Pertencimento impulsiona doações mais do que renda, aponta estudo sobre generosidade
Por: GIFE| Notícias| 15/06/2026
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O sentimento de pertencimento a uma comunidade é o fator mais fortemente associado à prática da doação no mundo. A conclusão é de uma nova edição do World Giving Report 2026, relatório da Charities Aid Foundation (CAF), que ouviu mais de 60 mil pessoas em 105 países e identificou que os países mais ricos do planeta não estão, necessariamente, entre os mais generosos.
Outro dado relevante revela que 60% das pessoas fizeram doações em dinheiro em 2025. Na América Latina, porém, esse percentual cai para 50%, tornando a região a menos doadora entre as analisadas. Além disso, o valor destinado a doações representa, em média, 0,7% da renda anual dos latino-americanos, abaixo da média global de 1%. Já a Europa registra o menor índice de doação proporcional à renda entre todas as regiões analisadas pelo estudo.
Produzido em parceria com mais de 30 organizações da sociedade civil de diferentes países, o World Giving Report busca compreender comportamentos, percepções e tendências relacionados à cultura de doação, além dos desafios enfrentados pelas organizações sociais. Publicado há mais de uma década, o relatório chega em um momento de crescente produção de conhecimento sobre filantropia e Investimento Social Privado (ISP).
Para Luísa Gerbase de Lima, gerente de Comunicação e Conhecimento do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, o estudo dialoga diretamente com pesquisas nacionais ao oferecer uma perspectiva comparada sobre motivações, barreiras, confiança, pertencimento e percepção de impacto.
“Quando o Brasil é analisado em relação a outros países, conseguimos compreender melhor quais características do comportamento do doador são específicas do nosso contexto e quais refletem tendências mais amplas da sociedade”, afirma.
Entre os pontos de convergência com a Pesquisa Doação Brasil, realizada pelo IDIS, está a identificação de um doador mais consciente e criterioso, atento à forma como os recursos são utilizados e à qualidade da relação estabelecida com as organizações.
“O doador quer compreender a causa, buscar informações, reconhecer a legitimidade da instituição e perceber com mais clareza o impacto gerado por sua contribuição. Isso indica um amadurecimento da cultura de doação”, explica Luísa.
O relatório também evidencia que as formas de doar variam significativamente entre diferentes territórios. Em nível global, a ajuda direta a pessoas em situação de necessidade é o destino mais comum das doações (41%), seguida pelas organizações da sociedade civil (38%) e pelas instituições religiosas (21%).
As diferenças entre os países, no entanto, são expressivas. Enquanto na Holanda, 79% dos doadores direcionam recursos para organizações sociais, na República Democrática do Congo esse percentual é de apenas 2%.
Para Luísa, esses contrastes reforçam que a generosidade não pode ser explicada apenas por fatores econômicos. Elementos históricos, culturais, religiosos, comunitários e institucionais influenciam profundamente as formas de doar e ajudam a compreender por que países ou regiões com diferentes níveis de renda apresentam comportamentos tão distintos.
“A comparação internacional ajuda a mostrar que culturas de doação mais fortes combinam vínculos comunitários, confiança nas instituições, canais acessíveis para doar e narrativas sociais que reconhecem a doação como parte da cidadania.”
Na avaliação da especialista, o principal aprendizado para o Brasil é valorizar a solidariedade de proximidade e fortalecer os elementos que contribuem para a confiança dos doadores. Entre os caminhos possíveis estão ampliar a transparência das organizações, aprimorar a comunicação sobre impacto e promover políticas públicas, incentivos e campanhas que estimulem a prática da doação.
“Institutos e fundações podem contribuir apoiando o fortalecimento institucional das OSCs, especialmente em áreas como governança, comunicação, avaliação, tecnologia e captação de recursos”, conclui.