Filantropia estratégica ou emergente: o que isso tem a ver com a gente?

Há hoje certa recorrência em afirmar que o investimento social privado passa por transformações. Mas é provável que o consenso termine aí. A direção percebida e desejada das mudanças são atravessadas por visões distintas e muitas vezes contraditórias. Frequentemente não são as respostas que estão sendo questionadas, mas as próprias perguntas.

Em um artigo recente, publicado no Stanford Social Innovation Review com o titulo Strategic Philanthropy for a Complex World, os consultores John Kania, Mark Kramer e Patty Russel argumentam a insuficiência da “filantropia estratégica” em lidar com o que chamam de problemas complexos. Esta, segundo os autores, pode ser entendida como uma estratégia de investimento baseada em metas precisas, embasadas em dados consistentes, modelos de avaliação robustos e processos de accountability. A filantropia estratégica, pelo seu modelo linear baseado na previsibilidade e controle dos processos, seria ainda adequada para lidar com problemas mais simples, em que há maior controle sobre a interação dos atores e influências externas. Mas não para os complexos, que insistem em aparecer quando lidamos com transformações sociais. Diante desses problemas, deveríamos adotar o modelo de “estratégia emergente”, que assume como parte do processo a nossa incapacidade de prever a dinâmica que se constitui como resultado de uma ação.

A questão aqui não é discutir a proposição dos autores, já amplamente debatida e questionada (sobre isso, ver debate), mas a adequação desses modelos ao contexto do investimento social privado no Brasil.

Tanto os proponentes como os críticos da tese partem do reconhecimento de que os atores envolvidos desempenham funções mais ou menos bem definidas. Há, de uma lado, as fundações que, segundo Darren Walker, presidente da Fundação Ford, são atores coadjuvantes na história da transformação social (desempenhando papel de suporte), e, de outro, as organizações da sociedade civil (grantees), apoiadas pelo campo fundacional nas suas variadas estratégias.

Em que medida essa relação e divisão de papéis aplicam-se à realidade brasileira? Os dados do Censo GIFE indicam que cerca de 20% dos recursos aplicados por seus associados são doados a outras organizações. Mesmo sem entrar em qualquer detalhamento sobre o que compõem esses 20%, é possível assumir que a maior parte do recurso é operado diretamente pelos investidores. Portanto, a reflexão que contrapõe a filantropia estratégica a uma abordagem emergente tem pouca ressonância para investidores brasileiros. Os elementos constitutivos de uma filantropia estratégica parecem estar presentes de maneira dispersa na atuação dessas organizações – seja para balizar seu apoio a organizações da sociedade civil ou referenciar seus próprios projetos.

De maneira similar, os elementos que compõem a chamada estratégia emergente aparecem distribuídos em ações desenvolvidas por investidores sociais no Brasil quando, por exemplo, buscam construir coalizões em torno da construção de uma base nacional comum para a educação ou para o desenvolvimento do campo das finanças sociais no Brasil. Outro exemplo relevante é a construção de cenários transformadores, processo que reconhece a diversidade em um determinado sistema e parte dela para a construção de cenários futuros – como nos cenários para sociedade civil, educação básica e democracia na América Latina (os dois últimos ainda em desenvolvimento).

Mas essas abordagens aparecem com frequência misturadas, fragmentadas, tudo ao mesmo tempo agora. Não há uma linearidade evolutiva, que parece pressupor a análise dos autores do referido artigo. Os atores envolvidos com o desenvolvimento socioambiental no Brasil, que incidem sobre uma realidade sempre complexa dinâmica, parecem não se encaixar nos modelos e tipologias que frequentemente orientam a reflexão sobre a filantropia nos países anglo-saxões.

Mas dialogar com esses debates pode ser uma maneira interessante de nos conhecermos um pouco mais e, principalmente, construirmos uma cultura de reflexão sobre nossa própria autuação.

Andre Degenszajn, Secretário Geral do GIFE

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