexão”, comentou Paula. Outros formatos utilizados para apresentar de forma diferente resultados de pesquisas são as seções ‘Vídeos’, ‘Gráficos’ e ‘Explicado’, que aprofundam temas que julgam estruturais, como licenciamento ambiental, fome, trabalho escravo etc.

A fundadora do Nexo lembrou que hoje há muitas possibilidades para as organizações explorarem formas de apresentar os dados levantados pelas avaliações, e que elas devem aproveitar as novas oportunidades, trazendo as pessoas para o debate. “Precisamos identificar como os temas conseguem tocar as pessoas, mesmo que elas não tenham nenhuma ligação com aquele assunto”, completou.

Porém, ressaltou novamente, como os outros especialistas presentes no Ciclo de Avaliação, a importância de se estabelecer também formulações propositivas que vão além do diagnóstico.

 

Aprendizados a compartilhar

Mas a que os gestores precisam ficar atentos para que o processo de avaliação e de comunicação dos resultados sejam oportunidades de crescimento e aprendizado para os públicos?

Angela Dannemann, superintendente da Fundação Itaú Social, comentou sobre duas experiências de processos avaliativos realizados pela organização. Uma delas foi a avaliação promovida junto ao Programa Mais Educação – iniciativa do governo federal que amplia a jornada escolar com foco na educação integral – que encontrou alguns obstáculos para ser promovida, o que impactou nos resultados apresentados.

A avaliação foi construída com dados limitados, o que impossibilitou avaliar todas as dimensões de interesse do programa, e o país, na época, passava por um momento conturbado no Ministério da Educação – várias trocas de ministros e equipe. Houve uma decisão de divulgar os resultados complexos da avaliação apenas para público especializado e a divulgação de resultados parciais para a grande mídia.

A questão é que houve uma ampla divulgação dos veículos de imprensa sobre dados da pesquisa que mostraram que não houve impacto – a curto prazo – do programa nas notas dos estudantes de instituições que participaram da iniciativa. Porém, este não era o foco central do programa, que tinha outros objetivos como promover a cultura e a prática esportiva, aproximar famílias, escola e comunidade, combater o trabalho infantil. No programa, as escolas ofereciam uma série de atividades, principalmente no contraturno, a fim de promover o desenvolvimento integral dos estudantes, ou seja, a partir da sua multidimensionalidade (desenvolvimento social, físico, cultural, cognitivo etc.).

“O que poderia ter sido diferente? Estabelecer uma pactuação prévia com os agentes envolvidos das condições e limitações da avaliação e das possibilidades de cenários negativos, com mapeamento dos riscos e caminhos alternativos”, comentou Angela (clique aqui para ler matéria a respeito).

Já a avaliação do Programa Escola Integrada de Belo Horizonte, por exemplo, encontrou caminhos mais oportunos, em que foi possível estabelecer uma boa interlocução com os stakeholders locais e promover uma pesquisa de campo com metodologia e com muitos dados.

Segundo a superintendente da Fundação, estes dois casos trouxeram uma série de aprendizados, como a importância do monitoramento para entender e tratar os desafios da implementação da avaliação, e que as informações da avaliação precisam ser bem organizadas e compreendidas pelas partes interessadas.

“A comunicação dos resultados deve ser negociada desde o início do processo e planejada em etapas, de modo a contemplar todas as partes interessadas. Além disso, como muitas vezes os avaliadores e os gestores têm linguagens diferentes, é fundamental que os resultados sejam traduzidos para atingir todo o seu potencial de contribuição. Por fim, se a avaliação não responde às perguntas de interesse, de nada vale o esforço de comunicar”, ressaltou Angela.

 

Próximos passos

Após todas as discussões promovidas ao longo do dia no último encontro do Ciclo de Avaliação, os participantes puderam ainda trazer sugestões para que o tema continue em discussão entre os investidores sociais. “A avaliação é um tema permanente ao longo dos anos e deverá ser sempre devido à sua relevância. O acúmulo de conhecimento geral deste Ciclo deve ser compartilhado em outros espaços”, ressaltou José Marcelo Zacchi, secretário-geral do GIFE.

Em breve, inclusive, será disponibilizada a nova publicação com a sistematização deste encontro.

Materiais

Para retomar o que foi abordado nos outros encontros, acesse as matérias:
1º encontro – ANTES (nov/16)
2º encontro – DURANTE (fev/17)
3 encontro – DURANTE (maio/17)

Veja também as publicações com as sistematizações dos encontros anteriores:

Avaliação para o investimento social privado: criar condições antes de avaliar

Avaliação para o investimento social privado: definir o caminho metodológico mais adequado

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