Investimento Social Corporativo avança, mas enfrenta desafios sobre interesse público 

Por: GIFE| Notícias| 13/05/2026

Crédito: Istock

O Investimento Social Corporativo (ISC) está cada vez mais integrado às estratégias de negócios das empresas brasileiras. Essa é uma das principais conclusões da nova pesquisa do Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC), intitulada “Conexões e fronteiras entre o Investimento Social Corporativo e os negócios”, lançada pela Comunitas. O estudo investiga como empresas, institutos e fundações empresariais vêm aproximando suas agendas sociais de temas ligados à reputação, mitigação de riscos, inovação e licença social para operar.

Ao mesmo tempo em que identifica potencial para ampliar impacto e articulação entre agendas sociais e empresariais, a pesquisa também faz alertas importantes sobre os limites dessa integração. Entre os principais pontos críticos apontados estão o risco de instrumentalização do investimento social; a pressão crescente por resultados alinhados aos interesses corporativos e os desafios de preservar o compromisso social e transformador do investimento social.

“Enfrentar causas estruturais exige soluções complexas e de longo prazo, cuja condução cabe, sobretudo, às políticas públicas — papel que as empresas não devem substituir. Ainda assim, elas podem contribuir de forma relevante por meio de parcerias com a sociedade civil, governos e atuação em rede com outras empresas”, afirma Patrícia Loyola, diretora de Gestão e Investimento Social da Comunitas.

A pesquisa mostra que iniciativas de investimento social seguem concentradas em áreas como educação, cultura e capacitação profissional, enquanto agendas relacionadas à desigualdade estrutural e redistribuição de renda aparecem de maneira menos frequente. Para Patrícia Loyola, no entanto, questões sociais passaram a ser percebidas pelas empresas também como fatores que impactam diretamente sua produtividade e sustentabilidade.

“Há um amplo espaço para que os negócios ampliem sua geração de valor público e privado ao colocarem sua expertise e capacidade de articulação de forma estratégica a serviço da sociedade”, diz.

A pesquisa identifica que o alinhamento entre ISC e estratégia empresarial já deixou de ser uma tendência emergente e se tornou um movimento consolidado no setor. Entre os benefícios mais reconhecidos pelas organizações aparecem fortalecimento da reputação institucional, melhoria no diálogo com stakeholders, aproximação com comunidades e fortalecimento da chamada “licença social para operar”.

Ao discutir essa aproximação, o estudo também levanta preocupações sobre a possibilidade de o investimento social ser “capturado” por interesses privados, e passe a operar como ferramenta reputacional, enfraquecendo sua missão pública.

Entre conexões estratégicas e compromisso público

Para Fabiana Prianti, head da B3 Social, o desafio está justamente em equilibrar planos estratégicos e compromisso social de longo prazo. “O alinhamento entre investimento social e estratégia de negócios é um avanço importante, porque amplia escala, perenidade e capacidade de transformação. O desafio é garantir que ele aconteça sem perder o foco no interesse público”, afirma.

Ela destaca que as organizações mais maduras são aquelas capazes de combinar governança forte, autonomia institucional e visão sistêmica. “Quando a atuação social está integrada à estratégia da organização, possui governança sólida, orçamento consistente, metas de longo prazo e conexão com necessidades reais da sociedade, ela deixa de ser percebida apenas como reputação e passa a gerar legitimidade”, completa.

As tensões relacionadas à continuidade das ações sociais também aparecem em outros levantamentos do campo. Segundo o Censo GIFE 2024-2025, 41% dos apoios destinados às organizações da sociedade civil (OSCs) tiveram duração de até um ano, enquanto apenas 14% ultrapassaram três anos. 

A pesquisa do BISC também aponta questões relacionadas ao tempo das transformações sociais. Enquanto empresas operam sob pressão por resultados de curto prazo, iniciativas sociais exigem continuidade e construção gradual de resultados.

Para Pedro Palma, CEO da Rumo, a construção de impacto social consistente depende de permanência nos territórios e articulação com políticas públicas. “Na nossa visão, o investimento social não pode ser uma via de mão única ditada apenas por demandas corporativas. Ele precisa ser moldado pelas necessidades reais das comunidades e pelas transformações do contexto econômico e social de cada localidade.”

Segundo ele, o fortalecimento de políticas públicas e a atuação territorializada são fundamentais para garantir legitimidade às iniciativas sociais empresariais. “Entendemos que a reputação e a imagem são consequências naturais de um trabalho bem feito, e não o objetivo primário”, diz.

Ao longo do estudo, a Comunitas também destaca a importância de mecanismos de governança capazes de preservar a autonomia dos institutos e fundações empresariais diante das mantenedoras. Outro ponto ressaltado é a necessidade de sistemas de avaliação que consigam conectar impacto social e retorno para os negócios sem que esse retorno se torne o único critério de decisão.


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