Transformações no mundo do trabalho desafiam e reposicionam o investimento social privado

Com o avanço da inteligência artificial, mudanças nas jornadas e a transição para uma economia sustentável, o mundo do trabalho passa por reconfigurações profundas. Como o ISP tem respondido a esse cenário e como garantir inclusão produtiva, reduzindo desigualdades?

Historicamente, iniciativas de educação e empregabilidade juvenil ocupam lugar central na agenda do Investimento Social Privado (ISP) e da filantropia. As áreas de inclusão produtiva, empreendedorismo, geração de renda e desenvolvimento local/territorial/ comunitário dividiram a quarta posição (9% cada) entre as temáticas foco dos respondentes do Censo GIFE 2024-2025. Foram R$ 365 milhões voltados para estas áreas, uma alta de 8% em relação à edição anterior.

No entanto, em tempos em que o avanço da Inteligência Artificial (IA) tem sido comparado à própria Revolução Industrial do século XVIII, o setor tem conseguido se adaptar a essas e outras transformações?

Para Natália Di Ciero Leme Quadros, gerente de Programas e Parcerias na Fundação Arymax, a resposta é sim, e com avanços importantes. Entre elas, destaca a experimentação de modelos mais integrados, que combinam educação, inclusão produtiva e desenvolvimento territorial; a crescente atenção à integração das agendas ambientais e sociais; o investimento em estudos que subsidiam os setores públicos e privados para a tomada de decisão com maior eficácia; e o alinhamento de diferentes capitais para potencializar impacto. 

No entanto, acredita que ainda há caminhos a fortalecer para ampliar o impacto. “Muitas iniciativas são bem-sucedidas, mas ainda fragmentadas. É preciso maior coordenação entre setor privado, poder público e sociedade civil para atender as demandas de um país continental como o nosso.” 

Natália ainda chama atenção para a necessidade de levar o foco das inovações para as populações mais vulneráveis e aproximar essas inovações do mercado de trabalho real.

“O desafio agora não é apenas inovar, mas garantir que essas inovações contribuam efetivamente para reduzir desigualdades e ampliar oportunidades de forma sustentável e continuar atentos e flexíveis para nos adaptarmos às mudanças na velocidade que têm acontecido.”

Uma nova realidade

As mudanças no mercado de trabalho devem ocorrer principalmente por influência da IA, a automação de processos e a transição verde. Nesse sentido, habilidades tecnológicas, com Big Data e segurança cibernética têm sido altamente valorizadas. Mudanças demográficas, impulsionadas pelo envelhecimento da população ativa em países ricos, e o aumento da população jovem no mercado de trabalho em países de baixa renda, também gerarão adequação de empregos, segundo a pesquisa.

Até 2030, 39% das habilidades atuais serão transformadas e 22% dos empregos formais devem mudar ou surgir, aponta a 5ª edição do estudo do “Futuro do Trabalho”.

Domênica Falcão, gestora de Impacto Social da Fundação Grupo Volkswagen, assinala que a combinação entre tecnologia, automação e novas demandas profissionais têm elevado o nível de preparo necessário para a inserção dos jovens. 

“Hoje, não basta apenas a formação técnica básica. É preciso combinar competências digitais, capacidade de adaptação e habilidades socioemocionais, como pensamento crítico, comunicação e resolução de problemas.”

A executiva destaca que iniciativas voltadas à formação integrada, que articulam desenvolvimento técnico, socioemocional e conexão com o mercado, têm se mostrado mais eficazes neste cenário. Programas estruturados de aprendizagem, que oferecem acompanhamento contínuo e possibilidade de progressão, contribuem não apenas para o acesso ao primeiro emprego, mas para trajetórias mais sustentáveis de mobilidade social.

“As transformações recentes no mundo do trabalho têm elevado significativamente o grau de exigência para a inclusão produtiva dos jovens, especialmente os mais vulneráveis”, avalia Natália Quadros. Para ela, esse contexto se combina com um mercado de trabalho em rápida transformação, no qual trajetórias profissionais deixam de ser lineares e passam a exigir adaptação contínua.

“Não se trata mais de preparar jovens apenas para o primeiro emprego, mas para percursos profissionais dinâmicos e em constante evolução. Para jovens em situação de vulnerabilidade, o desafio é ainda maior, pois eles enfrentam barreiras estruturais ao mesmo tempo em que precisam responder a essas novas exigências.”

Para lidar com esse cenário, o estudo “(Re)qualificação das juventudes para um mundo em transformação”, lançado pela Arymax em parceria com o Itaú Educação e Trabalho e com o Instituto Veredas, aponta algumas estratégias:

Outros estudos também destacam os impactos das tensões geoeconômicas, que ameaçam cadeias globais de suprimentos, e da transição verde.

Ainda há uma lacuna importante entre a formação oferecida e as competências demandadas por esses novos setores. Para nós, não existe transição para a sustentabilidade, sem inclusão produtiva. Ela é vetor estratégico e não uma adjacência a ser resolvida com programas de assistência social”, reflete Natália Quadros.

Para ela alcançar essas competências exige algumas medidas, que perpassam por integração de temas de sustentabilidade e clima na formação técnica e profissional. “Se bem conduzida, essa transição pode ser uma alavanca para inclusão produtiva, mas isso depende de intencionalidade nas políticas públicas e nos investimentos sociais”, completa.

ISP pode ser indutor de novas práticas

A atuação do setor privado também tem sido atravessada por mudanças nas dinâmicas produtivas e nas exigências do mercado. O debate público sobre as condições de trabalho, por exemplo, tem ganhado força. A discussão em torno da escala 6×1, que mobiliza trabalhadores e especialistas, expõe tensões mais amplas sobre jornadas extenuantes, remuneração e qualidade de vida. Para Domênica Falcão, esse movimento reforça que a agenda não deve se restringir à geração de empregos, mas à promoção de qualidade no trabalho.

“O trabalho decente é um dos principais vetores de mobilidade social, mas isso só se concretiza quando há condições adequadas de remuneração, jornada, proteção e perspectiva de desenvolvimento.”

Neste cenário, o ISP pode atuar como indutor de práticas mais equilibradas, apoiando modelos que conciliem produtividade e bem-estar, além de fomentar parcerias que elevem o padrão das oportunidades disponíveis.

A discussão sobre qualidade do trabalho também aparece como central na análise acadêmica. Para Luciana Ferreira, professora e pesquisadora da Fundação Dom Cabral, o debate sobre a escala 6×1 é um sintoma de uma transformação mais profunda nas relações de trabalho.

“O que vemos é o esgotamento de um modelo em que o trabalhador absorve toda a flexibilidade do sistema”, afirma. Segundo ela, essa pressão recai de forma desigual sobre grupos historicamente mais vulnerabilizados, como mulheres negras em setores de serviços, que concentram jornadas intensas e acúmulo de responsabilidades.

A pesquisadora aponta que o ISP pode contribuir não apenas com formação, mas com a produção de evidências e o teste de novos modelos. Isso inclui desde estudos sobre os impactos de jornadas extenuantes na saúde mental, até o financiamento de iniciativas que experimentem arranjos alternativos de trabalho e proteção social. A dimensão da saúde mental, aliás, tem se tornado cada vez mais relevante diante das novas formas de organização do trabalho

Para Bárbara Vazquez, economista e pesquisadora da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESP-SP), essas transformações também alteram o próprio significado do trabalho para as novas gerações. “O trabalho deixa de ser associado à estabilidade e passa a ser vivido como algo mais flexível, fragmentado e instável, atravessado pela necessidade permanente de adaptação”, explica.

Jovens entram no mercado em meio à alta informalidade, maior competição e instabilidade, onde estudar e trabalhar mais já não garante renda nem ascensão social. “Em muitos casos, trabalha-se mais, estuda-se mais e enfrenta-se maior competição, sem que isso assegure estabilidade ou renda compatível.”

A pesquisadora afirma que esse cenário exige olhar para além das competências individuais e considerar o papel das políticas públicas, das instituições e das estratégias de desenvolvimento na definição de quais empregos serão criados e em quais condições.

“A questão central não é apenas tecnológica, mas como essas ferramentas serão utilizadas pela sociedade, pelas empresas e pelo Estado.”

O futuro do trabalho se desenha, assim, como um campo em disputa. De um lado, persistem riscos de aprofundamento das desigualdades e da precarização; de outro, abre-se a possibilidade de orientar a tecnologia para qualificar o emprego, reduzir jornadas e ampliar o bem-estar.

À luz dessas transformações, como indicam as diferentes análises, o ISP tende a assumir um papel cada vez mais estratégico — não apenas na formação de indivíduos, mas na articulação entre atores e na construção de respostas coletivas à altura desses desafios.

PESSOAS ENTREVISTADAS

Bárbara Vazquez

economista e pesquisadora da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESP-SP)

Domênica Falcão

gestora de Impacto Social da Fundação Grupo Volkswagen

Luciana Ferreira

professora e pesquisadora da Fundação Dom Cabral

Natália Di Ciero Leme Quadros

gerente de Programas e Parcerias na Fundação Arymax

Expediente

Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO

Geovana Miranda
ANALISTA DE COMUNICAÇÃO

Afirmativa
REPORTAGEM/TEXTO

Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO


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