Gerar conhecimento e dados qualificados sobre as causas aproxima ISP da imprensa

Numa sociedade em que as informações circulam cada vez mais rápido pelas redes sociais e que todos se tornaram também autores e produtores destas informações, de que forma os investidores sociais podem conseguir espaço para disseminar suas causas? Qual a melhor forma de estabelecer essa relação com a mídia?

Essas foram algumas das questões que nortearam o encontro “Investimento Social e Mídia”, promovido pelo GIFE em São Paulo, no dia 01 de setembro, com a participação de Paula Miraglia, antropóloga e cofundadora e diretora geral do jornal Nexo, e Alexandre Mansur, jornalista e editor-executivo da revista Época. A iniciativa é uma continuidade de conversa iniciada no 9º Congresso GIFE com o debate “O papel do jornalismo em sociedades democráticas”.

Alexandre Mansur iniciou o encontro apresentando um panorama de crise de financiamento da imprensa, diante das mudanças trazidas pelas redes sociais. Lembrou que a imprensa perdeu muitos recursos da Publicidade, pois hoje os anunciantes não investem mais diretamente nas empresas de comunicação, mas sim no Facebook. “As redes mudaram a lógica existente até então do produtor e de distribuidor de informação. O Facebook não pede licença para distribuir o que você produz hoje. Ele não te paga nada e ganha com o seu produto”, comentou Mansur.

O jornalista trouxe como exemplo o fato de que a própria Época, na época das manifestações de 2014, estava proibida de publicar notícias sobre esse tema no Facebook, mas, num levantamento realizado pela Folha sobre influenciadores nessa questão, a Época apareceu em terceiro lugar. “Isso porque, por mais que não publicássemos sobre, as outras pessoas postavam as nossas notícias nestas redes. Ou seja, os produtores têm audiência, mas perderam recursos”.

Na opinião do editor da Época, há três pontos de atenção fundamentais em relação às redes. O primeiro diz respeito ao fato de que a informação está fragmentada, colocando as pessoas cada vez mais em ‘bolhas’, tendo em vista que a distribuição da informação está baseada por afinidade de interesses da “timeline”.

O segundo aspecto é o radicalismo, tendo em vista que as vozes mais radicais no Facebook ganham  espaço, pois têm mais ‘curtidas’. E, por fim, o terceiro ponto de atenção é a fraude de informação. Uma pesquisa realizada pela BBC, por exemplo, apontou que na semana de discussão do impeachment no Brasil, três de cada cinco notícias mais compartilhadas no Facebook eram falsas. A própria Época já se viu diante da publicação e compartilhamento de notícias falsas em seu nome.

“O que temos, com isso, é uma crise financeira em que põe as redações cada vez mais enxutas. Isso sem falar que, se você quer ser um veículo honesto, tem prejuízo”, analisou Mansur.

Alguns veículos de comunicação que já nasceram neste novo cenário, como é o caso do jornal Nexo, têm buscado novos modelos de negócios para se manter e ganhar espaço nesse ambiente de produção e distribuição de informação.

No ar há menos de um ano, o Nexo não conta com publicidade, teve um aporte inicial de seus fundadores, e aposta num modelo de assinaturas. “Isso fala das nossas motivações. A comunicação tem poder de mobilização enorme e a disputa do debate púbico passa por aí também. É uma aposta arriscada, mas revela o compromisso em produzir informação de qualidade e acreditar que as pessoas estão dispostas a pagar por conteúdo”, comentou Paula.

Sendo assim, o Nexo não se atém às notícias de ‘furo’, ‘quentes’, como ditas na imprensa, mas sim, na elaboração de materiais mais reflexivos, completos, que possam traz um contexto e uma informação mais plural. A partir da expertise de uma equipe multidisciplinar, o jornal promove uma produção colaborativa entre as áreas e formatos diferenciados para aproximar os leitores de temas relevantes, como enquetes, gráficos, podcasts, entre outros.

“O que eu acho fundamental neste processo é pensar em que tipo de informação você quer produzir e com quem você quer conversar. É preciso separar audiência de relevância. Você quer mil ‘likes’ de qualquer pessoa ou prefere ter 50 ‘likes’ de um público qualificado. Para nós isso é fundamental”, comentou.

Na opinião de Paula, o momento atual para a imprensa não é apenas de crise financeira, mas de credibilidade. Há uma disputa de narrativas e a imprensa precisa recuperar o seu lugar. “O valor está justamente no fato dos leitores, por exemplo, lerem e saberem que podem confiar naquela informação. Para a gente, o valor está aí”, completou a antropóloga.

ISP e mídia

Diante deste cenário apresentado pelos debatedores, afinal, como o investimento social privado (ISP) pode trazer para a pauta de debate suas causas? O que funciona e o que não funciona nesta relação?

Na avaliação dos especialistas, um ponto fundamental é gerar conhecimento e evidências sobre as causas. Ou seja, apresentar dados qualificados e resultados que sejam relevantes para a sociedade. A ideia não é pautar da maneira que o instituto e/ou fundação acredita ser mais conveniente, mas aproximar a imprensa deste conhecimento e diminuir espaços e tempos, oferecendo informação qualificada e fontes confiáveis.

No caso do Nexo, por exemplo, aproximar a redação dos especialistas nestas temáticas funciona muito bem. “Os investidores precisam entender o que é chave de cada causa e apresentar isso, assim como o impacto que estas questões terão no longo prazo. Isso sem falar de aproximar a causa e mostrar a sua relevância diante de temas e discussões do cenário atual”, ressaltou Paula.

Porém, lembraram os comunicadores, os investidores sociais não devem gerar expectativas em relação ao que será publicado e a forma como a informação será divulgada, a fim de manter a imparcialidade do jornalismo.

“Mesmo que os dados não sejam novos, já que não é possível lançar uma pesquisa ou estudo sempre, o investidor pode ajudar a trazer um novo olhar sobre aquilo, uma nova roupagem. Isso nos ajuda, pois poderíamos levar muito mais tempo para chegar a essa percepção, tendo em vista que não somos especialistas em todos os temas”, ponderou a diretora do Nexo.

No caso da Época, há alguns modelos já testados de parcerias, como cadernos especiais sobre temáticas relevantes para os investidores sociais – educação, saúde, meio ambiente etc -, ou criações de prêmios e inserções de petições online nas matérias para causas específicas. “Mas, seja qual for o modelo, é preciso ser transparente e deixar claro para o leitor como se dá essa relação de parceria. Isso sem falar que não pode ter conflito de interesse”, comentou Mansur, destacando que institutos e fundações empresariais encontram mais dificuldade de trazer suas pautas para a imprensa, justamente por ‘carregarem’ o nome de seus mantenedores.

Durante o encontro, investidores sociais presentes comentaram a respeito de alguns modelos que têm adotado para apresentar suas causas à imprensa. O Instituto Alana, por exemplo, estabeleceu uma parceria com o Catraca Livre e criou o Catraquinha, site que visa ser um espaço para incentivar e empoderar a sociedade sobre a importância de cuidar e acolher a primeira infância, promovendo o seu desenvolvimento integral.

Já a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, por exemplo, conta com o “Curso de Liderança Executiva em Desenvolvimento da Primeira Infância”, em parceria com a Universidade de Harvard (EUA), voltado aos formuladores de políticas públicas, gestores públicos e representantes da sociedade civil. Nesta formação, a Fundação convida jornalistas brasileiros para acompanhar o curso a fim de qualificar o debate na imprensa sobre a temática.

Na opinião de Mansur, a capacitação dos jornalistas, inclusive, foi muito importante na imprensa, porém, agora, devido às redações estarem cada vez mais enxutas, é difícil conseguir disponibilidade de equipe para participar de iniciativas como estas.

Segundo os especialistas, o momento atual do país é favorável para o debate sobre causas, tendo em vista que a sociedade está mais disposta e quer discutir com profundidade e qualidade as questões colocadas. O desafio é aproximar os cidadãos destes temas, fazendo com que estes percebam o que aquilo lhes diz respeito e como também impacta no seu cotidiano.

Estar atento às discussões que têm circulado nas redes sociais é outro ponto-chave também, apontam os comunicadores, pois apresenta aos investidores sociais aquilo que tem se apresentado como relevante para o debate social naquele momento. “A rede social mostra que lado as pessoas estão se colocando e como o tema vem sendo tratado. Isso é muito rico, pois agora conseguimos ver o debate acontecendo na nossa frente e quais são as visões que estão em disputa”, comentou Paula.

Alexandre Mansur finalizou o encontro convidando todos os presentes a ampliar o debate, multiplicando a conversa para novos espaços, a fim de que outros comunicadores e investidores sociais possam refletir sobre o cenário atual e trocar experiências a respeito dos caminhos estabelecidos.

Leia mais sobre o tema

FacebookTwitterLinkedInGoogle+