Jornalismo independente é fundamental para a construção de sociedades democráticas, apontam especialistas

A 9ª edição do Congresso GIFE se propôs a discutir o sentido público do investimento social privado. E, como falar sobre essas relações sem passar por um importante ator na sociedade: a mídia? Para trazer luz ao tema, a programação do evento colocou à tona o debate: o papel do jornalismo em sociedades democráticas.

O tema nasceu a partir das discussões do Grupo de Trabalho de Comunicação, uma iniciativa do GIFE que reúne profissionais da área para discutir caminhos para uma comunicação estratégica capaz de fortalecer o campo social.

Para compor a mesa, o congresso reuniu um time de pesquisadores, profissionais e empreendedores da atividade jornalística. Participaram do encontro Pedro Abramovay, diretor para a América Latina & Caribe da Open Society Foundations; Bruno Torturra, criador do Estúdio Fluxo e coordenador do estudo “Jornalismo em Fluxo”; Natalia Viana, criadora da Agência Pública; Leandro Beguoci, diretor editorial e de produtos da Associação Nova Escola, pertencente à Fundação Lemann; e Ricardo Gandour, do Grupo Estado e pesquisador da Universidade Columbia, nos Estados Unidos.

Bruno Torturra, moderador do debate, abriu a conversa provocando: “Estamos vivendo um momento de grande complexidade política [no Brasil]. Nossa imprensa precisa ser capaz de dar conta disso. Ao mesmo tempo, vivemos uma crise no modelo tradicional do negócio do jornalismo, uma crise de uma importante atividade pública. Como encontrar saídas para esse cenário?”

Para o criador do Estúdio Fluxo é também papel do investimento social privado olhar para essa atividade econômica que gera benefício público. Contudo, ele explica que, historicamente, o Brasil não tem a tradição de destinar recursos privados, sejam via institutos ou fundações, para projetos na linha do jornalismo independente.

A mesa trouxe uma chamada pública, quase um convite aberto para investidores sociais e profissionais do setor passarem a discutir vias para o financiamento da produção jornalística livre e independente. Lembrando o papel da imprensa para a construção de uma democracia sólida, Bruno reforçou: “A mídia é uma causa em si.”

Ricardo Gandour trouxe para o debate uma reflexão sobre os caminhos percorridos pela comunicação nos últimos anos que culminaram no que ele chamou de “profunda fragmentação da produção de informação”. Para ele, as novas mídias impactaram fortemente o ambiente de comunicação e as formas de produção e fruição de informação.

Gandour explicou que a pulverização do ambiente informativo levou a um cenário de polarização dos debates na esfera pública. “Vivemos uma saturação informativa, o que acaba levando à superficialidade do debate. As pessoas, em geral, dialogam apenas com os que pensam como elas. As redes sociais, por sua vez, alimentam rumores. Vivemos hoje uma pressa em chegar logo a uma conclusão. Porém, o bom debate está nas nuances.”

Nesse sentido, os veículos tradicionais de comunicação vêm perdendo força, especialmente por conta da crise em seu modelo de financiamento (antes pautado na publicidade), e os consumidores de informação acabam não tendo uma referência de conteúdo de qualidade. “Hoje o cidadão precisa de um maior aparelhamento individual para fazer a sua própria curadoria [de conteúdos].”

Contudo, apesar da crise, Gandour vê na própria causa do problema uma perspectiva de solução. “Será o investimento social privado uma das alternativas de financiamento do jornalismo nesse momento de crise?”, questionou.

Independência em pauta

Pedro Abramovay acredita que a questão central do jornalismo que fortalece sociedades democráticas se resume em uma palavra: independência. E, nesse sentido, é impossível analisar toda a complexidade da crise atual sem falar sobre dinheiro.

O diretor da Open Society Foundations buscou, ao longo de sua fala, caracterizar a tal crise no modelo de negócio do jornalismo. Para ele, quando os investimentos em publicidade começaram a sair da imprensa tradicional para ocupar também outros espaços – como redes sociais, por exemplo – os veículos perderam a força de um recurso que viabilizava sua independência editorial. “Hoje as marcas não precisam mais dos jornais para chegar ao público em geral. Atualmente é a mídia que precisa das empresas. E isso é muito perigoso para a democracia.”

O que Abramovay quer dizer é que a garantia da liberdade de imprensa passava pela robustez de contratos comerciais que viabilizavam a prática jornalística sem comprometer a independência editorial. Hoje, em tempos de crise do modelo, temos que tomar cuidado para que patrocinadores (ou financiadores) não pautem o trabalho do jornalista.

“Mesmo quando falamos no investimento proveniente da filantropia, temos que ter a certeza de que ele não irá direcionar o trabalho. O desafio atual é construir modelos nos quais o objetivo é a independência da imprensa. Não se pode olhar para o jornalismo com a ideia de encomenda”, disse Abramovay.

Parece um modelo distante, mas algumas experiências provam que é possível praticar jornalismo independente a partir do financiamento privado. Um exemplo é a Agenda Pública, uma agência brasileira de reportagem e jornalismo investigativo. Natalia Viana, uma das criadoras da iniciativa, contou que trata-se de uma difícil tentativa de sobreviver com financiamento filantrópico – e sem deixar que isso interfira no conteúdo.

“Acredito que é possível fazer jornalismo fora da indústria, do modelo tradicional. A Pública conta hoje com diversos financiadores e, o tempo todo, tentamos educá-los sobre a importância da independência. Eles precisam entender que é mais importante ser independente do que comunicar causas.”

Atualmente, além de produzir profundas reportagens investigativas (em geral sobre temas ligados aos direitos humanos) com equipe própria, a Agenda financia jornalistas autônomos por meio de um edital. E vai além: mantém a Casa Pública, um centro para a produção, fomento, discussão e apoio ao jornalismo independente no Rio de Janeiro e é a idealizadora do Mapa do Jornalismo Independente, uma vitrine para iniciativas de comunicação independente no Brasil.

Reforçando a ideia de que é possível encontrar novos modelos para valorizar a produção jornalística, Leandro Beguoci levou para o Congresso GIFE o caso da revista Nova Escola, transferida recentemente para a Fundação Lemann. Considerada uma das publicações mais importantes da área educacional, a revista ganhou sobrevida ao ser incorporada pela Fundação.

“Estamos investindo nesse projeto por acreditar no valor que o jornalismo gera para as pessoas e a sociedade. Entendemos que a Nova Escola não pode ser um panfleto da Fundação Lemann. Para isso, estruturamos um modelo totalmente independente.”

Longe de cravar conclusões ou encerrar o debate, a mesa sobre o papel do jornalismo em sociedades democráticas preferiu o lugar da provocação e do convite para a reflexão. Dentro de um evento que escolheu falar sobre as intersecções entre o público e o privado, mostrou que é possível, via investimento social privado, fortalecer a prática jornalística no Brasil em busca de uma democracia mais sólida.

Para ler mais sobre o 9º congresso, clique aqui.

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