Desafios e transformações possíveis para o uso ético da inteligência artificial
O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) tem provocado mudanças estruturais profundas na sociedade. Ao mesmo tempo em que possibilita inovações, também amplia desigualdades, reforça vieses discriminatórios e gera impactos ambientais consideráveis. Neste cenário, qual o papel do Investimento Social Privado (ISP)?
A Inteligência Artificial generativa – aquela que cria conteúdos inéditos, como textos, imagens, músicas – está entre nós desde a década de 1950. Foi quando Alan Turing, conhecido como pai da ciência da computação teórica e da inteligência artificial, idealizou o Teste de Turing, um experimento para avaliar se era possível um computador expressar a mesma inteligência de um humano.
Contudo, foi em 2023 que o debate sofreu uma guinada sem precedentes, a partir da repercussão do lançamento do ChatGPT, pela OpenAI, seguido pelo Gemini, do Google. Só esse ano, se somaram a eles a chinesa DeepSeek, e a Grok 3. Sem contar outras aplicações da tecnologia, como as IAs de armas de guerra.
Diante dessa rápida popularização, crescem os desafios relacionados à desinformação, amplificação de desigualdades estruturais, disseminação de deepfakes e tensões geopolíticas.
Contexto que cria forças a partir do “viés algorítmico”, como pontua Juana Kweitel, vice-presidenta da Luminate para América Latina, Programas Globais e Iniciativas Estratégicas. “Por exemplo, o uso de ferramentas de IA na área de segurança pública pode acabar replicando preconceitos de raça e aprofundar violações de direitos da população negra. Do mesmo modo, estudos já mostraram como ferramentas de IA classificam de forma sexista conteúdos sobre mulheres.”
Silvana Bahia, co-diretora executiva do Olabi, reforça esta preocupação. Para ela, o grande desafio da IA é não reproduzir o racismo e o machismo tão presentes em nossa sociedade.
“A IA, assim como outras tecnologias, reproduz a estrutura de sociedade em que vivemos e isso é ainda mais alarmante em sociedades como o Brasil, que é mais consumidor do que produtor de tecnologia. Isso revela que as tecnologias carregam a visão de mundo de quem as cria, e sabemos que a maioria das tecnologias que usamos são criadas por um tipo padrão de pessoas: homens brancos do hemisfério norte. ”
Natália Viana, diretora executiva da Agência Pública, aponta para soluções que extrapolam o quesito tecnologia. “A solução não é tecnológica, pelo contrário, é política, conscientização da estrutura tecnológica por trás dessas decisões aqui descritas, e mobilização social para um uso mais crítico dessas ferramentas. Além de instrumentos de pressão que levem a um monitoramento público, seja judicial, mas principalmente através de legislação.”
Meio ambiente em foco
A perspectiva das mudanças climáticas é outra abordagem que não escapa a essa inovação. Embora possa figurar como uma aliada, muitos de seus modelos exigem alto consumo energético.
Diante desse cenário, a posição do Brasil pode ser observada em movimentos como a aprovação do marco regulatório da inteligência artificial pelo Senado em dezembro do último ano, sendo esperado que sua tramitação agora avance na Câmara dos Deputados. Soares detalha que a proteção ao meio ambiente e o desenvolvimento ecologicamente equilibrado é reconhecida como uma das diretrizes para o desenvolvimento da IA no projeto de lei. Também é previsto o incentivo a disponibilidade de data centers sustentáveis no país. Mas alerta: não pode ficar apenas como uma diretriz no papel.
“Na busca pelo pioneirismo da corrida da IA, é necessário um montante de recursos naturais que podem sobrecarregar a infraestrutura do planeta. Estamos em plena crise ambiental global e a eficiência da IA também deve ser energética.”
MATHEUS SOARES, coordenador de conteúdo do Aláfia Lab
Entre as expectativas para o marco, também estão a consolidação de uma agência reguladora e medidas para garantir que o uso da IA não comprometa a segurança dos dados dos usuários.
Ainda assim, Tarcízio Silva chama atenção para retrocessos em relação à versão anterior do PL 2338/2023. Como a exclusão de mecanismos de participação social tanto nas entidades supervisoras quanto nos procedimentos ligados a análise de impacto algorítmico de alto risco. “Esse ponto é nevrálgico no sentido de que, por melhor que seja o projeto de lei, sem participação social não terá efeitos na proteção de cidadãos e consumidores.”
54%
54% dos brasileiros relataram ter utilizado IA generativa em 2024, enquanto a média global foi de 48%, aponta pesquisa feita pela Ipsos e o Google em 21 países.
Descentralização
Tarcízio Silva ainda explica que a inteligência artificial como vemos hoje é a aposta de um pequeno grupo hegemônico do poder, ligado sobretudo ao capital financeiro e às big techs.
“A IA hegemônica hoje é essencial apenas para uma pequena fatia da humanidade. Há muitas comunidades tradicionais em torno do mundo que possuem uma relação mais equilibrada com a existência e com a natureza e não precisam da IA. É esse equilíbrio que devemos buscar”, defende. Nesse contexto, Juana Kweitel aponta para o caminho estratégico de descentralização.
“Ao garantir que os mercados de infraestrutura, dados e serviços não sejam dominados por um grupo pequeno de companhias, podemos criar espaço para que empresas que respeitem direitos surjam e forneçam sistemas e serviços construídos com e para as comunidades locais.”
Espaço esse que pode ser pavimentado e criar vários outros a partir do apoio de setores como o ISP. “É importante que a filantropia brasileira promova mais trocas sobre esse tema”, reforça Natália Viana.
ISP em perspectiva
Os especialistas reforçam que o ISP pode desempenhar um papel crucial na criação de soluções que reduzam os danos causados pelo uso indiscriminado da IA. Apesar do potencial transformador, dados do último Censo GIFE (22-23) mostraram que o setor tem tomado o caminho contrário, tendo em vista que apenas 1% das organizações respondentes tinham a “Ciência e Tecnologia” como foco prioritário de atuação.
Observando o cenário por lentes otimistas e incentivadoras, Silvana Bahia comenta sobre a importância das organizações da sociedade civil (OSCs) neste contexto. “As OSCs têm um papel fundamental em criar espaços, iniciativas e propor ações para mitigar os efeitos negativos das IAs. Não podemos dissociar as tecnologias de questões sociais.”
Ponto de vista partilhado por Gabriela Agustini, também co-diretora do Olabi, que menciona perspectivas possíveis.
“Na nossa visão, existem dois pontos-chave para estimular mais investimentos: um se baseia em alertar os potenciais riscos associados a como os sistemas vêm se desenhando e sendo adotados; o outro se refere a dar visibilidade a alternativas de uso da inteligência artificial que coloquem a justiça social e o bem comum no centro do seu processo.”
GABRIELA AGUSTINI, também co-diretora do Olabi
Um dos caminhos é promover a criticidade, incentivando o desenvolvimento da mão de obra local e a criação de sistemas alinhados com a realidade e os desafios sociais do país.
“E isso só ocorrerá se o investimento social privado se tornar parceiro de experimentações que permitam vivermos em realidades sonhadas por grupos mais diversos e menos hegemônicos”, finaliza Gabriela.
Entrevistados
Matheus Soares
Aláfia Lab
Tarcízio Silva
Pesquisador
Silvana Bahia
co-diretora executiva do Olabi
Natália Viana
diretora executiva da Agência Pública
Juana Kweitel
vice-presidenta da Luminate para América Latina, Programas Globais e Iniciativas Estratégicas.
Gabriela Agustini
co-diretora do Olabi
Expediente
Natália Passafaro COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO
Geovana Miranda ANALISTA DE COMUNICAÇÃO
Afirmativa REPORTAGEM/TEXTO
Marina Castilho DESIGN & DESENVOLVIMENTO
Apoio institucional
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