‘Maior ameaça à sociedade é a desesperança’, diz presidente da Fundação Ford. Veja como foi o 1º dia do Congresso

O primeiro dia do 9º Congresso GIFE teve a conferência especial do presidente da Fundação Ford, Darren Walker, plenária de abertura com representantes do Instituto Unibanco, Fundação Tide Setubal, Anistia Internacional e FGV Direito, além de 10 atividades gratuitas na programação aberta. Veja alguns destaques.

 

Conferência especial

Darren Walker, da Fundação Ford. Foto: Guilherme Tamburus

No último relatório divulgado pela Oxfam sobre desigualdade, em 2015, apenas 62 pessoas detinham a mesma riqueza que metade da população mais pobre, o equivalente a 3,6 bilhões de pessoas. Para colocar o combate à desigualdade em pauta, o Congresso GIFE convidou Darren Walker, presidente da Fundação Ford, para participar de conferência especial durante o primeiro dia do evento.

Em conversa mediada pela jornalista Laura Greenhalgh, do Arq.Futuro, Walker contou que a exclusão é reforçada em todo o mundo por meio da cultura. “O problema se agrava com vários fatores: os preconceitos, que se reproduzem geração após geração; a economia, que perpetua a situação desigual; e a política, que favorece os mais ricos. Juntos, eles criam um senso de perda profunda de potencial humano e favorecem o surgimento da desesperança”, diz.

Walker acredita que a maior ameaça às sociedades mundiais é o sentimento de desesperança que surge da desigualdade – seja ela entre pessoas, países, etnias ou gênero. Por isso, a Fundação Ford desenhou uma nova estratégia global, na qual a desigualdade estrutural é questão central. Esse plano de ação se aplica a cada um de seus 10 escritórios ao redor do mundo, espalhados em três continentes estratégicos para a redução da desigualdade global: África, América Latina e Ásia.

“O tema desigualdade emergiu na Fundação Ford quando virei presidente de forma gradual. A nossa ideia era ter um mundo mais justo e pacífico, mas encontramos três problemas no caminho para atingir estes objetivos: mudanças climáticas, insegurança e desigualdade. Como somos uma fundação que acredita em justiça social, abraçamos a causa da desigualdade”, conta.

Também foram temas da palestra do presidente da Fundação Ford o financiamento de organizações da sociedade civil que combatem as desigualdades, as formas de avaliação de resultados e transparência nas instituições.

 

Plenária de abertura

Instituto Unibanco, Fundação Tide Setubal, Anistia Internacional e FGV Direito

Um time de especialistas em diversas áreas dos estudos sociais compôs a plenária de abertura do 9º Congresso GIFE.

Maria Alice Setubal, presidente do conselho consultivo da Fundação Tide Setubal; Átila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil; Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, e Oscar Vilhena, diretor da FGV Direito SP, reuniram-se para discutir a pauta “O Brasil que temos, o Brasil que queremos. Visões a partir da política, justiça e sociedade sobre a conjuntura atual”.

Ao mediar o debate, Henriques disse acreditar que é preciso recompor as relações entre os interesses público e privado no país, criando pontes que não podem se desfazer por conta das recentes polarizações políticas. “Como aproximar as visões de mundo de forma que apontem possíveis caminhos? Devemos aprofundar a racionalidade”.

Roque, da Anistia Internacional apontou que, atualmente, é necessário que pensemos os avanços dos últimos 30 anos – desde o reestabelecimento da democracia – mas de maneira que enfrentemos dois graves sintomas da sociedade brasileira, e que aprofundam suas desigualdades: a sofisticação da negação em relação ao racismo no país, um mal que é necessário reconhecer, e a realidade da violência. “Somos um país profundamente violento. Qualquer agenda de mudanças vai ter que ir fundo nessas questões”. Para Roque, a igualdade como valor é um fenômeno brasileiro recente.

Maria Alice Setúbal chamou atenção para o fato de que a democracia brasileira ainda é jovem, e a polarização no debate político muitas vezes é contaminada por uma imaturidade que favorece extremismos. Sobre a importância do investimento social privado, a presidente da fundação Tide Setubal chamou atenção para a importância dos institutos e fundações praticarem a escuta, compreendendo as necessidades da sociedade. “Não podemos ser arrogantes, devemos adotar uma postura de reflexão. Neste momento, em que o país corre o risco de perder ganhos sociais, é necessário que o investimento social privado seja maior. Temos de manter o compromisso financeiro de apoio, buscando sempre a equidade”.

“Será que as instituições jurídicas mudaram?” Essa foi a pergunta que Oscar Vilhena procurou responder em seu panorama jurídico sobre as mais recentes controvérsias envolvendo o judiciário nacional e a política. Para ele, a resposta está na conscientização política da sociedade, que começa a tomar forma, ainda que em estágio inicial. “Podemos dizer que a Constituição de 1988 foi uma repactuação da sociedade em torno de um projeto utópico. Em alguma medida, nós caminhamos em direção ao progresso, mas de maneira desigual. Então, podemos dizer que continuamos desiguais, mas em menor intensidade”. Para ele, uma parcela da sociedade, mais jovem e protagonista de tais mudanças, colaborou para que houvesse “curto-circuito” ao confrontar-se com uma velha geração nas instituições políticas e judiciárias. “O povo mudou, mas a cultura político-empresarial não percebeu”.

Ao final de sua fala, o jurista citou ao público uma frase dita por George Soros, durante uma reunião em que esteve presente, chamando atenção do papel das fundações e institutos no momento atual. “O papel das fundações não é saber respostas da sociedade. É apoiar uma multiplicidade de ações para chegar às respostas”.

 

Programação aberta

O sentido público do investimento social privado

A manhã do primeiro dia do 9º Congresso GIFE foi marcada por dez atividades gratuitas de temas diversos, de educação a desigualdades. O objetivo é abordar o sentido público do investimento social privado, tema do Congresso em 2016.

Tais mesas de debate compuseram a primeira etapa da Programação Aberta do evento, construída coletivamente pelos associados e parceiros do GIFE. Além da programação oficial, o encontro tem 26 atividades gratuitas, distribuídas pelos três dias de Congresso.

Entre as dez primeiras atividades realizadas estão: “O papel das avaliações para favorecer o interesse público do investimento social privado”, da Move; “Culturas de doação: práticas e aprendizados”, da Wings; “A agenda brasileira para a implementação dos ODS”, da Estratégia ODS e do Centro Rio+; e “As perspectivas do investimento social familiar no Brasil”, do GIFE.

Estão previstas para os próximos dias de evento atividades como a apresentação dos Indicadores de Governança, do próprio GIFE; a sessão especial do filme “Os jogos de Putin”, da Mostra Ecofalante de Cinema Socioambiental; e o painel “Como fundações podem dar suporte efetivo para escolas públicas?”, da Fundação Lemann.

Veja como acompanhar todas as notícias do Congresso GIFE.

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