Coca-Cola desenvolve programa de formação de jovens para o mercado de trabalho

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 36 milhões de jovens entre 15 e 25 anos no Brasil, 24 milhões são considerados de baixa renda, divididos nas classes B2, C, D e E. Como forma de incentivar o desenvolvimento de jovens em situação de vulnerabilidade social, a Coca Cola Brasil lançou o programa Coletivo Jovem.

Para entender a origem do Coletivo é preciso dar um passo atrás. Daniela Redondo, diretora executiva do Instituto Coca-Cola Brasil (ICCB), explica que como em 2008 o Brasil vivia um período de ascendência econômica, uma diretora da Coca-Cola, juntamente com um time multidisciplinar, buscou entender como a empresa poderia se tornar relevante para essa fatia da população que ascenderia à classe média.

“Nessa época, começaram inúmeras pesquisas, consultas com antropólogos, sociólogos e vivências em comunidades de baixa renda. Quanto mais a gente mergulhava, mais entendíamos que não bastava fazer lançamentos ou campanhas diferenciadas para esse público. Na época, visão de futuro para essa população era uma carteira de trabalho assinada e um diploma da faculdade.”

O programa nasceu com o objetivo de fazer uma ação significativa para a população. A diretora ressalta que ele se diferencia de outros cursos de formação da época em que foi lançado (2009) por oferecer não só a capacitação e o conhecimento, mas fazer a ponte com o mercado de trabalho.

“Nós queríamos muito ser grandes e escalar, mas também queríamos ser efetivos no impacto e ter relevância de fato e não só ter uma quantidade de jovens numa sala de aula, oferecer duas horas de workshop e pronto. Então chegamos a um modelo de formação que entregaria qualidade suficiente para que os empregadores, como nós mesmos da Coca e toda nossa cadeia de valor, pudessem contratar esse jovem. Com isso, faríamos essa ponte entre jovens e empregadores, o que aumentaria exponencialmente a capacidade de conexão.”

Todos esses processos de tomada de decisão se deram na Coca-Cola. Entretanto, Daniela explica que a equipe viu no Instituto Coca-Cola Brasil, que contava com duas pessoas na época, um potencial para desenvolver inteligência e tecnologia social. Por isso, os dois funcionários do ICCB do começo de 2010 viraram 48 em um ano e meio. “Nós investimos muito para construir toda essa expertise e know how social junto com nossos parceiros. Todos os processos foram cocriados. Para se ter uma ideia, em determinado momento chegamos a ter quinhentos parceiros atuando ao mesmo tempo. Foi muito novo para todo mundo”, ressalta.

O programa

O Coletivo Jovem é um programa pensado para oferecer oportunidades reais de capacitação para jovens de 16 a 25 anos em situação de vulnerabilidade social. A ideia é que, com as formações oferecidas, esse público possa desenvolver um projeto de vida, melhorar a autoestima e ter chances reais de emprego e renda.

Desde o lançamento, a tecnologia social desenvolvida pelo ICCB foi aprimorada edição após edição. Hoje, ela é baseada em quatro pilares e três alicerces que, em linhas gerais, incorporam a cocriação com as comunidades, considerando seus saberes e conhecimentos; uma metodologia educacional que envolve educação teórica, prática e lúdica; a operação social que permite escala e customização para diferentes locais; parcerias horizontais com atores com interesses comuns para somar competências; e presença física nas comunidades para as capacitações.

Daniela comenta que um dos insights que a equipe teve ao montar o projeto foi não oferecer as formações em um prédio distante da realidade do jovem. “Nós buscamos meios de entrar na comunidade, entender as questões daquele local e realizar o treinamento na própria comunidade, compreendendo que há questões regionais a serem respeitadas.”

Como o programa pode acontecer em qualquer parte urbana do país, a forma de viabilização encontrada foram parcerias com organizações da sociedade civil locais, empresas, fundações e institutos que tenham ou se identifiquem com os objetivos do programa. “Como um prédio ou uma casa não teriam legitimidade, buscamos identificar ONGs com relevância e vocação presentes no território para entender sua realidade e os anseios da população.”

Hoje, o Coletivo Jovem tem 82 unidades operando pelo país compostos por 62% de jovens com mais de 18 anos, 50% que não terminaram o Ensino Médio, 59% de mulheres e 65% de pretos ou pardos. Até o final de 2017, o programa impactou 200 mil jovens em 125 comunidades brasileiras, sendo oito mil jovens na região Norte e 67 mil na região Nordeste.

Etapas

Para alcançar todos esses objetivos, o programa foi estruturado em cinco etapas. A  primeira consiste em uma ação de mobilização para atrair a inscrição dos jovens. Em seguida vem a formação técnica e pedagógica de educadores e outros agentes da própria comunidade, uma vez que, segundo Daniela, um diálogo horizontal é fundamental para o aprendizado dos jovens e a cocriação do conhecimento.“Escolhemos um caminho mais complexo, mas que gera mais valor: identificar a ONG e os jovens daquela comunidade com potencial para serem educadores. Fazemos uma formação bem aprofundada e acompanhamos esse educador na sala. Hoje, a maior parte desses educadores são ex-alunos do Coletivo.”

As formações

O curso em si é a terceira etapa. Para participar, não é preciso estar matriculado na escola. “Aprendemos ao longo dos anos que eram muitos os jovens chamados de ‘nem nem’, que não estudam e nem trabalham. Por isso, pensamos a metodologia para incentivar que eles voltassem a estudar.”

A turma participa de dois encontros presenciais por semana de duas horas cada. São 16, totalizando uma carga horária de 32 horas. As atividades e experiências no coletivo são baseadas em três áreas: marketing e vendas, comunicação e produção de eventos. A escolha pelo marketing foi natural considerando a expertise da Coca-Cola, enquanto as outras áreas foram definidas ao longo da evolução do programa.

Os encontros contam com aulas teóricas e expositivas, mas a estratégia do curso se volta mais à parte prática, onde o aluno aprende com a ‘mão na massa’, desenvolvendo projetos. “Na parte de marketing e vendas, com o que eles aprenderam sobre preço e posição de produto, podem fazer um plano de negócio simples para uma farmácia ou pet shop, por exemplo. Na parte de eventos podem organizar a própria formatura, um baile funk, uma arrecadação ou um desfile de moda, que eles amam.”

Além disso, a aposta também é grande na orientação da criação de um plano de vida, com uma projeção dos sonhos do jovem e o caminho que ele pode fazer nos próximos três anos para atingir seus objetivos. “Antigamente, 90% do curso era treinamento para varejo. Mas descobrimos que o mais importante eram as competências socioemocionais. Então decidimos fazer um mergulho profundo de revisão da metodologia educacional para descobrir como preparar esses jovens para o futuro, independente do conteúdo técnico, porque sabíamos que isso era uma questão do contexto daquele momento. Depois dessa revisão, hoje o conteúdo é 80% socioemocional e 20% voltado às competências técnicas”, explica Daniela.

Inserção no mercado de trabalho

Depois do curso, as equipes do ICCB e dos parceiros se mobilizam para promover a empregabilidade dos jovens, mostrando oportunidade de vagas e acompanhando o desempenho dos alunos nos processos seletivos. O monitoramento, que corresponde à quarta etapa, acontece na verdade de forma transversal durante todo o processo, com avaliação dos objetivos atingidos e pontos a melhorar. Todo esse ciclo acontece quatro vezes ao ano.

As vagas são disponibilizadas em uma aba especialmente destinada ao Coletivo dentro do site vagas.com. Além disso, os educadores também replicam as oportunidades em páginas do Facebook de suas comunidades.

Segundo Daniela, trata-se de um trabalho em duas frentes. Por um lado, é preciso que os jovens entendam que esse emprego será somente uma porta de entrada para o mercado de trabalho e, a partir daí, poderão construir sua história de vida. Segundo ela, o fato de um jovem conseguir seu primeiro emprego formal tem um grande impacto na família, que pode ter sua renda dobrada.

Por outro, a diretora ressalta que é necessário fazer um trabalho ativo de conscientização para inclusão social e quebra de barreira com os próprios empregadores. “Os empregadores não têm a mesma mentalidade que há dez anos. Nós tivemos que trabalhar bastante e eles também mudaram sua visão por conta do contexto. É um processo de quebrar vieses inconscientes e barreiras de entrada em nome da inclusão, em nome de um jovem que chega com muita vontade de trabalhar. É um dos maiores trabalhos do time e nosso gestor de empregabilidade.”

O canal do Instituto Coca-Cola Brasil no YouTube traz mais informações sobre o Coletivo Jovem. Acesse aqui e aqui.