Mulheres negras vivem com metade da renda dos homens brancos, aponta estudo do Fundo Agbara 

Por: GIFE| Notícias| 25/05/2026

Crédito: Istock

No Brasil, as mulheres negras vivem com metade da renda dos homens brancos, e seguem com os piores indicadores de emprego, educação e moradia. De acordo com o estudo recém divulgado pelo Fundo Agbara, em parceria com a Fundação Volkswagen e a ActionAid, a renda domiciliar per capita das mulheres negras em 2016 era de R$ 862,98, enquanto homens brancos registravam média de R$ 1.821,55. Em 2023, a disparidade permaneceu praticamente inalterada. Mulheres negras alcançaram renda média de R$ 1.402,18, enquanto homens brancos chegaram a R$ 2.844,21.

Junto com os números, o Agbara produziu o Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), lançado no I Fórum Econômico de Mulheres Negras. O IJER vai de 0 a 1, sendo 1 o maior nível de justiça econômica. O indicador variou de 0,53 em 2016 para 0,59 em 2023. Os homens brancos registraram os melhores resultados da série histórica, com índices entre 0,67 e 0,69, cerca de 18% acima da média nacional. Já as mulheres negras permaneceram, em média, 11% abaixo do índice nacional.

Priscila Soares, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Memória à Mulher Negra do Fundo Agbara, lembra que existe uma combinação histórica de desigualdades que faz com que mulheres negras estejam mais expostas à essa realidade expressa pelos dados. Ao mesmo tempo, na busca de sustentar suas famílias e fortalecer suas comunidades, são essas mulheres que também movimentam a economia do país, figurando como protagonistas do empreendedorismo nas periferias e da economia solidária no Brasil. 

“Elas não são apenas as mais afetadas pelas desigualdades, mas agentes centrais de transformação econômica e social”, afirma a pesquisadora, que pondera que a autonomia financeira das mulheres negras precisa ir além da inserção no mercado, garantindo condições para que possam viver com dignidade, segurança, tempo, direitos e possibilidade de futuro. “É importante colocar o cuidado no centro dessa discussão. Grande parte do trabalho que sustenta a sociedade é realizado por mulheres negras, muitas vezes de forma invisibilizada e sem proteção adequada. Falar de autonomia econômica passa necessariamente por discutir quem sustenta esse trabalho e em quais condições.”

O ISP pode mais 

Embora mulheres negras estejam à frente de iniciativas econômicas fundamentais para a sobrevivência de famílias e comunidades, muitas dessas experiências ainda operam em contextos de vulnerabilidade, baixa renda e pouca proteção institucional. Se falta um olhar responsável do poder público, no campo do Investimento Social Privado (ISP) também há muito o que se caminhar. 

O relatório “Onde está o dinheiro para os Movimentos das Feministas Negras”, elaborado pelo Black Feminist Fund em 2023, dá uma noção do tamanho dessa caminhada: apenas uma parcela que varia entre 0,1% e 0,35% das doações feitas por fundações ao redor do mundo é direcionada às mulheres negras, meninas e pessoas trans. 

No Brasil, o Censo GIFE 2024-2025 mostra que o combate ao racismo e à desigualdade racial e étnica aparece como área temática prioritária para 4% dos respondentes. Em paralelo, as áreas de inclusão produtiva, empreendedorismo e geração de renda e desenvolvimento local/territorial/comunitário dividiram a quarta posição (9% cada), sugerindo atenção tanto à promoção de alternativas de sustento e autonomia econômica quanto ao fortalecimento das dinâmicas comunitárias.

Para Priscila Soares, o ISP pode ter um papel fundamental no fortalecimento dessa autonomia, especialmente a partir de um apoio que não se limite a financiar projetos pontuais ou estimular o empreendedorismo individual, mas investir na construção de condições estruturais para a sustentabilidade dessas iniciativas e vidas. 

“Isso passa por ampliar formas de financiamento mais acessíveis, flexíveis e de longo prazo para organizações e negócios liderados por mulheres negras; fortalecer iniciativas de economia solidária; e reconhecer que o cuidado também é uma dimensão econômica central para a sustentabilidade da sociedade”, exemplifica. 

A pesquisadora também incentiva mudanças na própria lógica do financiamento, avançando para modelos mais participativos, baseados em confiança e escuta dos territórios. “Reconhecendo que essas mulheres já produzem soluções econômicas e sociais relevantes há muito tempo.”


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