Investimento Social Familiar em debate: crescimento do campo e tendências de atuação

O desenvolvimento da filantropia no Brasil compreende a ideia do fortalecimento de institutos e fundações familiares. Essa modalidade do Investimento Social Privado tem crescido e novos atores chegam ao campo. É destaque na imprensa nacional o lançamento do Instituto Serrapilheira, iniciativa de Branca e João Moreira Salles, e também uma nova fundação, iniciativa do cineasta Walter Salles, em processo de implementação. Por que, apesar da instabilidade política e econômica que o país passa, este setor parece se fortalecer a cada ano?

A resposta não se encerra em um único ponto, mas o sentido do give back – termo do inglês que, em linhas gerais, significa retribuir à sociedade as conquistas de história próspera – parece ser comum. É parte da estratégia do GIFE articular conhecimento sobre o investimento social familiar para entender desafios e oportunidades para famílias filantropas no Brasil.

Este grupo de investidores é bastante heterogêneo e está em amplo processo de crescimento na rede GIFE – o número saltou de oito, em 2008, para 21, em 2015. O assunto foi inclusive tema da publicação “Retratos do investimento social familiar no Brasil”, lançada em 2015, que observa as dinâmicas que marcam este tipo de investimento na diversidade da sociedade civil organizada.

Para a presidente do Conselho de Governança do GIFE e vice-presidente do Conselho do Instituto Gerdau, Beatriz Gerdau Johannpeter, o fortalecimento deste tipo de investimento no Brasil tem a ver com características que marcam essa modalidade do Investimento Social Privado (ISP): “Hoje encontramos perfis muito diferentes dentro do grupo de investidores sociais familiares. Percebemos grandes players, que mobilizam uma quantidade relevante de recursos, e organizações menores, que também contribuem com o campo com sua atuação. Em comum, percebemos um compromisso muito forte com seu propósito, uma clara ligação com a cultura familiar.”

Para ela, um grande diferencial deste grupo de investidores é a flexibilidade. “Percebo que são investidores menos comprometidos com compromissos corporativos de seus financiadores. Assim, vejo que existe mais maleabilidade de estratégias, independência na atuação, mais espaço para experimentações, para a inovação, para correr riscos.”

Marcelo Furtado, diretor executivo do Instituto Arapyaú, também destaca o sentido inovador deste tipo de institutos e fundações. “Vemos neste perfil da filantropia familiar um interesse em atuar em agendas mais progressistas e temas contemporâneos. São três atributos que, em geral, marcam este tipo de investidor: inovação, risco e contemporaneidade.”

 

Diálogo

A aproximação entre investidores e a cooperação em agendas comuns ainda são desafios. Apesar de existirem espaços de diálogo, ainda é pouco comum reconhecer parcerias sólidas e duradouras neste campo. Furtado acredita que, por contarem com um recurso temporariamente garantido, os institutos e fundações familiares podem acabar se isolando. “Normalmente busca-se a sinergia na falta de recursos. A diversificação de fontes é estratégia de sobrevivência.”

Contudo, o gestor chama a atenção para a chegada das novas gerações na liderança das organizações. Para ele é característica dos mais jovens o interesse por modelos mais colaborativos de trabalho. “Não significa que os mais experientes não valorizem esta forma de trabalho, mas, reconhecidamente, uma tendência entre as novas gerações é esta ideia de estar conectado.”

Beatriz lembra que, apesar dos muitos desafios, é preciso reconhecer que a filantropia familiar, como movimento organizado, é fato novo no Brasil e tende a crescer ainda mais. “Acho que podemos evoluir na construção de espaços de diálogo entre atores do investimento social familiar. Estamos falando de um movimento recente, que começa a ganhar força a partir dos anos 2000. Temos muito a crescer.”

Furtado concorda e sublinha o principal compromisso que deve pautar a ação: “Por mais que vejamos um crescimento na filantropia familiar no Brasil, ela nunca representará o potencial de investimento que o volume de recursos de nossa economia possui. Portanto, acredito que o maior valor dessa ação é promover a cultura de doação individual no país. Muito mais do que o recurso investido, o que importa é a ideia da cultura da solidariedade. É isso que transforma. A única diferença é a escala”

 

Novos atores chegam ao campo

O anúncio de que o cineasta Walter Salles estaria mobilizando recursos próprios para a constituição de uma organização social com foco no segmento de direitos humanos soou como uma boa notícia no campo – marcado por alguns anúncios de desinvestimento em tempos de crise.

O lançamento do Instituto Serrapilheira, organização privada de apoio à ciência, também movimenta o setor. A iniciativa é de Branca e João Moreira Salles e terá à frente da operação o geneticista francês Hugo Aguilaniu, do Laboratório de Genética do Envelhecimento da Escola Normal Superior de Lyon, na França. Já na presidência do conselho está o pesquisador brasileiro Edgar Dutra Zanotto, do Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.

O instituto terá sede no Rio de Janeiro e operará com recursos oriundos de um fundo patrimonial constituído por uma doação em caráter irrevogável dos investidores no valor de R$ 350 milhões – um modelo considerado inovador no Brasil. Para seu orçamento será utilizado o ganho real (receita bruta acima da inflação menos impostos) resultante da aplicação financeira deste montante.

“Partimos da impressão de que a ciência não faz parte da imaginação do brasileiro, não ocupa uma posição central na nossa cultura, como ocorre em outros países como China, Índia e Estados Unidos, sem falar na Europa”, explica João Moreira Salles. “Se o instituto estiver sendo útil à ciência, nossa intenção é fazer novos aportes dentro de quatro ou cinco anos.”

Branca Moreira Salles, presidente do Conselho Administrativo, compartilha da mesma percepção. “Me juntei ao João porque tenho essa mesma percepção de que entre nós o valor simbólico da ciência é baixo. Na nossa literatura, por exemplo, não há personagens cientistas. Todos são escritores, jornalistas, professores, publicitários. Aqui é muito raro alguém imaginar uma carreira na matemática, por exemplo, e isso acontece porque os jovens não são cativados para as carreiras científicas.”

Rodrigo Fiães, diretor executivo do Instituto, aposta na construção de canais de diálogo entre investidores. “Desde o início do processo de montagem do instituto conversamos com diversas instituições privadas brasileiras. Procurávamos aprender com suas experiências, seus erros. Isso continuará. É essencial que esta rede filantrópica privada, que visa o bem público, seja fortalecida de formas múltiplas. O GIFE nos parece instrumental para que isso se materialize.”

A forma de atuação já nasce inovadora. “A constituição de um fundo patrimonial dá estabilidade ao funcionamento do instituto. Indica, com muita clareza, o compromisso de longo prazo de Branca e João com o projeto. Olhando para fora, o fundo patrimonial é uma característica razoavelmente comum no caso de instituições filantrópicas radicadas em países mais desenvolvidos (sendo os Estados Unidos o grande exemplo). Segundo as informações disponíveis, não há tantos fundos patrimoniais no país. Então fica a expectativa que este gesto venha a estimular outros, na mesma direção”.

 

 

FacebookTwitterLinkedInGoogle+