O Brasil que queremos e o Brasil que podemos; como foi o 3º dia do Congresso GIFE

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O terceiro e último dia do 9º Congresso GIFE levou adiante as questões centrais que haviam sido levantadas na abertura do evento. A plenária inicial, em 30 de março, teve como tema “O Brasil que temos, o Brasil que queremos”; já no dia do encerramento, 1º de abril, o tema foi “O Brasil que podemos”.

A discussão final foi dividida em três mesas: “Investimento Social Privado (ISP) e sociedade civil”, “ISP e governo” e “ISP e empresas”. Ao final, a plenária “Proposições para o presente”, com propostas para o investimento social privado no Brasil atual.

ISP e sociedade civil

Em um dos encontros que concluiu a programação oficial do 9º Congresso GIFE, Marcelo Furtado, diretor-executivo do Instituto Arapyaú, e Antonio Luiz de Paula e Silva, do Instituto Fonte, apresentaram o tema “O investimento social privado no Brasil que podemos: ISP e sociedade civil”.

Com os participantes reunidos em mesas redondas de discussão, a ideia era colocar em prática o processo de escuta, em busca de um feedback em relação aos assuntos discutidos durante todo o Congresso.

“Uma questão importante para nós é a dicotomia do nosso setor. Sabemos que 70% dos 132 associados do GIFE operam projetos próprios, mas a maioria acredita que esse tipo de trabalho deveria ser feito por ONGs. Então, por que essa receita não está chegando até elas?”, perguntou Marcelo Furtado.

Para Furtado, um só modelo de funcionamento – seja ele dominado por companhias ou entidades civis – não é o ideal, por isso o mais importante é equacionar a relação, sem que nenhum dos lados seja o vilão. Além disso, chamou atenção para o fato de que é preciso aumentar o número de doações no Brasil, e fazê-lo de forma correta. “Precisamos trabalhar para aumentar os recursos vindos de toda sociedade, pois é possível doar bem”.

ISP e governo

Transparência é palavra de ordem nas relações entre interesses públicos e privados. É isso o que defende Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann. Para ele, a criação de um espaço de diálogo, debate e troca de ideias é importantíssima para a concretização de projetos sociais de empresas privadas em parceria com os governos.

“O papel da sociedade civil é juntar-se ao Estado e dialogar. Se o que falta na esfera pública é inovação e novas ideias, dá para resolver essa lacuna juntos. O que não pode acontecer é os projetos privados substituírem as políticas públicas”, disse Mizne.

Ele acredita que, para evitar esse cenário, é preciso haver transparência de objetivos entre empresas e governos. “As organizações não devem atuar na lógica de meras prestadoras de serviços, mas precisam buscar construir sua intervenção na lógica da política pública”, falou.

Mizne apontou que, quando as empresas não constroem uma relação verdadeira de parceria com o Estado para solucionar mazelas sociais, o resultado das ações pode ser ruim. “Surgiu, recentemente, um movimento interessante em prol do diálogo entre setores. Não é fácil, pois as intervenções propostas, geralmente, são bastantes distintas, mas a diversidade é ótima”, enfatizou o executivo.

Ao finalizar a palestra, Mizne destacou que o momento vivido no Brasil pede mais transparência dos governos e organizações. “Não dá para ignorar esse apelo. Empresas devem se colocar na vanguarda e oferecer essas informações – coisa que o Congresso GIFE já começou a promover com o lançamento do Painel GIFE de Transparência”, destacou.

ISP e empresas

Que parte cabe às empresas para que o investimento social privado seja concretizado? Para responder a esta pergunta e falar dos desafios e possibilidades, Beatriz Azeredo, diretora de Responsabilidade Social da Globo e conselheira do GIFE, realizou palestra no Congresso GIFE sobre o ISP e as empresas.

Para a executiva, é preciso que o investimento social privado leve em conta o atual momento no qual o Brasil está inserido e assuma compromissos. Um deles é a geração de lucro socialmente responsável – exemplos disso são o pagamento de impostos, a minimização de impactos ambientais, a organização da cadeira produtiva e o relacionamento entre colaboradores.

Outro compromisso que pode ser assumido, segundo Azeredo, é a manutenção do investimento social privado que já vem sendo feito. “Num país com a desigualdade abismal que temos, é justamente neste momento de crise que não podemos paralisar, pois grande parcela da população para a qual trabalhamos é a primeira a ser atingida. Precisamos manter o terreno que foi conquistado”, defendeu.

A executiva acredita ainda que as empresas precisam construir compromissos com a causa pública, garantindo mais equidade. Trata-se, portanto, de não definir apenas um tema ou território de atuação ao estabelecer a estratégia de ação do investimento social privado, mas analisar se a iniciativa está de fato compactuando com a grande causa pública do direito que está sendo violado.

Por fim, destacou a importância do compromisso das empresas com o fortalecimento da sociedade civil, tendo em vista a importância dos movimentos sociais fortes brasileiros, conectados e alinhados com as grandes questões sociais.  “É essencial que as empresas avaliem qual o componente de doação que as instituições estão direcionando às organizações-chave da sociedade civil para além de seus projetos”, disse.

Proposições para o presente

Com a participação do Instituto Arapyaú, Fundação Lemann, TV Globo e o secretário-geral do GIFE, Andre Degenszajn, a plenária de encerramento sumarizou diversos pontos debatidos durante o Congresso.

Reunindo os convidados, Degenszajn opinou que “o Conselho do GIFE desempenha um papel relevante, pois é muito conectado e provocador, o que impulsiona nossos projetos para frente”. Entre os principais desafios apontados durante todo Congresso, os mais citados foram: inclusão do outro e diversidade, transparência em resultados e a crise política e econômica pela qual passa o País.

Beatriz Azeredo, diretora de Responsabilidade Social da Globo, apontou que, entre os principais tópicos a serem aprofundados pelas empresas, instituições e fundações está a responsabilidade social interna, bem como a manutenção do patamar de investimentos sociais, mesmo em momentos de crise. Enumerou também a criação de uma nova lógica de cooperação entre as empresas, mesmo entre aquelas que concorrem em um mesmo ramo. A responsabilidade corporativa também deve passar pela noção de que o poder do financiamento pode ser perverso – opinou a executiva – quando feito sem cuidado ou diálogo, porque pode desequilibrar mercados.

“Não cabe às organizações da sociedade civil substituir o Estado, mas trabalhar em construções coletivas e garantir a continuidade de projetos junto aos governos”, concluiu durante a plenária final do GIFE Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann.

As observações finais de Marcelo Furtado, do Instituto Arapyaú, levaram em consideração os chamados fatores de risco nos projetos sociais financiados por OSCs. “Algumas agendas mais complexas não são de fato arriscadas, mas tratam de temas vitais para a sociedade. Quando olhadas pelo olhar do público, transformam-se em questões de vida para a nação, como a diminuição da violência.”

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