A importância de avaliar e acompanhar projetos de leitura

Em meio a declarações polêmicas do Ministério da Economia acerca de projeto de lei de reforma tributária do governo federal que prevê a taxação de livros, o Instituto Pró-Livro, em parceria com Itaú Cultural e Ibope Inteligência, acaba de divulgar os resultados da 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.  

Um dado alarmante do levantamento é a diminuição de 56% para 52% no número de leitores no Brasil. É considerada leitora a pessoa que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos três meses anteriores. De forma geral, mulheres leem mais do que homens (54% contra 50%) e os leitores estão mais concentrados na faixa etária de 11 a 13 anos e de 14 a 17. O único intervalo de idades que apresentou crescimento no número de leitores na comparação com o índice de 2015 – ano da última edição da pesquisa – foi entre cinco e dez anos, que cresceu de 67% para 71%. 

Apesar de a classe A contar com maior porcentagem de leitores (67% ou 3,9 milhões de pessoas), a classe C, por representar grande fatia da população brasileira, conta com números absolutos maiores: são estimados 48,9 milhões de leitores (53%). Se o perfil dos leitores for comparado de acordo com os gêneros lidos, a classe C também sai na frente: são 49% os leitores de literatura contra 28% na classe B, 19% na D/E e 4% na A. O levantamento também apontou que, conforme avança a escolaridade, diminui o número de pessoas que leem por gosto: 37% no Ensino Fundamental 1 contra 26% no Ensino Fundamental 2. 

Outras pesquisas, como O Brasil que lê: bibliotecas comunitárias e resistência cultural na formação de leitores, desenvolvida pelo Centro de Cultura Luiz Freire e pela Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC), analisam que existe uma relação entre maior acesso e permanência no sistema educacional e leitura. De acordo com o levantamento, nas 45 cidades onde as 143 bibliotecas pesquisadas estão localizadas, a média da população com 25 anos ou mais que tem Ensino Superior completo é de 10,9%, enquanto entre os mediadores, o número passa a 42,1%, demonstrando maior acesso e permanência no sistema educacional entre leitores.

Nesse sentido, é importante refletir sobre qual papel a educação desempenha na formação de pessoas leitoras. Para isso, são necessários processos avaliativos de projetos de leitura desenvolvidos nos mais diversos âmbitos, desde escolas até bibliotecas comunitárias. 

Por que avaliar projetos educacionais e de leitura 

Uma das mais antigas e articuladas Redes Temáticas do GIFE, a LEQT, sigla de Leitura e Escrita de Qualidade para Todos, desenvolveu, além da proposta de atuar enquanto rede em um território brasileiro, a ideia de criar um conjunto de indicadores para ser utilizado como parâmetro avaliativo ou de monitoramento em projetos do campo da leitura realizados em escolas, bibliotecas públicas e privadas e em outras ações comunitárias.

Intitulado Indicadores LEQT – Qualidade em Projetos de Leitura, o documento apresenta um cruzamento dos indicadores entre cinco dimensões – política, estrutura, formação de profissionais/mediadores de leitura, práticas de promoção da leitura e mudanças – e três esferas – escolar, bibliotecas públicas e bibliotecas e ações comunitárias. Além de nomear os indicadores e suas respectivas descrições, a pesquisa também apresenta as formas de cálculo para que cada realidade possa avaliar seus projetos e ações de leitura. 

Fernanda Cury, consultora que apoiou a LEQT no processo de construção das diretrizes, explica que os indicadores da RT foram criados com o objetivo de fornecer um instrumento de monitoramento e avaliação para projetos de promoção de leitura e, com isso, facilitar a análise dessas práticas. 

Segundo a consultora, os processos de monitoramento e avaliação são importantes não só no contexto de atividades, iniciativas e práticas de leitura. “Quando bem realizados, eles ajudarão a verificar se o projeto está ou não atingindo os objetivos propostos, orientando, inclusive, os rumos que podem ser tomados para atingir tais objetivos, auxiliando a fazer melhorias, a rever ações e até os próprios objetivos, se for o caso. Além disso, todas as etapas da avaliação geram aprendizados sobre o objeto estudado e a causa para a qual é voltado.”

Os projetos de leitura podem acontecer tanto em escolas como em bibliotecas públicas e comunitárias. Entretanto, com a pandemia de Covid-19 e medidas como suspensão das aulas presenciais e distanciamento social para frear a disseminação do vírus, é possível afirmar que, no caso dos projetos que não foram interrompidos, houve uma mudança de lógica e até mesmo de evolução das práticas. Nesse sentido, torna-se ainda mais importante a realização de processos que possam corrigir eventuais falhas de projetos de leitura e deixar claro os resultados das ações. 

Disseminar, avaliar, aprimorar 

O processo de elaboração dos indicadores foi longo e demandou inúmeras conversas, debates e encontros para a criação de diretrizes capazes de apoiar as mais diversas instituições que realizam projetos de leitura. Agora, com a ferramenta pronta, o esforço da LEQT volta-se a sua divulgação, de forma a incentivar que cada vez mais pessoas utilizem os indicadores. 

Por acreditar que avaliar significa rever caminhos para otimizar recursos, avançar e melhorar e valorizar uma cultura de avaliação positiva e não punitiva, que pode contribuir para aumentar a qualidade das ações do terceiro setor, o Instituto Pró-Livro firmou, recentemente, uma parceria para disponibilizar os Indicadores LEQT em sua plataforma. 

Em entrevista à plataforma IPL, Ana Lima, membro da coordenação da LEQT, comenta que, ao mesmo tempo em que a diversidade de atores que compõem a rede inspirou a criação dos indicadores para avaliar projetos de leitura, foi um desafio abarcar todas as diferentes realidades e dimensões das ações por eles desenvolvidas. “Os indicadores tinham que ser capazes de funcionar para um pequeno projeto e, ao mesmo tempo, para um projeto que é apoiado por uma grande organização e que tem recursos financeiros importantes, que faz doação de livro para crianças, por exemplo”.

É por isso que, a partir do documento completo, as diretrizes podem ser lidas, estudadas e customizadas a depender do contexto, objetivo, dimensão e meta de cada iniciativa de leitura desenvolvida. 

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