Exclusão de pessoas LGBTQIA+ no mercado trabalho revela desigualdades que começam antes do emprego

Por: GIFE| Notícias| 13/05/2026
pessoas trans na política

A presença de profissionais LGBTQIA+ faz parte do seu ambiente de trabalho? Se a resposta for não, não seria uma surpresa. Um relatório publicado na última semana pelo Banco Mundial estima em R$ 94,4 bilhões as perdas anuais sofridas pela economia brasileira em decorrência da exclusão dessa população do mercado de trabalho.

Para Harley Henriques, coordenador do Fundo Positivo, essa exclusão não é por acaso, mas resultado de uma trajetória de violações que começa muito antes da vida profissional. “Muitas pessoas LGBTQIA+ enfrentam expulsão de casa, evasão escolar, violência, falta de acesso à qualificação e discriminação nos processos seletivos. Quando chegam ao mercado de trabalho, já chegam em desvantagem.”

Uma pesquisa realizada pelo Fundo, em parceria com o Instituto Matizes, também ajuda a explicar o cenário. O levantamento mostrou que apenas uma em cada quatro pessoas LGBTQIA+ participantes de iniciativas de empregabilidade ou geração de renda conseguiu manter um emprego formal ou sustentar um empreendimento por mais de 12 meses. 

“Ou seja, não estamos falando apenas de falta de formação. Mas de um mercado que ainda não absorve essa população de forma justa e de uma desigualdade que continua mesmo quando existem projetos tentando enfrentar esse problema”, completa, e ressalta que os dados do Banco Mundial mostram que a LGBTfobia não é apenas uma questão moral, ela também tem um custo econômico para o país. “Quando o Brasil exclui pessoas LGBTQIA+ do trabalho, ele perde talentos, produtividade, renda, consumo e inovação.”

A avaliação sobre os impactos da exclusão no mercado de trabalho também precisa considerar as diferentes experiências que atravessam a própria população LGBTI+, conforme avalia Amalia Fischer, CEO do Fundo ELAS +. Para ela, fatores como gênero e outras dimensões da interseccionalidade influenciam diretamente o acesso a oportunidades, permanência no emprego e condições de trabalho. A especialista destaca ainda que preconceito, desinformação, ausência de políticas públicas e fragilidade das leis de proteção ajudam a sustentar esse cenário. “Tem muito a ver com desinformação, ignorância, preconceito, falta de políticas públicas e desumanidade”, pontua.

O ISP diante das desigualdades

No Investimento Social Privado (ISP), dados do Censo GIFE 2024-2025 mostram que a pauta LGBTQIA+ foi indicada por 25% das organizações, e que, dentro do campo de direitos humanos, a defesa e promoção da igualdade de gênero e dos direitos dessa população recebeu cerca de R$ 89 milhões em investimentos. Não há dados comparativos de anos anteriores, já que foi a primeira vez da categoria no Censo. 

Harley Henriques destaca que a presença desses números no Censo GIFE é importante por mostrar que a pauta LGBTQIA+ começa a aparecer de forma mais visível para o ISP. No entanto, alerta que ainda estamos muito longe do necessário. 

Para ele, o grande desafio é transformar a diversidade interna em investimento social externo. Ou seja, apoiar organizações, coletivos e lideranças que estão nos territórios, atendendo diretamente a população LGBTI+. “Hoje, quem mais sustenta essa agenda no campo do financiamento são os fundos independentes e algumas organizações comprometidas com direitos humanos. Mas o volume de recursos ainda é pequeno diante do tamanho das desigualdades”. Para fortalecer essa agenda, Harley acredita que o ISP precisa sair da lógica pontual e construir compromissos de longo prazo.

Na experiência do ELAS+, Beatriz Araújo, analista de Programas, destaca que o maior potencial de mudança está em um “empreendedorismo dissidente” e na economia solidária. 

“Quando o mercado formal fecha as portas, essas pessoas criam suas próprias saídas. Elas transformam arte, moda e gastronomia em estratégias de sobrevivência e de política”, explica. Um exemplo citado pela analista é a Capacitrans, do Rio de Janeiro, iniciativa em que, além de oferecer o curso técnico, a evasão é combatida com acolhimento: fornecem ajuda de custo, alimentação, e os instrutores são “seus próprios pares.” 

“É uma pessoa trans ensinando outra. Isso gera um espelhamento que nenhuma empresa tradicional consegue oferecer. Apoiar esses coletivos é criar uma rede de segurança. Não é só sobre o dinheiro do edital, é sobre reconstruir a confiança e a autonomia”, finaliza. 


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