Negócios sociais ampliam a atuação do investidor social

Entre a filantropia e o mundo corporativo, os negócios sociais começam a se tornar mais robustos no Brasil, graças também ao apoio inicial de investidores sociais que buscam novas abordagens e soluções para as demandas da sociedade.

Porém, a construção deste campo demanda investimento e comprometimento, especialmente de indivíduos e instituições com capacidade financeira para apoiar o desenvolvimento na área. Afinal, embora eles se diferenciem da filantropia ao pressupor retorno financeiro, são distintos aos negócios mais tradicionais ao capitalizar o lucro inteiramente à causa.

Segundo o secretário-geral do GIFE, Andre Degenszajn, os negócios sociais têm sido identificados pelo GIFE como uma das fronteiras do investimento social, ampliando o campo de atuação de investidores e criando novas oportunidades de geração de impacto. “O investimento social, sem retorno financeiro, tem muitas vezes papel central na estruturação ou startup desses empreendimentos, criando um espaço de interação relevante que deve ser explorado, discutido e ampliado”, explica.

Além de alocar capital, propriamente, nos empreendimentos, os investidores sociais também podem atuar como financiadores de programas de incubação e aceleração de negócios, assumir o compromisso de aprofundar sistemas de classificação e métricas de avaliação de desempenho, produzir e compartilhar conhecimento, formar talentos e apoiar o desenvolvimento de prestadores de serviços financeiros e fundos de investimento especializado no campo. Resumindo: podem ser proprietários ou receptores de ativos, ou mesmo intermediadores dos empreendimentos.

Atuação
Grande parte dos investidores está localizada nos Estados Unidos. Internacionalmente, o banco JP Morgan, que abriu uma divisão apenas para tratar do que chama de “finanças sociais”, fez uma pesquisa com 99 investidores para fazer uma estimativa. O resultado que encontrou foi que, em 2013, os fundos podem injetar até US$ 9 bilhões, ou R$ 18,1 bilhões, em iniciativas de impacto, 12,5% mais que no ano passado.

Um exemplo de atuação como investidor é a Fundação Rockefeller. Segundo o artigo “Impacto social e ambiental positivo com retorno financeiro”, a organização possui um fundo patrimonial de cerca de US$ 3,6 bilhões e já alocou US$43 milhões desde (2008) para apoiar o desenvolvimento da chamada indústria de impacto.

No Brasil, ainda não é possível dizer o número exato de empreendimentos com esse perfil, mas estima-se que o setor tenha se expandido nos últimos anos. Especialistas calculam que existam R$ 250 milhões disponíveis para investimento de impacto no país, somando os valores que os fundos estão dispostos a desembolsar.

Programas de incubação e aceleração de negócios, nesse sentido, podem ser peça-chave no campo, pois contribuem para o desenvolvimento de modelos de negócios com potencial parar retornar capital financeiro.

Dentre algumas iniciativas brasileiras, o Concurso de Negócios Sociais, que apoia o lançamento e desenvolvimento de iniciativas que resolvam problemas sociais críticos de maneira financeiramente sustentável, atua como intermediador dos empreendimentos. Três negócios sociais são premiados com investimento financeiro inicial de até R$40 mil, além do convite a integrar o Portfólio de Incubação NESsT, organização que desenvolve empresas voltadas a resolverem problemas sociais críticos nas economias de mercado emergentes, que passam a receber apoio contínuo.

Primeiros passos
Especialistas na área apontam como fator crítico a dificuldade de se obter financiamento inicial, já que esses projetos, por serem startups, não têm comprovação de resultados e históricos de atuação. “Muitos negócios sociais começam com investimento a fundo perdido e isso é extremamente importante. Vemos agências de fomento do governo e alguns institutos e fundações preenchendo esse espaço, realizando investimentos em negócios sociais em estágios iniciais. Ainda são poucos casos em comparação a demanda, mas vemos um grande potencial para que a filantropia ocupe este espaço.”, explica o gerente da Artemisia, organização referência em negócios sociais no Brasil, Renato Kiyama.

Para estimular o crescimento do setor, o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) realiza diálogos entre aceleradoras e incubadoras de negócios sociais e os investidores sociais, a fim de aproximar conceitos. Não existe nenhuma restrição legal para que uma fundação, por exemplo, não invista em um negócio social.

“Existe o modelo mental de que as fundações brasileiras doam para ONGs ou para cooperativas. Esse limite do investimento para o interesse público deve ser substituído pela mentalidade do negócio de impacto”, defende a diretora do ICE, Celia Cruz.
Assim como defende o Nobel da Paz Muhammad Yunnus, que esteve presente na última semana no Brasil em um evento oferecido pelo GIFE e Instituto BRF, o setor privado domina o uso de tecnologias e possui poder criativo, que poderiam ser usados como instrumentos para novas alternativas de mercado. A multinacional BRF alinha seus trabalhos à lógica do negócio social e, por meio do Instituto BRF, realiza um estudo para verificar a viabilidade de trabalho no setor de avicultura do Haiti. A iniciativa tem como principal objetivo criar empregos e dar acesso a proteína de alta qualidade à população de baixa renda do país.

“Fazemos parte de comunidades e somos, portanto, corresponsáveis pelo desenvolvimento destas. O conceito e a prática de negócios sociais tem tido resultados positivos muito relevantes em diversas partes do globo. Acreditamos que o debate sobre o potencial vínculo, oportunidades, limites e desafios entre investimento social e negócio social deve ser ampliado no nosso país, bem como em outros países”, completa Luciana Lanzoni, diretora-executiva do Instituto BRF.

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