“A cultura exige governança, continuidade e capacidade de adaptação”, afirma Fabricio Anias, da Fundação Osesp 

Por: GIFE| Notícias| 25/05/2026

Evento do GIFE, realizado na Estação Motiva, em São Paulo.

O setor cultural vive, desde o pós-pandemia, uma retomada dos investimentos no Brasil. De acordo com o Censo GIFE 2024-2025, a área de cultura e artes recebeu R$ 327 milhões em 2024. 

Segundo o gerente de Experiência do Patrocinador da Fundação Osesp, Fabricio Anias, os números mais recentes da Lei Rouanet revelam um crescimento expressivo do investimento empresarial em cultura. Para ele, o dado demonstra uma retomada “pujante” do setor, embora acompanhada por um aumento da concorrência entre os projetos culturais. 

Formado em Economia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Fabricio Anias construiu trajetória nas áreas comercial e de inteligência de mercado. Atualmente, atua no fortalecimento das relações institucionais e com patrocinadores da Fundação Osesp, instituição responsável pela manutenção da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), da Sala São Paulo, da Estação Motiva Cultural e de programas educacionais e de difusão cultural.

Em entrevista ao redeGIFE, ele analisa o cenário do investimento cultural no país, discute os desafios da descentralização dos recursos e reflete sobre o papel da cultura como investimento econômico e social.

Como você avalia hoje o cenário do Investimento Social Privado (ISP) e filantropia na área de cultura no Brasil?

Eu vejo como uma retomada pujante do setor. Os dados mais recentes do Ministério da Cultura mostram que, em 2024, tivemos R$ 3 bilhões investidos em cultura via Lei Rouanet. Em 2025, esse valor cresceu para R$ 3,4 bilhões, superando inclusive o teto previsto de renúncia fiscal. Isso significa um crescimento de 13% no investimento empresarial em projetos culturais.

Ao mesmo tempo, também houve aumento no número de projetos executados. Tivemos cerca de 22% mais proponentes realizando projetos culturais. Ou seja, existe mais investimento, e também mais concorrência entre as organizações culturais.

Os números do primeiro quadrimestre de 2026 mostram crescimento de 18% nos aportes empresariais. Então, apesar dos desafios, existe uma retomada bastante relevante do investimento cultural no país.

A Lei Rouanet segue como o principal mecanismo de fomento cultural do país, mas ainda enfrenta críticas relacionadas à concentração regional dos recursos e à dificuldade de acesso de pequenos produtores. Quais você considera os principais avanços e desafios do modelo atual?

A concentração ainda existe, principalmente na região Sudeste, mas já observamos crescimento importante em outras regiões, especialmente no Norte do país. O próprio governo federal tem incentivado a descentralização dos investimentos culturais.

Mas é importante lembrar que, para existir investimento, é preciso que existam projetos estruturados nessas regiões. Muitas vezes, os projetos acabam se concentrando no Sudeste porque é onde há maior número de proponentes e organizações culturais constituídas.

Vejo com bons olhos esse movimento de descentralização, porque a cultura precisa ser acessível a todos. Porém, é necessário fortalecer a capacidade de produção cultural em diferentes territórios do país. 

Um estudo recente da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que cada R$ 1 investido via Lei Rouanet movimenta R$ 7,59 na economia brasileira. Na sua observação, o empresariado já compreende a cultura também como investimento econômico e social?

As grandes empresas e multinacionais, em geral, já entendem bastante esse papel da cultura. Elas possuem áreas de ESG, governança e investimento social estruturadas e conseguem associar o incentivo cultural aos seus valores institucionais.

Mas ainda existe muito desconhecimento, principalmente entre pequenas e médias empresas. Muitas organizações sequer sabem que poderiam utilizar os mecanismos de incentivo fiscal previstos pela Lei Rouanet.

Existe um campo enorme para ampliar o entendimento sobre como a cultura pode gerar impacto econômico, social e também fortalecimento institucional para as empresas. As empresas buscam organizações sérias, com governança sólida e alinhamento de valores. Existe uma preocupação muito grande em entender com quem elas estão se associando.

Existe uma busca legítima por visibilidade e associação de marca. As empresas querem que o público saiba que elas apoiam a cultura, que investem em projetos relevantes para a sociedade. Hoje, a relação entre patrocinadores e instituições culturais envolve tanto propósito quanto posicionamento institucional. E isso tende a crescer nos próximos anos.

A Fundação Osesp desenvolve iniciativas educacionais como a Academia de Música, masterclasses e coros infantil e juvenil gratuitos. Qual a importância de conectar excelência artística com democratização do acesso à cultura?

Esses são pilares fundamentais da Fundação Osesp. Existe o compromisso com a excelência artística, mas também com educação, formação e democratização do acesso. A Academia de Música, por exemplo, profissionaliza jovens músicos e oferece uma vivência prática muito intensa. Muitos alunos acabam ingressando no mercado profissional e alguns hoje fazem parte da própria Osesp.

Também temos projetos como o Descubra a Orquestra, que leva cerca de 30 mil crianças da rede pública para concertos didáticos na Sala São Paulo. Antes disso, os professores passam meses em formação para trabalhar música dentro das escolas.

A cultura pode transformar vidas. A gente vê isso diariamente nos projetos educacionais e na formação de novos públicos.

Que aprendizados a experiência da Fundação Osesp pode oferecer para outras organizações que atuam com investimento social em cultura? 

Ao longo de mais de 20 anos, aprendemos muito com os acertos e também com os erros. A troca de experiências entre organizações culturais é essencial. A cultura exige governança, continuidade e capacidade de adaptação. O setor mudou muito nos últimos anos, e as instituições precisam acompanhar essas transformações.

A Fundação Osesp entende que presta um serviço público à sociedade. Nosso “acionista” é a população. Isso exige responsabilidade, qualidade e compromisso permanente com democratização do acesso e excelência artística.


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