GIFE lança nova edição do Censo GIFE e traça panorama do ISP no país

O GIFE acaba de lançar a oitava edição do Censo de 2016, a principal pesquisa sobre investimento social privado no início Brasil, realizada desde 2001. A pesquisa busca compreender o quanto e como se investe no Brasil e quem são as empresas, fundações e institutos de origem empresarial, familiar, independente e comunitária, que investem recursos privados em ações de finalidade pública, contribuindo para o desenvolvimento da sociedade brasileira.

A proposta é que, a partir da análise dos dados, seja possível identificar o panorama atual do ISP no país e traçar tendências para o futuro, a fim de fomentar uma atuação cada vez mais qualificada e planejada dos investidores sociais. “Quanto mais conhecimento gerarmos sobre o campo, mais poderemos ajustar a nossa atuação e pensar a articulação entre as diferentes instituições, contextos e temas”, ressaltou Neca Setubal, presidente do Conselho de Governança do GIFE, durante evento de lançamento do Censo GIFE, realizado no dia 07 de dezembro, em São Paulo.

A pesquisa foi respondida por 90% dos associados, ou seja, 116 respondentes, sendo que 15% são empresas, 53% institutos e fundações empresariais, 19% familiares e 14% independentes e comunitárias.

O total investido em 2016 foi de R$ 2.9 bilhões, o que representa uma queda de 19% no volume total em comparação com 2014, algo já esperado pelos organizadores devido à crise econômica, social e política que marca o país. Porém, percebe-se, na série histórica, uma tendência de manutenção dos recursos. Além disso, quando questionados sobre a expectativa do orçamento para 2018, 70% apontaram que pretendem aumentar ou manter.

“Essa resposta dos investidores já mostra uma percepção de diminuição na tendência de queda dos investimentos. Esperamos que, com a melhora da economia, consigamos voltar ao volume anterior”, ressaltou Graziela Santiago, coordenadora de Conhecimento do GIFE.

Em relação à fonte dos recursos, 46% são provenientes das empresas mantenedoras e 28% rendimentos de fundo patrimonial (16% das organizações tem essa possibilidade). Percebe-se que os institutos e fundações familiares e independentes têm fontes mais diversas de recursos, como venda de produtos e serviços, no caso dos familiares, e de recursos públicos, quando diz respeito aos independentes.

Os investimentos via incentivos fiscais também diminuíram 33%, passando de R$ 599 milhões em 2014 para R$ 402 milhões em 2016. A participação dos recursos incentivados no volume total do investimento caiu de 17% para 14%.

No item Gestão e Governança, do ponto de vista do número de funcionários, os respondentes do Censo GIFE 2016 são majoritariamente de pequeno porte, sendo compostos de pequenas equipes: 70% das organizações tem até 25 colaboradores, sendo que 48% delas conta com até 10 funcionários e 22% dispõe de 11 a 25 funcionários. Apenas 11% das organizações contam com mais de 100 funcionários.

Segundo Graziela Santiago, um aspecto que chamou a atenção foi em relação à remuneração variável, tendo em vista que, mesmo em um contexto de crise, as organizações aumentaram essa prática, passando de 43% para 56%. “Isso demonstra o comprometimento com as iniciativas de profissionalização do campo”, ponderou a coordenadora.

Percebe-se que algumas práticas de governança estão mais disseminadas entre os institutos e fundações, enquanto que há oportunidades para avançar em outras frentes. As mais frequentes são: 91% possui conselho deliberativo; 80% possui conselho fiscal; 67% possui código de conduta ou código de ética. Já as menos frequentes observadas são: 14% dos conselheiros passam por avaliação periódica, 57% tem demonstrações contábeis divulgadas no site; e 42% possui canal de denúncia.

Relacionamento

Outro aspecto levantado pelo Censo GIFE diz respeito à forma como os diversos atores com os quais os investidores se relacionam estão inseridos nos processos e instancias de tomada de decisão. Verificou-se que os acionistas e colaboradores das empresas estão muito mais presentes nestes espaços, do que os outros tipos de atores, como organizações da sociedade civil, co-investidores, representantes do poder publico etc.

Sobre a relação e impactos entre o ISP e o negócio, foram levantados os aspectos que o investimento social privado sempre leva em conta a empresa, tendo destaques aspectos relacionados ao desenho e estruturação dos projetos, como definição de locais, beneficiários etc. Já em aspectos das empresas que são influenciados ou conduzidos pelo ISP aparece a conexão mais forte no relacionamento com comunidades e poder público, e menor com os negócios efetivamente.

“Vemos um avanço neste aspecto. Há dez anos essas discussões sobre alinhamento do ISP ao negócio nem aconteciam. Ao contrário, os institutos e fundações eram criados justamente para não ter qualquer ligação com a empresa e, agora, vemos essa mudança. A consolidação do investimento social privado e o alinhamento ao negócio é um movimento que veio para ficar”, comentou Patricia Loyola, diretora de Comunicação da Comunitas.

Para Marcos Nisti, CEO do Alana, é preciso que os investidores sociais possam influenciar cada vez mais as empresas. “Os nossos institutos e fundações podem trazer o novo, o respiro, a inovação. Isso é realmente saudável”, comentou.

O Censo GIFE buscou mapear também as parcerias no ISP. Verificou-se que essa é uma prática presente entre os investidores: 79% das organizações têm parcerias formais estabelecidas para os três programas mais representativos, com destaque para os seguintes parceiros: 72% têm parcerias com organizações da sociedade civil (OSC), 71% órgãos da administração pública direta e 49% academia, centros de pesquisa.

E essa parceria pode se dar de diversas formas, sendo que 69% das organizações repassam recursos para terceiros. Em relação à divisão de orçamento – projetos próprios e de terceiros – houve uma queda de 33% no repasse a projetos de terceiros, passando de R$ 894 milhões para 595 milhões. Em relação aos recursos para projetos próprios, a diferença foi de R$1,9 bilhões para R$1,7 bilhões (queda de 10%).

Percebe-se uma prevalência do perfil executor entre as organizações em 2016: 43% predominante executor, com destaque principalmente para os institutos e fundações empresariais; 16% doadorés, sendo principalmente as empresas; e 41% híbridos (organizações que executam e doam).

Sobre a relação do ISP e as OSC, percebe-se que há uma complexidade e multiplicidade nas formas de relacionamento. O apoio a OSCs se dá predominantemente por meio de linhas programáticas preestabelecidas e/ou processos de seleção regulares (58% das organizações), assim como por meio de doação ou patrocínio eventual ou pontual (55%). Houve uma redução do apoio institucional dado às organizações da sociedade civil (apoio financeiro desvinculado de projetos ou programas) de 33% em 2014 para 24% em 2016. Contudo, outras formas de apoio aumentaram.

Segundo Graziela Santiago, apesar dos dados apontarem essa diminuição do apoio às OSC, a análise sobre as motivações e o perfil das organizações apoiadas parece apontar no sentido de uma melhor compreensão de sua importância e legitimidade. Entre os motivos, por exemplo, aparecem questões como “fortalecer as OSC”, que passou de 21% para 35%; “porque defendem causas ou grupos não defendidos por outros setores”, passando de 1% para 10%.

O percentual de respondentes que informaram que irão aumentar os níveis de apoio a OSCs nos próximos anos corresponde a 39% do total, sendo esse percentual exatamente idêntico aos casos em que esse apoio deve se manter estável. Apenas 7% revelaram que devem diminuir os níveis de apoio, enquanto 16% não souberam informar sobre a tendência para o próximo período.

“Vale aqui a nossa reflexão: qual o nosso papel no fortalecimento da sociedade civil num momento do contexto brasileiro no qual isso é tão importante para termos uma sociedade forte, articulada, atuando em diferentes diálogos e superando tantas intolerâncias?”, provocou Neca Setubal.

ODS e outros temas

Uma das novidades desta nova edição do Censo é a inserção de dados sobre o envolvimento dos associados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que determinam um curso global de ação para acabar com a pobreza, proteger o planeta e garantir que todas as pessoas desfrutem de paz e prosperidade. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgará um relatório sobre os investimentos sociais brasileiros relacionados aos ODS em novembro de 2017 com os dados do Censo GIFE.

Sobre essa questão, foi possível identificar que as empresas são as mais familiarizadas com os ODS e sua implementação no Brasil e os institutos familiares os menos alinhados. No geral, 43% dos respondentes disseram ter conhecimento razoável sobre ODS; 24% tem muito conhecimento sobre os ODS e implementação dessa agenda no Brasil; 23% tem muito conhecimento sobre os ODS; 9% tem pouco conhecimento sobre os ODS; 1% não sabe o que são os ODS.

Segundo a pesquisa, 51% diz que estão alinhando seus programas/projetos aos ODS e 21% diz que usam os ODS, mas não pretendem realizar um alinhamento mais concreto. Os principais ODS que pretendem se engajar são: educação de qualidade, redução das desigualdades, emprego digno e crescimento econômico, e igualdade de gênero.

Já em relação aos temas, regiões e novas formas de atuação, percebe-se que uma tendência em manutenção de algumas áreas, como educação (84%), formação de jovens para o trabalho e cidadania e cultura e artes. Temas como defesa de direitos estão mais presentes entre os independentes e comunitários. O foco continua sendo prioritariamente em crianças a jovens e comunidades no entorno.

Sobre as novas formas de atuação, o Censo GIFE buscou nesta edição investigar mais profundamente a atuação dos investidores sociais em negócios de impacto como uma das estratégias utilizadas para o desenvolvimento de suas ações e o alcance de seus objetivos. A pesquisa identificou que 42% dos respondentes atuam em negócios de impacto social. Dentre os diferentes tipos de investidores, as empresas são as que mais atuam (59%), seguidas dos institutos e fundações familiares (55%).

Os institutos e fundações empresariais e institutos e fundações independentes ou comunitários atuam em menor volume, 36% e 31% respectivamente. Esses dois tipos de investidores, contudo, demonstraram ter intenção de atuar com negócios de impacto social no futuro em 38% dos casos, proporção maior que os demais e superior à média geral de intenção de investimento futuro

“O país tem um enorme potencial de crescimento do ISP e aumentar o volume de investimento também passa pela diversidade de atuação. Embora a educação seja um foco extremamente importante e altamente apoiado, também percebemos outras frentes e oportunidades crescendo e isso faz com que o investimento social chegue em diferentes espaços”, comentou Beatriz Johannpeter, ex-presidente do Conselho de Governança do GIFE.

Programas

Nesta edição do Censo, buscou-se fazer uma análise mais detalhada e profunda sobre o os projetos e programas, visando melhor compreender a atuação dos investidores. Para tal, foram mapeados 775 programas. Segundo Ana Lúcia Lima, consultora parceira de várias edições do Censo e autora de um dos artigos da publicação, percebe-se essa tendência de execução direta (40% dos programas), por terceiros (34%) e em parceria com outras organizações (26%).

Entre as estratégias mais frequentes presentes e que aparecem de forma transversal estão: atividades de ensino e capacitação; mobilização, conscientização e articulação; e fortalecimento de organizações, grupos ou comunidades. Outras estratégias específicas, como advocacy e controle social, são normalmente apontadas quando ocorrem apoio a projetos de terceiros.
“Verificamos uma multiplicidade de estratégias e temas, assim como muitos programas em parceria, o que é importante para somar expertises, enriquecer a ação e aumentar a capacidade de execução”, comentou Ana Lúcia Lima.

Já Daniela Sinhorini, gerente de Comunicação Institucional da Fundação Bradesco ressaltou que: “percebe-se que cada projeto detalhado não perde uma premissa básica: vocação, identidade e respeito ao território. Outra percepção é de um setor mais consciente, com profissionais parcimoniosos e responsáveis. O investimento caiu, mas também aponta que, ao concentrarmos recursos, estão buscando foco. É uma rede de alto nível”.

Outra novidade nesta edição do Censo foi a análise sobre diversidade, buscando entender como questões como gênero e raça são abordadas nas ações dos investidores sociais. A pesquisa identificou que 60% das organizações possuem apenas conselheiros brancos, 14% tem pardos e 3% tem negros. Em relação às equipes, 48% dos funcionários são mulheres. Já em relação aos programas, 2% consideram características de raça entre os beneficiários de seus programas e 4% consideram características de gênero.

Para Mafoane Odara, coordenadora do Instituto Avon, esses dados apresentados pelo Censo incomodam e precisam ser discutidos, principalmente pelo papel dos investidores sociais na sociedade. “Precisamos lembrar que gênero e raça são estruturantes no país, a gente gostando ou não. Se eu não levo em consideração estes aspectos, não levo em consideração a redução das desigualdades. Não adianta eu dizer que não sou racista. Hoje eu tenho que ser antirracista. Por isso, precisamos olhar com atenção para o público com o qual a gente trabalha. Não é porque está atuando no território que tudo está resolvido. Tomara que esteja, mas talvez não. Vale a nossa reflexão”, analisou.

Segundo Atila Roque, diretor da Fundação Ford Brasil e conselheiro do GIFE, esse é um aspecto a ser olhado com muita atenção pelo ISP. “Estamos num mundo desigual. Mais do que isso, a desigualdade tem sido ensinada como parte de manutenção de poder. Ela não é um acidente, é arte e ofício. Se estamos pensando em que passos a mais precisamos dar no ISP, esse desafio da diversidade de gênero e raça é essencial. É o desafio da desnaturalização da desigualdade. Temos que enfrentar isso porque é uma questão da sociedade, da cidadania, não é uma questão só dos negros ou das mulheres. Se diminuiu um, diminuiu todos nós”, completou.

Na percepção de Mônica Pinto, gerente institucional da Fundação Roberto Marinho, os investidores precisam, inclusive, olhar com atenção para a forma como estabelecem suas avaliações, a fim de que possam conseguir apontar a efetividade do ISP na transformação da sociedade e como tem conseguido contribuir no avanço para a diminuição das desigualdades.

Por fim, outro aspecto central, segundo Marcos Nisti, é a efetividade da comunicação do ISP, que precisa ter qualidade, inovação e consistência, além de uma preocupação forte com a linguagem adequada, a fim de que essa informação vá além dos muros dos próprios investidores, fazendo com que mais pessoas possam conhecer, se engajar e participar destes processos.

O evento foi transmitido ao vivo pela página do GIFE no Facebook e pode ser assistido aqui.

Próximos passos

Na avaliação de José Marcelo Zacchi, secretário-geral do GIFE, essa nova edição do Censo mostra, a partir de um olhar histórico para a pesquisa, que temas que há alguns anos eram novos – como a importância da transparência e governança – estão cada vez mais fortes e consolidados, mostrando um amadurecimento do setor – e que outros aspectos ainda precisam avançar.

Para ajudar na análise dos dados do Censo, é possível conferir na publicação uma série de artigos a respeito. Há também outros produtos, como o Key Facts, com os principais dados, assim como relatórios individuais para os respondentes da pesquisa. Em breve, o GIFE deve lançar também uma chamada para a elaboração de novos artigos sobre as informações, a fim de avançar na discussão sobre os temas levantados pelo estudo.

Clique aqui para acessar a publicação completa.

 

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