Cartilha aponta boas práticas para enfrentamento ao racismo institucional nas organizações da sociedade civil

Uma realização da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG) em parceria com a Ação Educativa, a Cartilha de Combate ao Racismo Institucional faz parte da campanha Somos Todas Antirracistas e traz um passo a passo para que as organizações enfrentem o racismo institucional.

A apresentação do documento cita frase de Cida Bento, ativista, psicóloga e diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT): “As organizações são um campo fecundo para a reprodução das desigualdades raciais. E isto ocorre marcado pelo silêncio e neutralidade. As instituições apregoam que “todos são iguais perante a lei”; e asseguram que todos têm a mesma oportunidade, basta que a competência esteja garantida. As desigualdades raciais persistentes evidenciam que alguns são menos iguais que outros. Mas sobre isso há um silêncio”.

As organizações da sociedade civil (OSCs) associadas à Abong e as parceiras da Ação Educativa atuam em diversas causas, porém todas trabalham com um tema em comum: direitos humanos.

“Nós começamos a pensar como poderíamos produzir insumos para fortalecer a atuação dessas organizações do ponto de vista político. Além da cartilha, desenvolvemos uma pesquisa que analisou o campo das organizações”, detalha Juliane Cintra, coordenadora institucional da Ação Educativa, representante da diretoria regional da Abong em São Paulo e integrante do grupo de trabalho antirracista envolvido na publicação.

A partir desse diagnóstico, foram surgindo caminhos possíveis para a construção de um ambiente seguro para profissionais negros e negras e o mapeamento das ações práticas sugeridas no material.

Início do projeto

A Ação Educativa atua na defesa de direitos humanos desde 1993 e, a partir de 2017, se posicionou publicamente como uma organização antirracista, dando início a ações conjuntas com organizações e coletivos do movimento negro, reforçando sua intenção de promover a equidade racial em todos os níveis e contextos a partir do enfrentamento ao racismo institucional.

Durante a primeira oficina do processo que resultou na Cartilha, o grupo de trabalho envolvido na iniciativa realizou um mapeamento do lugar das pessoas negras nas organizações, a partir do qual desenvolveu protocolos e recomendações para o enfrentamento ao racismo.

“Grada Kilomba propõe o caminho da responsabilização, que passa pelo reconhecimento para a reparação. Então, você reconhece a existência do racismo e constrói os caminhos necessários para, de fato, reparar. Foi a partir dessas reflexões ao longo de anos de experiências, muitas vezes, de profissionais negros e negras na instituição, que construímos essas ideias”, observa Juliane.

O grupo abriu um processo de diálogo com coordenadores e criou um plano de trabalho que prevê formalizar no manual de governança da organização critérios de contratação e também de desligamento de colaboradores negros e negras. Em breve, esses aprendizados serão compartilhados por meio da página da Abong no LinkedIn.

Atuação do ISP e próximos passos

Para a coordenadora, o investimento social privado pode fortalecer boas práticas para combater o racismo institucional e incentivar esta pauta como central em sua agenda, tendo em vista o fortalecimento do campo das organizações de defesa de direitos humanos e da democracia e o enfrentamento às desigualdades.

“Um exemplo seria promover ações afirmativas, como contratação de mais profissionais negros, além de revisão da carreira e mobilidade profissional dessas pessoas dentro das organizações do setor”, observa. 

Em julho de 2020, a campanha Julho das Pretas, do projeto Somos Todas Antirracistas, promoveu a valorização das mulheres negras que trabalham nas organizações de defesa dos direitos humanos. Juliane defende a construção de novas ações como essa para sensibilizar o campo a olhar para o enfrentamento ao racismo institucional como central para suas ações políticas.

“Diversidade é muito importante para construir ambientes de inovações e pensar novas soluções para problemas sociais. Compreender o debate em torno do enfrentamento ao racismo promove a superação para aprimorarmos ainda mais a nossa capacidade de construir novos projetos políticos”, defende a coordenadora.

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