Anuário reúne evidências e aponta desafios na produção de dados sobre a população negra

Por: GIFE| Notícias| 22/06/2026

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A ampliação da coleta de dados raciais no Brasil permitiu avanços importantes na compreensão das desigualdades que afetam a população negra. Ainda assim, a ausência de informações padronizadas e acessíveis continua sendo um obstáculo para a formulação de políticas públicas e de investimentos para o enfrentamento do racismo. A avaliação é do primeiro Anuário da População Negra no Brasil, lançado pela Alma Preta.

A publicação reúne pesquisadores de instituições como Afrocebrap, Conaq, Insper e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para analisar indicadores relacionados à saúde, educação, trabalho, segurança pública, representação política e condições de vida da população negra. Ao sistematizar dados públicos dispersos em diferentes bases governamentais, o anuário busca ampliar o acesso a informações raciais e fortalecer o debate público sobre desigualdades.

Os dados reunidos na publicação revelam disparidades persistentes. Entre os exemplos apresentados estão a baixa representação política de mulheres negras, que ocuparam apenas 7,46% dos cargos eletivos municipais em 2024, apesar de representarem cerca de 28% da população brasileira. Na área da saúde, as pessoas negras concentraram aproximadamente 60% dos casos de tuberculose registrados no país em 2023.

Para Camila Rodrigues, gerente de dados e investigação da Alma Preta, um dos principais achados da publicação é que a consolidação de informações raciais em registros administrativos é um processo relativamente recente no país.

“Os primeiros registros mais consistentes de raça e cor começam a aparecer apenas nos anos 1990, muito por pressão do movimento negro. O anuário mostra um cenário recente de avanços que hoje permitem realizar pesquisas e análises mais aprofundadas sobre desigualdades raciais”, afirma.

Segundo a pesquisadora, a própria história da produção de dados raciais evidencia o papel da sociedade civil na construção de políticas públicas mais qualificadas. O anuário recupera marcos históricos que mostram como movimentos negros pressionaram pela retomada do quesito raça-cor em levantamentos oficiais e contribuíram para iniciativas mais recentes, como o Censo Quilombola realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com a Conaq.

Além de apresentar diagnósticos, a publicação discute os limites dos dados atualmente disponíveis. Em áreas como educação e segurança pública, pesquisadores apontam dificuldades de acesso às informações e ausência de sistemas integrados capazes de produzir análises nacionais consistentes.

“A gente precisa que essas informações estejam acessíveis para quem quer construir argumentos de política pública, fazer advocacy ou discutir soluções para problemas sociais. Muitas vezes os dados existem, mas continuam difíceis de acessar ou utilizar”, explica Camila Rodrigues.

O papel do Investimento Social Privado (ISP)

A discussão também dialoga com movimentos observados no campo do ISP. Dados do Censo GIFE 2024-2025 mostram que 83% das organizações respondentes apoiam organizações da sociedade civil e que o repasse de recursos para OSCs alcançou R$ 1,3 bilhão em 2024, consolidando uma tendência de fortalecimento do setor.

Para Camila Rodrigues da Silva, esse tipo de apoio pode ser decisivo para fortalecer iniciativas voltadas à produção, sistematização e democratização de dados raciais.

“Se existe interesse em construir uma sociedade mais equitativa, é importante financiar projetos que ajudem a compreender essas desigualdades. Muitas dessas informações ainda circulam principalmente na academia e entre especialistas. Democratizar esse conhecimento é uma forma de fortalecer o debate público e a busca por soluções”, finaliza.


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