Avanço conservador desafia compromisso de empresas com agenda LGBTQIA+
Por: GIFE| Notícias| 29/06/2026
Parada do Orgulho LGBTIA+, em São Paulo (SP). Istock
Em 2025, o mundo assistiu ao fortalecimento de discursos e pressões conservadoras nos campos político e empresarial, acompanhado por uma onda global de grandes corporações encerrando seus programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). Ao mesmo tempo, iniciativas voltadas à população LGBTQIAPN+ passaram a relatar maior dificuldade para captar recursos.
Esse movimento ocorreu em um contexto marcado pela assinatura, pelo governo dos Estados Unidos, de uma ordem executiva que extinguiu programas de DEI em agências federais. A administração norte-americana também promoveu alterações em sites do governo, removendo dos arquivos públicos expressões como gay, lésbica, bissexual, LGBTQ, HIV, orientação sexual e transgênero. No Brasil, a redução de patrocínios à Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, considerada a maior do mundo, reacendeu o debate sobre o compromisso das empresas com a diversidade.
Para Vini Michelucci, sócia da Travessia Inclusão, consultoria especializada em DEI, esse cenário de retração não representa exatamente uma novidade, mas um tensionamento que evidencia a diferença entre compromissos estruturais e compromissos circunstanciais.
“O que o cenário geopolítico está fazendo, na verdade, é expor uma fragilidade que já existia em algumas organizações”, afirma a especialista. Segundo ela, boa parte do apoio empresarial às pautas relacionadas à comunidade LGBTQIAPN+, especialmente nas últimas duas décadas, foi construída mais sobre aspectos reputacionais do que institucionais, vinculando-se à marca, à imagem e aos produtos ou serviços das empresas. “Quando o vento político muda, esse é o primeiro apoio a recuar, justamente porque nunca esteve, de fato, enraizado na estrutura das empresas.”
Segundo Michelucci, um compromisso institucional consistente se caracteriza pela incorporação da equidade, da inclusão e do pertencimento à estrutura da organização, e não apenas à sua comunicação.
Entre os principais indicadores estão a continuidade das ações ao longo de todo o ano — e não apenas durante o Mês do Orgulho —; a existência de políticas internas de não discriminação, benefícios e licenças que contemplem a pluralidade das configurações familiares e as necessidades de pessoas trans, travestis e não binárias; a presença de pessoas LGBTQIAPN+ em cargos de liderança; a coerência entre discurso e prática, evitando o apoio simultâneo a iniciativas contrárias a esses direitos; e a transparência na definição de metas e na prestação de contas.
“Quando falta isso, sobra campanha e posts em mídias sociais. É o pink washing. Comunicação não é o problema; o problema é quando ela substitui o compromisso real, em vez de traduzir um compromisso que de fato existe.”
O papel do investimento social diante da retração
A avaliação de Vini Michelucci dialoga com o Manifesto Empresas em Defesa da Diversidade e da Inclusão. Intitulado “Um compromisso inabalável com o futuro”, o documento foi publicado em janeiro de 2025 por movimentos empresariais que reúnem quase 500 grandes empresas comprometidas com a promoção da DEI, entre elas o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, a Rede Empresarial de Inclusão Social (REIS) e a Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial.
Exclusão de pessoas LGBTQIA+ no mercado trabalho revela desigualdades que começam antes do emprego”Os compromissos que articulam as empresas signatárias ou associadas estão baseados no respeito e na promoção dos direitos humanos, nas leis, normas nacionais e/ou internacionais, nos acordos e nas convenções que definem valores inegociáveis, orientando o caminho a seguir e a maneira criativa de lidar com desafios do mundo atual. Acreditamos que, para se tornar o país com que sonhamos, o Brasil depende do talento e do potencial de toda a sua população“, afirma o manifesto.
Apesar de iniciativas como essa, dados do Censo GIFE mostram que 4% das organizações respondentes possuem políticas estruturadas voltadas à promoção da diversidade LGBTQIAPN+ em seus conselhos deliberativos, enquanto mais de 85% afirmam não contar com políticas de inclusão estruturadas para diferentes marcadores sociais.
Para Michelucci, esses números revelam uma governança ainda incipiente, mas também apontam uma oportunidade para que o Investimento Social Privado (ISP) exerça seu papel como capital paciente. Entre as estratégias possíveis estão o fortalecimento do apoio institucional, a oferta de recursos plurianuais que garantam infraestrutura e equipes às organizações que atuam na defesa dos direitos da comunidade e a adoção de modelos de filantropia baseada em confiança, capazes de reduzir a burocracia.
“O patrocínio empresarial costuma pensar no retorno de marca, em um ciclo mais curto. Fundações e institutos tendem a apoiar agendas que levarão anos para amadurecer. Então, aqui, o primeiro papel é ser contracíclico. Quando o recurso empresarial recua, é o momento de o ISP avançar, e não de acompanhar a retração”, conclui.