Censo GIFE 2020 registra mobilização de 5,3 bilhões pelo ISP

O último mês de 2021 começou com o lançamento da décima edição do Censo GIFE 2020, considerada uma das principais pesquisas sobre o setor do investimento social privado (ISP) no Brasil. Produzida a cada dois anos desde 2001, a análise, quantitativa, autodeclaratória e voluntária, apresenta um panorama sobre recursos, estrutura, formas de atuação e estratégias das empresas, institutos e fundações empresariais, familiares e independentes que destinam recursos privados para projetos de finalidade pública.

A partir dos dados das instituições associadas ao GIFE, o Censo tem o intuito de contribuir com o planejamento, estruturação e qualificação da atuação dos investidores sociais. Nesta edição, 131 organizações responderam à pesquisa, o que representa 81% da base de associados (na época de coleta dos dados). Essa porcentagem mantém o patamar das edições anteriores. 

Durante o lançamento da pesquisa, o ex-secretário-geral do GIFE, José Marcelo Zacchi, falou sobre o marco das  10 edições do Censo. “Para nós, o Censo é produzido para conectar e aprofundar análises estratégicas ao pensarmos o setor como um todo. Agora ele deve ganhar o mundo e ser analisado por diferentes olhares.”

Mobilização inédita e efeito pandêmico

Nesta edição, o volume total de investimento das organizações respondentes salta aos olhos em relação ao levantamento anterior: foram R$ 5,3 bilhões, o que representa 63% mais do que o previsto para 2020, que era de R$ 3,3 bilhões.

Na pesquisa de 2018, o montante foi de R$ 3,25 bilhões. Para Gustavo Bernardino, gerente de programas do GIFE, a elevação se deve, em grande parte, à pandemia de Covid-19, que assola o mundo há quase dois anos.

“É um salto que diz muito sobre a tenacidade do investimento social privado e o senso de solidariedade dos institutos, fundações e empresas em se engajarem para atenuar os efeitos negativos da Covid”, analisa.

Do montante total, o Censo analisou o quanto foi concretamente  mobilizado para enfrentamento à pandemia –  basicamente, a diferença entre o valor de 2018 e o do ano passado: R$ 2.2 bilhões.

De acordo com as organizações ouvidas pelo estudo, a percepção de que as alterações no ambiente de atuação do ISP sofreram influência da crise causada pela Covid-19 foi mais frequente em relação ao espaço e representação na mídia (50%), parcerias e redes (50%), disponibilidade de plataformas/ambientes digitais para captação de recursos, disseminação da atuação e/ou incidência (47%) e sustentabilidade financeira e acesso a recursos (47%).

Graziela Santiago, gerente de projetos da ponteAponte e coordenadora técnica do estudo, aponta que os números mostram, acima de tudo, o quanto o setor se mobilizou em relação à pandemia. “Há ainda um longo caminho a ser percorrido no trabalho em gênero e raça, mas é com alegria que a gente também vê o crescimento nesses campos de investimento.”

Áreas prioritárias se movimentam

Também no contexto da pandemia, a atuação do ISP entre as áreas se modificou. É o caso de proteção, assistência e desenvolvimento social (incluindo o combate à pobreza e à fome), que teve aumento de 34% em comparação com 2018 e chegou ao patamar da área de educação em termos de respondentes que atuam na temática (75%). 

Gustavo destaca que,  em todos os Censos GIFE, a educação sempre predominou como a principal mobilizadora dos atores sociais. “É o ISP entendendo o cenário e atuando conforme a urgência é requerida.” 

Após a pandemia, contudo, esse cenário deve sofrer novas mudanças. Segundo o estudo, 18% dos respondentes que atuaram em proteção social consideram que isso ocorreu em um contexto emergencial e que as ações devem ser suspensas após a pandemia. 

“Pela primeira vez…”

O que mais tem se ouvido nesta edição do Censo é a expressão  “pela primeira vez”. Isso diz respeito não só ao montante total mobilizado, mas também  ao portfólio de doações, uma estratégia adotada por um quinto (21%) dos investidores sociais. Além disso, 51% dos portfólios de doações realizam repasses a terceiros (grantmaking) com valor de até R$ 500 mil. 

Ao analisar para onde os associados GIFE direcionaram seus trabalhos em 2020, o mais alto percentual de recursos da série histórica do Censo GIFE foi de apoio a terceiros, ou seja, foram alocados mais recursos para outras iniciativas e organizações do que para projetos próprios. 

 

“Pela primeira vez, o Censo mostra um maior volume de doação do que de execução de projetos. Vimos uma inversão do ISP brasileiro, que tem a tradição de executar mais projetos próprios do que destinar recursos a terceiros. Esses terceiros podem ser organizações da sociedade civil (OSCs), universidades, negócios de impacto e outros”, explica Gustavo. 

Ao olhar para a distribuição financeira, observa-se que cerca da metade (49%) dos investidores sociais repassa até 30% de seus recursos a terceiros, enquanto aproximadamente um quarto é mais financiador, destinando mais de 70% a terceiros. O caso de institutos, fundações e fundos filantrópicos independentes é outro exemplo, já que é o único tipo de investidor com maior número de organizações mais financiadoras do que executoras (43% delas, enquanto as mais executoras somam 37%).

Públicos prioritários

Faixas etárias específicas, tipo de organização e características como pessoas em situação de vulnerabilidade são os públicos mais citados pelas organizações como foco de suas iniciativas. Ainda que tenham ampliado sua presença em relação a anos anteriores, iniciativas com foco em recortes por raça, origem e comunidades tradicionais têm espaço para crescer entre investidores sociais.

Dentre os públicos analisados na categoria raça, origem e comunidades tradicionais, pessoas negras formam o grupo no qual mais investidores sociais focaram em suas iniciativas, sendo prioritário para 3% dos respondentes. 

A publicação aponta que a promoção da diversidade e equidade ainda é objeto direto de poucas iniciativas. Dos 1.015 projetos levantadas, a maior parte não tem relação, direta ou transversal, com os temas de diversidade e equidade mapeados (entre 55% e 65%): racial, mulheres, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. Como afirma Graziela, “há um longo caminho a ser percorrido.”

Perspectivas para o futuro

De acordo com análise do Censo, em 2021, ainda que o investimento previsto não sofra redução aos patamares verificados nas últimas edições, tampouco tende a se manter no patamar de 2020.

Para os próximos anos (2022 e 2023), metade das organizações afirmam que pretendem manter seus investimentos na mesma base prevista para 2021 – em especial no caso de institutos, fundações e fundos filantrópicos familiares e independentes (62% e 58%, respectivamente). 

A expectativa de aumento dos valores aportados é apontada por 28% das organizações. A redução de valores em relação ao previsto para 2021, segundo os respondentes, ocorrerá em apenas 10% das organizações, em especial entre empresas (20%), enquanto apenas uma pequena parcela (4%) de organizações familiares pretende reduzir os investimentos.

Acesse a publicação na íntegra

Os dados do Censo GIFE 2020 também estão disponíveis no Mosaico, o portal de dados do investimento social. Acesse o site para gerar tabelas e gráficos da pesquisa e conhecer a Base de Projetos, que disponibiliza informações sobre iniciativas e programas dos investidores sociais.

Foto destaque: Ricardo Lisboa.

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