Investimento Social Familiar – Um legado para sociedade e para a família

Artigo publicado por Ana Carolina Velasco no Censo GIFE 2014. Confira outros artigos e os resultados da pesquisa, aqui.

As famílias de alto poder aquisitivo no Brasil estão cada vez mais interessadas em estruturar sua forma de contribuir com a sociedade e com isso, deixar seu legado.

Na Rede GIFE, tivemos um aumento na base de investidores familiares em mais de 100%, desde 2008, passando de oito para vinte e três associados neste perfil.

Também tivemos mais espaços de diálogos que, junto com os dados do censo, nos permitem conhecer mais este grupo.

O Investimento social familiar pode ser entendido quando uma família, seja um núcleo familiar ou um indivíduo, decide estruturar sua forma de investir no desenvolvimento da sociedade.

De acordo com a definição do GIFE, investimento social privado é o repasse voluntário de recursos privados de forma planejada, monitorada e sistemática para projetos sociais, ambientais e culturais de interesse público.

Importante ressaltar que o Investimento social familiar não é outra forma de investimento. É apenas uma forma de engajamento e envolvimento dos membros da família para o desenvolvimento do bem público.

As motivações para se estruturar o investimento social familiar são diversas: há o senso de devolução pelo que se conquistou ou herdou, vontade de contribuir com resoluções de problemas sociais, desejo de atuar na busca pela cura de alguma doença que impactou algum membro da família, altruísmo, continuidade de organizações ou atividades iniciadas por antecedentes, vontade de oferecer oportunidades para desfavorecidos em temas sociais, ambientais ou políticos.

O que parece generalizado é a emoção que move os familiares que estão atuando diretamente na área social. Há envolvimento pessoal. Há paixão. Há interesse em continuidade, há gratidão e há o desejo de participar da transformação social do país.

Para definirmos o perfil da organização, observamos os aspectos da governança e origem dos recursos.

São considerados fundações ou institutos familiares as organizações geridas por membros da família instituidora que também participam de seus processos decisórios por meio da participação em conselhos ou como executivos da instituição. Ou seja: em uma organização familiar é a família que define os rumos da organização e toma as principais decisões.

Os Conselhos de Governança dos investidores familiares respondentes são compostos em sua maioria, por membros da família e quase todos possuem um conselheiro externo, que embora não seja um familiar, possui vínculo com a família ou com a empresa da família.

De acordo com o Guia das Melhores Práticas de Governança, é recomendável que o Conselho da organização possua conselheiros independentes[1]. Pelo Censo, 41% dos conselheiros das organizações familiares são independentes, enquanto que organizações empresariais apresentam o dado de 19% de conselheiros independentes em seus Conselhos.

O conselheiro independente não tem vínculo com a família e contribui com sua expertise na causa da organização.

Os recursos das organizações familiares são oriundos dos próprios familiares, seja no formato de um fundo patrimonial (endowment)[2] criado com recursos da família, seja no de doações periódicas (regulares ou não) de familiares .

Como fonte de recursos, 53% dos respondentes citou a doação de indivíduos ou da família mantenedora. Para essas organizações, essa fonte representa em média 67% dos orçamentos.

As organizações familiares também procuram criar uma estratégia de sustentabilidade a longo prazo. 37% dos respondentes possuem recursos próprios, que pode ou não ser endowment e essa fonte representa em média 71% do orçamento dessas organizações.

Ou seja, além de participarem da governança, também há, ou investimento de recursos próprios, ou uma fonte que de alguma forma foi garantida por um familiar.

Há também outras características que se destacam, agora, na forma de atuação. As organizações familiares possuem vários potenciais como:

Potencial de inovação – Por não estarem vinculadas a políticas corporativas de empresas, as organizações familiares possuem mais liberdade para ousar e inovar.

Nota-se, também, a predisposição para assumirem riscos, com destaque para o fato de 58% declaram alta propensão a assumir riscos em relação ao caráter desafiador da intervenção ou contexto em que estão e, no mesmo percentual, em relação ao caráter experimental ou inovador do projeto.

Essa liberdade é importante na criação de novas soluções para questões sociais. Há espaço para a tentativa e erro e também para experimentações.

Recentemente, no Global Philanthropy Forum, em Washington, Sr. Tony Blair, ex-primeiro ministro do Reino Unido, atuando hoje em dia como investidor social, comentou sobre os limites do governo em criar novos experimentos. Desta perspectiva, há um risco muito grande considerando a escala de implementação em um país. Dessa forma, ele acredita que criar novas estratégias de atuação social são uma contribuição importante para o setor.

Potencial articulador – O filantropo além de investir recursos financeiros, investe os dons que o fez ter sucesso. Ele participa e exerce influência nos seus pares, articulando uma rede de relacionamento para promover iniciativas em conjunto ou inspirar novas ações. Identificam sinergias, compartilham experiências entre conhecidos e promovem suas causas.

Pelos dados do censo GIFE, 68% dos respondentes familiares em 2014, fizeram coinvestimento, seja convidando algum outro investidor social para financiar uma iniciativa sua (53%), financiando uma iniciativa de outra organização (37%), aportando recursos para apoio às iniciativas da sociedade civil junto com outros investidores sociais (37%) ou participando ativamente das decisões para a concepção, desenho e implementação de uma iniciativa comum com outros investidores sociais (43%).

Há exemplos como o evento de inovação para a educação, Transformar, que, é realizado pela parceria de três organizações familiares. Assim como a parceria de duas outras organizações familiares para a produção de um filme sobre a causa que os move, dentre outras iniciativas.

Potencial de doação – Pelo perfil mais flexível, há uma expectativa de que o investidor familiar seja mais grantmaker[3], fortalecendo organizações e projetos que já existem.

De acordo com a classificação do Censo GIFE, que utiliza a metodologia de duas questões (estratégia de atuação e distribuição das despesas orçamentárias), 21% dos respondentes familiares tem um perfil predominantemente doador, comparado a 7% dos institutos e fundações de origem empresarial.

Comparando com as empresariais, as familiares são um perfil mais doador, mas muitos executam seus próprios programas (42%) e alguns possuem um modelo misto de executar projetos e doar recursos (37%). Percebe-se que há uma vontade do familiar em criar alguns projetos próprios para estarem mais próximos da estratégia de transformação. Há até um modelo mais participativo de doação, em que o doador se envolve na concepção do projeto, o shaper, muito utilizado pelos investidores familiares. Acreditam que, dessa forma, agregam know how e técnicas de gestão mais eficazes às organizações para as quais doam recursos, organizações essas que estão trabalhando diretamente nas causas que os mobilizam.

Com o crescente movimento no Brasil pela cultura de doação, há um potencial importante para o fortalecimento e aumento das doações a partir do perfil dos investidores familiares. O crescimento no número de organizações familiares participando de debates sobre investimento social traz visões complementares ao investimento social privado.

E, destaco, por fim, um potencial muito importante para a família: possuir um ambiente que oportuniza a reflexão e atuação para o desenvolvimento do bem comum. É onde se fortalece vínculos e valores da família, engajando outras gerações a manterem um legado. É uma oxigenação importante que vem das raízes.

O investimento social familiar é um elo, demonstrando comprometimento da família com a sociedade, e reflete a máxima da solidariedade de que ganha quem recebe e também quem dá.

 

[1] Conselheiros independentes são entendidos como aqueles que não têm vínculo atual ou nos últimos 3 anos com a organização, com seus mantenedores, seus funcionários ou parceiros. Ex.: não integram nem têm participação relevante no mantenedor da organização; não são ou foram empregados da organização, de seus mantenedores ou subsidiárias; não recebem remuneração nem oferecem serviços para a organização ou sua mantenedora; não são dirigentes ou beneficiários de entidades que recebam recursos financeiros da organização; não são cônjuges ou parentes de qualquer pessoa que esteja em qualquer das situações acima

[2] Endowment: […] o endowment ou Fundo Patrimonial é a parte do patrimônio de uma organização que é segregada do patrimônio operacional e de suas demais reservas (segregação meramente contábil-administrativa ou mesmo em uma personalidade jurídica distinta), com o objetivo de ser mantido na perpetuidade, de maneira que seu poder aquisitivo seja preservado ou expandido ao longo dos anos. O Fundo Patrimonial deve ser mantido investido com o intuito de gerar receita periódica e previsível para custear toda ou parte da missão da organização beneficiária (SOTTO-MAIOR, 2011).

[3] grantmaker: doador de recursos financeiros

 

Ana Carolina é formada em Hotelaria, pós-graduada em Marketing e atualmente cursa MBA em Sustentabilidade pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Trabalha no GIFE desde 2007 como gerente de Relacionamento e desde 2012 coordena a articulação dos investidores familiares.

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