Potencial da bioeconomia em comunidades tradicionais ainda é pouco compreendido pelo investimento social privado
Por: GIFE| Notícias| 31/03/2025
Projeto Suruelas
A bioeconomia tem se consolidado como um dos caminhos mais promissores para um futuro sustentável, especialmente para comunidades que vivem em estreita relação com os recursos naturais. No Brasil, territórios quilombolas têm demonstrado como construir alternativas produtivas que respeitam o meio ambiente e fortalecem a autonomia financeira das mulheres.
O projeto Sururuelas, é um desses exemplos. A iniciativa tem entre suas propostas um curso de biojoias, que se propõe a ensinar as mulheres da comunidade a transformar as cascas de sururu, um subproduto da mariscagem frequentemente descartado, em biojoias, como colares e pulseiras, unindo sustentabilidade, geração de renda e identidade cultural.
A iniciativa surge como resposta a desafios ambientais e sociais identificados na região, como o descarte inadequado das cascas de sururu nas vias públicas, que causam impactos ambientais, afetando o solo e a qualidade da água e expondo as marisqueiras a condições precárias de saúde e qualidade de vida.
“A ideia veio da minha inquietação, vendo diariamente as marisqueiras tendo essa luta árdua no manguezal, e o ciclo acabando de uma forma injusta, em relação à luta do nosso território pela preservação”, explica Pamela Batista, coordenadora executiva da Associação Rede Elas Negras Conexões, centrada na comunidade quilombola da Bacia e Vale do Iguape, no recôncavo baiano.
Ela conta que após passarem até oito horas na maré, para depois ainda ferver os mariscos, não se conformava em ver que o subproduto era descartado em terrenos, ou até mesmo à beira do rio, gerando impactos ambientais e sanitários.
“O sururu é um dos principais produtos da economia local. Aí surgiu a ideia de fazer algo que possa gerar renda e mostrar para essas mulheres”, completa.
Para a coordenadora, o projeto se conecta com os princípios da bioeconomia e do Bem Viver, principalmente por valorizar os saberes e práticas tradicionais do território, esgotando todas as possibilidades da principal matéria prima local gerando zero impacto. Além da necessidade de inclusão socioprodutiva das marisqueiras e pescadoras, sobretudo no intervalo de defeso, quando a pesca ou coleta de mariscos fica proibida para garantir a reprodução e a preservação dessas espécies. Durante o defeso, elas têm direito ao seguro-defeso, um benefício pago pelo governo para garantir renda mínima nesse período.
“É preciso respeitar esses ciclos. Mas tem um grande impacto na renda dessas mulheres. Então pensamos em um projeto que também pudesse contribuir nesse sentido”, comenta Pamela.
Além do curso de biojoias, as marisqueiras vão participar de palestras para auxiliar na criação de um plano de negócios para estruturar a comercialização das peças. A iniciativa visa ainda desenvolver programas de educação ambiental focados na resiliência climática, para sensibilizar 50 membros da comunidade do Iguape sobre a importância da preservação ambiental. “Quem é nascido e criado nessas comunidades sabe o quanto as ausências das políticas públicas e impactos do racismo ambiental alteram a forma que a gente se relaciona com o ambiente. Criamos estratégias de defesa dentro desse território”, finaliza Pamela Batista.
“Ainda não chegamos em nosso máximo potencial de investimento”
Segundo o estudo “Identificação das Oportunidades do Impacto da Bioeconomia para a Descarbonização do Brasil” feita pela Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI), a implementação de novas tecnologias ligadas à bioeconomia tem potencial de injetar US$ 592,6 bilhões ao ano no Brasil e reduzir as emissões de gases estufa no país em 28,9 bilhões CO2eq em 30 anos (2020 a 2050).
Diane Pereira Sousa, consultora do Programa Impacto Black, ressalta que comunidades como a da Bacia do Iguape já fazem bioeconomia há muito tempo. “Para comunidades como esta não é possível falar em bioeconomia sem ancestralidade, entendendo que são as tecnologias ancestrais que até hoje orientam, moldam e fortalecem a capacidade das comunidades de produzir desenvolvimento.”
Para que o Investimento Social Privado (ISP) possa fortalecer projetos voltados para bioeconomia que respeitem os territórios tradicionais e contribuam com o combate às desigualdades, Diane acredita que é preciso ampliar os sentidos para não apenas ver, mas tocar o que os territórios tradicionais aportam de forma concreta.
“Olhar para dentro é fortalecer a democracia, o desenvolvimento local e construir confiança para mudar o agora. O ISP tem condições de fazer mais. Ainda não chegamos ao nosso máximo potencial de investimento para os territórios tradicionais. Pensar uma filantropia para os territórios é urgente e necessário”, finaliza a consultora.
13º Congresso GIFE – Desconcentrar poder, conhecimento e riquezas
Bioeconomia e um novo paradigma de desenvolvimento para pessoas, clima e a natureza é um dos temas que será abordado no 13º Congresso GIFE.
De 7 a 9 de maio, em Fortaleza, especialistas, lideranças e organizações estarão reunidos para debater como ampliar o apoio às OSCs, fortalecer a equidade de gênero e raça e impulsionar soluções para um desenvolvimento sustentável e democrático.
O 13º Congresso GIFE — Desconcentrar Poder, Conhecimento e Riquezas tem o apoio da Fundação ArcelorMittal, Fundação Itaú, Vale, Ford Foundation e Open Society.
Inscrições abertas: congressogife.org.br