Organizações brasileiras valorizam e promovem a disseminação de tecnologias sociais

O conceito de tecnologia social é uma ideia consolidada no campo social brasileiro. Na busca por sistematização de práticas e almejando capacidade comprovada de replicar experiências, muitos investidores sociais organizam seus esforços no sentido de certificar e compartilhar saberes de suas iniciativas socioambientais.

É possível compreender tecnologia social como um conjunto de técnicas e metodologias desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a população – e apropriadas por ela -, que representem soluções para inclusão social e melhoria das condições de vida. De acordo com o Instituto de Tecnologia Social (ITS), a aplicação dos saberes, sejam estes populares ou científicos, assim como os procedimentos e organização do conhecimento, devem ter como ponto de partida as necessidades e problemas de coletividades em situação de exclusão social ou sem poder econômico para contratar soluções tecnológicas no mercado.

“Seu aspecto social diz respeito à eficácia e eficiência das respostas a essas necessidades, produzindo efeitos significativos de inclusão social, diminuição de injustiças sociais, ampliação de bem-estar e qualidade de vida das pessoas, sempre fundamentado no âmbito dos direitos humanos e no máximo empoderamento do público alvo”, explica Irma Passoni, gerente executiva do Instituto de Tecnologias Sociais.

A gestora conta que o ITS BRASIL, organização referenciada em inúmeros estudos e em debates com atores da área social, vem defendendo ao longo de sua história essa compreensão de tecnologia social, que tem uma atualidade transversal, na medida em que vai ao encontro dos anseios e necessidades da sociedade, variando o modelo de soluções encontradas de acordo com o tempo e o espaço em que são idealizadas e aplicadas.

Organizações deste perfil vêm concebendo tecnologias sociais empregadas na resolução de variados problemas da população, desde alimentação, saúde, saneamento, habitação, transporte, atividades produtivas, meio ambiente, resgate de conhecimento e povos tradicionais, tecnologias assistivas, entre outros.

A Fundação Banco do Brasil é outra organização pioneira na promoção do conceito de tecnologia social no Brasil. Para Marco Aurélio Cirilo Lemos, assessor da gerência de Parcerias Estratégicas e Modelagem de Programas e Projetos, as experiências certificadas precisam comprovar resultados e induzir objetivamente a transformação social.

“O grande diferencial de uma tecnologia, para que seja social, é a previsão da construção coletiva de uma solução para um problema, que se adeque às especificidades locais e culturais dos usuários, ou seja, permita a efetiva interação da comunidade, seja na sua concepção ou apropriação em seu desenvolvimento ou sua reaplicação. E toda a ação deve estar consoante aos princípios do desenvolvimento sustentável”, analisa.

A força da Fundação Banco do Brasil

Estão abertas as inscrições para mais uma edição do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, uma das principais iniciativas que reconhece organizações sociais capazes de gerar soluções para desafios sociais no Brasil, América Latina como um todo e Caribe.

Em sua 9ª edição, o prêmio está recebendo inscrições até 31 de maio. A participação é aberta a instituições sem fins lucrativos, como fundações, organizações da sociedade civil, instituições de ensino e pesquisa, legalmente constituídas no Brasil, de direito público ou privado, e que tenham sua iniciativa desenvolvida no país.

A iniciativa conta com seis categorias nacionais: Água e Meio Ambiente; Agroecologia; Economia Solidária; Educação; Saúde e Bem-Estar; e Cidades Sustentáveis e Inovação Digital. O primeiro lugar de cada uma das categorias será premiado com R$ 50 mil e as 18 instituições finalistas vão receber troféu e vídeo retratando sua iniciativa. Além disso, as tecnologias sociais que promovem o protagonismo e o empoderamento feminino vão receber um bônus de cinco por cento na pontuação total obtida.

Realizado a cada dois anos, o prêmio é considerado um dos principais do terceiro setor no país. Este ano, o concurso tem a cooperação da UNESCO no Brasil e o apoio do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), do Banco Mundial, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

As metodologias certificadas passam a integrar o banco da Fundação BB, que conta com 850 iniciativas. O espaço é uma base de dados online que reúne metodologias reconhecidas por promoverem a resolução de problemas comuns às diversas comunidades brasileiras. No acervo, as experiências desenvolvidas por instituições de todo o país podem ser consultadas por tema, entidade executora, público-alvo, região, dentre outros parâmetros de pesquisa.

Os resultados de cada etapa do prêmio são divulgados no site da Fundação Banco do Brasil e no BTS (tecnologiasocial.fbb.org.br ). A leitura do regulamento e o procedimento de inscrição podem ser feitos no site da iniciativa.

Impacto no campo

A relevância do prêmio se comprova em experiências práticas do campo. Um exemplo é o projeto Gestão Comunitária de Resíduos Orgânicos e Agricultura Urbana, do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO), vencedor do prêmio em 2013. A iniciativa está entre as cinco tecnologias que são reaplicadas nos empreendimentos do programa federal Minha Casa Minha Vida. Trata-se do projeto de Moradia Urbana organizado como instrumento de promoção do desenvolvimento social.

Júlio César Maestri, coordenador urbano da CEPAGRO, explica que com a assessoria da organização, a comunidade de Chico Mendes-Bairro Monte Cristo-Florianópolis contou com ações de sensibilização e mobilização comunitária realizadas por agentes locais. A ação permitiu um grande aprendizado, com distribuição de baldinhos para as famílias separarem corretamente suas sobras de alimento.

“Através da compostagem esse material passou a virar composto orgânico e promotor de ações de agricultura urbana, com hortas residenciais, escolares e comunitárias. O elo próximo permitiu que os moradores vissem na prática algo que era problema virar solução, dando credibilidade ao projeto e se tornando agentes multiplicadores da vizinhança”, avalia.

O gestor explica que esse modelo de pensar a cidade, com envolvimento comunitário na gestão dos seus resíduos orgânicos e agricultura urbana, foi inovador. Assim, cada passo e cada erro foi conversado coletivamente para sempre conseguir avançar em estratégias. Dessa forma foi consolidada uma metodologia, reconhecida como tecnologia social.

O projeto integra diversas políticas públicas, como a de resíduos sólidos, agroecologia, educação ambiental, segurança alimentar e nutricional, trazendo o poder público para pensar junto nestas ações que visam a mobilização e sensibilização local, valorização dos resíduos orgânicos e produção do composto, estímulo ao plantio e consumo de alimentos saudáveis, limpeza das ruas, redução de doenças, inclusão social e geração de renda.

E, a partir do investimento do BB, a experiência conseguiu se fortalecer localmente e se projetar para outras regiões do país. “Hoje, muitas comunidades visualizam os vídeos do projeto e relatam que estão fazendo ações semelhantes. Além disso, a iniciativa trouxe maior visibilidade e articulação com outras instituições, que também passaram a recomendar esta tecnologia social para prefeituras e instituições de outros municípios.”

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