O Brasil nunca teve tanta gente empreendendo. Segundo o Monitor Global de Empreendedorismo (Global Entrepreneurship Monitor – GEM) 2024, realizado pelo Sebrae em parceria com a Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas, 33,4% da população está envolvida em algum tipo de empreendimento, o equivalente a aproximadamente 47 milhões de brasileiros.
Os números revelam a força do empreendedorismo no país, e também levantam uma questão importante: em que medida esse crescimento representa oportunidades reais de mobilidade social? Embora abrir um negócio possa significar autonomia e geração de renda, a trajetória de milhões de empreendedores ainda é marcada pela informalidade, pelo acesso limitado a crédito e por desigualdades históricas.
Mônica Anjos, estilista de moda, conhece de perto essa realidade, a partir dos desafios e satisfações que acessa pelo seu trabalho com a grife que carrega seu próprio nome.
“Empreender é uma forma de sobrevivência que a gente encontra em um país que durante tanto tempo fechou a porta para nós mulheres e sobretudo nós mulheres pretas. É um ato de sobrevivência, autonomia e ascensão, e impacta a vida das pessoas.”
Para ela, o maior desafio é encontrar políticas públicas que se adequem à realidade dessa parcela significativa da sociedade. “Quais são as políticas públicas? Quais as linhas de crédito? Não existe nenhuma para empresas de pequeno porte crescer. A gente vive com muitas dificuldades.”
Para milhões de brasileiros, o empreendedorismo surge como alternativa diante da falta de oportunidades formais de trabalho.
Mas essas oportunidades não chegam da mesma forma para todos. Mulheres negras e moradoras de territórios vulnerabilizados costumam enfrentar maiores dificuldades para acessar crédito, qualificação, redes de relacionamento e mercados consumidores, fatores que influenciam diretamente a sustentabilidade dos pequenos negócios.
A pesquisa Mulheres Empreendedoras e seus Negócios 2025, do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), evidencia as desigualdades. Entre as mulheres que tiveram pedidos de crédito negados, 30,5% afirmaram ter sofrido algum tipo de discriminação durante o processo. O levantamento aponta que mulheres negras possuem menor nível de formalização dos negócios e recorrem com mais frequência ao crédito como pessoa física. Quando conseguem acessar financiamento, os valores obtidos costumam ser menores do que os alcançados por mulheres brancas.
Estas desigualdades também se refletem quando o assunto é acesso a formalização. O estudo Todos Podem Empreender, da Aliança Empreendedora, mostra que microempreendedores com CNPJ ganham, em média, 9,5% a mais. E para cada 10 pontos percentuais de aumento na formalização, a atividade econômica estadual cresce cerca de 1 ponto percentual. Entre os 10,4 milhões de microempreendedores no CadÚnico, 70% ainda vivem em extrema pobreza, segundo a pesquisa.
Lina Maria Useche Kempf, co-fundadora da Aliança Empreendedora, argumenta que apenas a formalização não resolve o problema. “A formalização só acontece quando um microempreendedor está muito tranquilo, consciente e seguro de que aquele negócio vai dar certo. A formalização é a consequência de uma estruturação desse empreendimento.”
Essa realidade também é observada pelo Instituto Assaí em sua atuação junto a micro e pequenos empreendedores do setor de alimentação. Para Fábio Lavezo, gerente de Sustentabilidade e Investimento Social do Instituto, questões como gestão financeira, acesso ao crédito, precificação, controle de estoque e fidelização de clientes seguem entre os principais desafios para garantir a sustentabilidade dos pequenos negócios. No entanto, ele chama atenção para outro aspecto que costuma receber menos destaque.
“Muitos brasileiros empreendem por necessidade e não por oportunidade. Frequentemente encontramos pessoas extremamente talentosas na produção de alimentos, mas que não se reconhecem como empreendedoras. Essa insegurança limita investimentos e planejamento de longo prazo.”
Segundo Fábio Lavezo, fortalecer pequenos negócios passa não apenas pela transferência de conhecimento técnico, mas pelo fortalecimento da confiança, da autonomia e da capacidade dos empreendedores enxergarem novas possibilidades para seus negócios. Para o gerente, ampliar a inclusão produtiva exige uma combinação de estratégias.
“É importante ampliar o acesso à capacitação e ao apoio financeiro, fortalecer redes de relacionamento, ampliar referências positivas e criar oportunidades específicas para grupos historicamente sub-representados.”
Transformar uma iniciativa em uma trajetória consistente de geração de renda depende de fatores que vão muito além do esforço individual. Acesso à educação, infraestrutura, redes de apoio e políticas públicas são alguns dos elementos que determinam se um empreendimento conseguirá crescer e permanecer sustentável ao longo do tempo.
A Fundação Arymax parte do entendimento de que o empreendedorismo é uma importante estratégia de inclusão produtiva e mobilidade social, mas que seus resultados são profundamente influenciados pelas condições estruturais em que as pessoas vivem.
Natália Quadros, gerente da Fundação, lembra que a distinção entre empreendedorismo por necessidade e por oportunidade é fundamental para compreender os desafios da inclusão produtiva no país.
“Enquanto o empreendedorismo por oportunidade tende a surgir em contextos de maior acesso a recursos, redes e planejamento, o empreendedorismo por necessidade frequentemente está associado à informalidade, à baixa proteção social e a maiores dificuldades para crescer e gerar renda de forma sustentável.”
Perspectivas semelhantes orientam a atuação da Fundação Grupo Volkswagen, que trabalha a inclusão produtiva como parte de uma estratégia mais ampla de mobilidade social. Para Maria Ruanes Coelho, analista de Impacto Social da Fundação, o empreendedorismo pode ampliar oportunidades econômicas quando está articulado ao fortalecimento das capacidades locais e ao desenvolvimento dos territórios.
“Quando estruturadas de forma consistente, essas agendas vão além da qualificação pontual. Elas ajudam a reconhecer vocações territoriais, fortalecer redes comunitárias, apoiar pequenos negócios, preparar jovens e adultos para o mundo do trabalho e aproximar populações vulnerabilizadas de oportunidades formais e sustentáveis.”
Segundo ela, a inclusão produtiva deve ser compreendida não apenas como acesso ao mercado de trabalho ou geração imediata de renda, mas como um processo capaz de ampliar autonomia, fortalecer vínculos comunitários e criar perspectivas de futuro.
“Atuar com inclusão produtiva exige reconhecer que a desigualdade não é apenas uma questão de renda, mas de raça, gênero, território e acesso a oportunidades. Quando o investimento social considera essas camadas de desigualdade, ele se torna mais efetivo para gerar renda, ampliar autonomia e construir trajetórias de mobilidade social mais sustentáveis”, afirma Maria Ruanes.
Segundo o Censo GIFE 2024-2025, desenvolvimento comunitário e inclusão produtiva, empreendedorismo e geração de renda aparecem entre as agendas mais financiadas e apoiadas pelas organizações respondentes, citadas por 49%.
Lina Maria Useche Kempf pondera que, embora os números apresentados pelo Censo GIFE sejam muito positivos, é importante saber onde aplicar todo esse investimento.
“A gente tem uma população de mais de 20 milhões de microempreendedores informais que estão lutando todos os dias, muitas vezes eles vão encontrar algum apoio em ONGs locais, mas tem pouquíssimo recurso chegando de forma adequada”, comenta.
A especialista observa que existe uma oportunidade gigantesca de gerar desenvolvimento socioeconômico investindo nesse público em diálogo com as políticas municipais e federais. Porém, para isso funcionar, é preciso compreender as nuances do racismo e as questões de gênero. “Se esses programas de desenvolvimento socioeconômico não forem intencionais trabalhando essas questões, vai ter muito investimento e pouco resultado.”
Ela explica a importância de atuar com uma metodologia que valorize os saberes locais, e a história de vida das pessoas. “As pessoas só vão correr atrás de capacitação se elas acreditarem que têm condições de aprender. Esse é um erro clássico de um monte de iniciativas que investem com a melhor das intenções.”
Para Maria Ruanes, um dos principais desafios é evitar que iniciativas de inclusão produtiva se limitem a ações pontuais de capacitação. “Para gerar desenvolvimento comunitário duradouro, é fundamental combinar formação com acompanhamento contínuo, articulação com o setor produtivo, fortalecimento de redes locais e criação de caminhos reais para geração de renda.”
Lina Maria Useche Kempf reforça que para os atores do ISP que se dispuserem a atuar nessa agenda, é preciso lembrar de que está trabalhando com uma população que sistematicamente foi levada a acreditar que o trabalho das suas mãos não tem valor, e que não podem sonhar. “Aquela pessoa precisa ser resgatada na sua autoestima. A gente só forma o preço quando entende que o produto do meu trabalho tem valor. Sem isso, qualquer fórmula de formação de preço vai cair por terra”, finaliza.
Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO
Geovana Miranda
ANALISTA DE COMUNICAÇÃO
Jazz Andrade
ESTAGIÁRIA DE COMUNICAÇÃO
Afirmativa
REPORTAGEM/TEXTO
Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO