Rede Temática de Negócios de Impacto Social discute a importância dos intermediários para o fortalecimento do campo

O ecossistema de Finanças Sociais e Negócios de Impacto é amplo, envolve muitos atores, com diferentes papéis, responsabilidades e expectativas. Entender esse sistema não é fácil, mas é essencial para quem quer fortalecer o campo, a fim de que possa conhecer os caminhos a serem percorridos e as oportunidades e lacunas existentes.

Tendo isso em vista, a Rede Temática de Negócios de Impacto Social, em seu primeiro encontro de 2017, promovido no dia 10 de maio em São Paulo, definiu como um dos focos centrais de discussão conhecer melhor as organizações intermediárias, que funcionam como uma ponte entre a oferta e a demanda de capital.

Celia Cruz, diretora do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e membro da diretoria da Força Tarefa de Finanças Sociais – movimento que mapeia, conecta e apoia organizações e agendas estratégicas para o fortalecimento de investimentos e empreendimentos que conciliam impacto social e/ou ambiental com retorno financeiro -, apresentou como hoje esse ecossistema está configurado, conectando diversos atores.

Há, por exemplo, organizações e negócios de impacto social que, por meio de suas ações, produtos e serviços, buscam soluções para problema sociais e ambientais, promovendo impacto socioambiental, ao mesmo tempo em que geram resultado financeiro positivo e de forma sustentável. Na outra ponta, está a oferta de capital, aqueles que doam, investem ou emprestam recursos financeiros, e que podem ser as fundações/institutos, o governo, organismos multilaterais de crédito etc., por meio de vários mecanismos e instrumentos financeiros (filantropia, crowdfunding, microcrédito, empréstimos, fundos sociais etc.).

Nesse meio de campo estão justamente os intermediários, ou seja, aqueles que buscam conectar cada grupo de atores atuando diretamente com os empreendedores sociais ou sistemicamente, promovendo um ambiente mais favorável para a criação e o fortalecimento de negócios de impacto.

A FTFS fez um estudo (clique aqui para acessá-lo), a fim de mapear estes intermediários, que são organizações que combinam três fatores: 1. Compromisso de atuar para um objetivo e modelo de negócio que gere impacto social e desempenho financeiro; 2. Foco em construir o ecossistema, facilitando a conexão entre a oferta de capital e a demanda; e 3. Ator capaz de articular, facilitar e agregar finanças, habilidades, colaboração, tecnologia e network.

No estudo, os intermediários foram divididos em quatro grupos: 1. Recursos e serviços financeiros – fundos de investimento, fundos sociais, instituições financeiras; 2. Gestão de acesso a investidores – incubadoras e aceleradoras, consultores de investimentos, plataforma; 3. Monitoramento, avaliação e certificação – consultoras de medição de monitoramento de impacto, certificadoras; 4. Conhecimento e informação – instituições de ensino superior, organizações que formam profissionais, assessoria jurídica.

Segundo Celia Cruz, investir nessas organizações intermediárias é fundamental para o fortalecimento do campo, e as fundações e institutos podem contribuir muito nesse sentido. “Esse apoio dos investidores sociais a cada um destes grupos pode ajudar a promover de fato uma mudança sistêmica no campo de finanças sociais e negócios de impacto”, ressaltou.

Em janeiro, a Força Tarefa de Finanças Sociais lançou um documento sobre os avanços conquistados depois da publicação das 15 recomendações feitas em 2015 para levar adiante esta agenda ao longo dos cinco anos seguintes. Dentre as quatro alavancas que precisam ser impulsionadas ao mesmo tempo para concretizar a visão da FTFS para o ecossistema até 2020, uma delas é justamente o fortalecimento das organizações intermediárias.

De acordo com o levantamento, de 2014 a 2016 vários avanços já foram dados nesse sentido. Um deles foi a ampliação de incubadoras e aceleradoras engajadas e formadas para selecionar e apoiar Negócios de Impacto. Hoje, já são 40. Outro aspecto é que, em 2014, a Rede NIFS (professores envolvidos com Negócios de Impacto e Finanças Sociais) contava com 23 docentes de 4 Institutos de Ensino Superior (FGV-SP, FEA-USP, Insper e FGVRJ), em dois estados brasileiros (SP e RJ). Já no ano passado, essa Rede reunia 50 docentes de 28 IES, em 10 estados brasileiros. Além disso, foi criada a Rede de Mensuração de Impacto em Finanças Sociais, com a participação de 25 organizações interessadas no tema.

“Porém, precisamos avançar ainda mais. Para 2020, precisamos ter mais intermediários fortalecidos e especializados, ou seja, aceleradoras focadas em temáticas (saúde, meio ambiente, educação etc.) ou em momentos específicos para apoio aos negócios, além de ganhar uma abrangência nacional. Será fundamental, também, diminuir a assimetria de informações entre esses atores, ou seja, empreendedores e investidores devem saber quem são, onde estão, como cobram e qual a efetividade do apoio de intermediários”, ressaltou Célia.

E foi justamente para apresentar o que cada um destes intermediários faz e ajudar os empreendedores a encontrarem a organização mais adequada para oferecer suporte aos negócios de impacto que o Instituto Quintessa produziu o Guia 2,5. Anna Aranha, gestora do Quintessa, apresentou durante a Rede Temática a proposta da publicação, que terá uma nova edição em 2017, com outras funcionalidades e mais organizações participantes.

O guia tomou como ponto de partida dez formas de apoio ao desenvolvimento de negócios de impacto: Capacitação e treinamento; Suporte de gestão; Reconhecimento e divulgação; Desenvolvimento pessoal do empreendedor; Ponte entre potenciais clientes e parceiros; Rede de mentores; Espaço; Ponte com potenciais investidores; Rede entre os empreendedores; Investimento em si. A partir daí, foram identificadas 10 organizações intermediárias que atuam nestas frentes, e de que forma cada uma poderia contribuir nos diferentes estágios dos negócios.

O próprio Quintessa faz parte do guia, pois desenvolve um programa de aceleração que visa potencializar o crescimento de negócios que geram impacto social ou ambiental por meio da atuação na gestão e com apoio para desenvolvimento do empreendedor. Segundo Anna, o programa é customizado para cada negócio, com o acompanhamento de um gestor e mentor, com encontros semanais. O programa tem duração de um ano e ajuda o empreendedor a diagnosticar desafios, traçar soluções, implementar e conseguir refinar seu plano de negócio.

 

Negócios de impacto e ISP

Durante o encontro da RT, Fabio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin e um dos coordenadores da Rede Temática, lembrou que uma das recomendações da Força Tarefa é justamente a de ampliar o protagonismo das fundações e institutos para o fortalecimento desse campo, e que algumas iniciativas nesse sentido têm sido feitas.

Como resultado do Lab de Inovação em Finanças Sociais promovido em 2014 pela FTFS, por exemplo, surgiu a iniciativa “Fundações e Institutos de Impacto (FIIMP)”, que neste ano dá passos largos para implementar uma ação inovadora. São 22 fundações e institutos que se uniram para aprender de forma conjunta sobre como realizar investimentos em negócios de impacto. Além dos momentos de formação, cada organização aportou 10 mil dólares para investir no campo, a partir de três instrumentos – dívida conversível, garantia e dívida.

“A experiência está em processo e a proposta é que seja sistematizada e que seus resultados possam ser compartilhados em uma publicação em 2018. Certamente essa iniciativa vai gerar aprendizados para novas ações”, ressaltou Fábio.

A Fundação Telefônica Vivo, que é uma das participantes do FIIMP, compartilhou também no encontro da Rede Temática como tem sido sua experiência neste campo.

Atualmente, um dos eixos de atuação da Fundação é empreendedorismo social. O foco é fomentar a criação de empreendimentos que já nasçam com a perspectiva de um negócio de impacto nas periferias, tendo como atores fundamentais os jovens de 15 a 29 anos. Uma das principais iniciativas nesse sentido é o Programa Pense Grande, que promove mobilização e formação sobre o tema para a juventude, além de apoio financeiro e mentoria aos novos empreendimentos e promoção do fortalecimento do ecossistema. O programa está no terceiro ano e já acompanhou 45 negócios.

Outra iniciativa da Fundação de apoio aos negócios sociais foi dada ao Geekie, por meio da compra de licenças de plataformas e distribuição para a rede pública.

Segundo Luciana Scuarcialupi, consultora de Inovação Social da Fundação, a ideia é fortalecer internamente, cada vez mais, a perspectiva de compra de produtos e serviços vindos de negócios de impacto, a fim de gerar um impacto cada vez maior em todas as iniciativas da organização. Porém, ressalta que os procedimentos burocráticos de grande parte das empresas muitas vezes não abrem oportunidades para atuar dessa forma, sendo barreiras para ampliar a aproximação entre investidores sociais e negócios de impacto. “Se a forma como os processos são desenvolvidos hoje não dá conta, precisamos criar outras balanças para que os negócios de impacto possam entrar”, acredita.

A aposta da Fundação tem sido também em ajudar a fortalecer o ecossistema por meio de outras iniciativas, como o apoio à FTFS e ao Social Good Brasil. “Fazer essa conexão com outros atores do ecossistema potencializa a ação”, ressaltou Luciana.

 

Perspectivas futuras

Várias novidades estão por vir no campo de Finanças Sociais e Negócios de Impacto. Uma delas é o lançamento, no dia 12 de junho, em São Paulo, do primeiro “Mapeamento Brasileiro de Negócios de Impacto Socioambiental” (clique aqui para se inscrever). Na ocasião, serão apresentados dados da pesquisa, que contou com o apoio de quase 40 parceiros do ecossistema do país.

Carolina Aranha, consultora e co-fundadora da Pipe Social, responsável pela iniciativa, conta que a ideia surgiu em função da necessidade do campo contar com um mapeamento real e atualizado das soluções disponíveis no mercado de impacto socioambiental no País. “A ideia é que consigamos promover mais investimentos, identificar gaps nos setores e fomentar o ecossistema como um todo”, ressaltou. O mapa estará disponível na plataforma Pipe Social.

O GIFE também prepara novidades. A série “Temas do investimento social privado” terá sua próxima edição, a ser lançada no Congresso GIFE em 2018, sobre ISP e negócios de impacto social.

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