Como o diálogo com o campo religioso é estratégico para fortalecer a democracia

Por: GIFE| Notícias| 20/07/2026

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Em um país onde a religião ocupa lugar central na vida pública, compreender como diferentes expressões de fé influenciam os debates sobre direitos, participação cidadã e políticas públicas tornou-se um desafio para organizações da sociedade civil, institutos, fundações e empresas que atuam no fortalecimento da democracia.

Nos últimos anos, a visibilidade de grupos religiosos ultraconservadores contribuiu para associar religião quase exclusivamente a pautas antidemocráticas. No entanto, Lívia Reis, coordenadora de Religião e Política do Instituto de Estudos da Religião (ISER), alerta que essa leitura simplifica um cenário muito mais complexo.

“O problema não é a presença da fé no espaço público. A religião sempre foi uma dimensão fundamental para compreender a sociedade brasileira. O desafio surge quando discursos religiosos passam a ser utilizados para retirar determinados temas do campo do diálogo democrático e transformar diferenças políticas em disputas morais absolutas”, diz Lívia.

Ela afirma que as pesquisas desenvolvidas pelo instituto mostram que religião e política nunca estiveram separadas no Brasil. Desde o período colonial, diferentes tradições religiosas influenciam a organização social e política do país. Mais recentemente, porém, essa presença ganhou novos formatos, impulsionada pela ampliação das redes digitais, pela atuação de lideranças religiosas em diferentes espaços institucionais e pelo fortalecimento de atores religiosos no Congresso Nacional. 

Ao mesmo tempo, o ISER destaca que reduzir esse fenômeno apenas ao crescimento evangélico ou ao avanço do fundamentalismo produz análises incompletas e acaba invisibilizando comunidades religiosas que atuam na defesa da democracia e dos direitos humanos.

Esse olhar também orienta a publicação Não em Nome da Fé: Fundamentalismos, regressão democrática e ataques à justiça de gênero, produzida pelo Fórum Ecumênico Sul-Americano da ACT Aliança (FESUR), com apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). O documento reúne estudos de caso da Argentina, Brasil, Colômbia e Peru que mostram como discursos religiosos têm sido instrumentalizados para restringir direitos, atacar populações historicamente discriminadas e enfraquecer instituições democráticas. Ao mesmo tempo, a publicação evidencia a existência de igrejas, organizações ecumênicas, povos de terreiro, povos indígenas e diferentes comunidades de fé que atuam justamente na direção oposta, promovendo diálogo, inclusão e justiça social.

Para Sônia Mota, diretora executiva da CESE, compreender essa diferença é fundamental. Segundo ela, o fundamentalismo religioso não atua de forma isolada, mas se articula a projetos políticos e econômicos que buscam enfraquecer movimentos sociais e deslocar o debate público dos direitos para pautas exclusivamente morais. “Quando isso acontece, a defesa dos direitos humanos perde espaço e o próprio Estado laico é colocado em risco”, afirma.

Atuação no campo religioso é oportunidade para ampliar agendas de direitos 

Esse debate também provoca uma reflexão importante para o Investimento Social Privado (ISP). De acordo com as especialistas, embora muitas organizações já apoiem iniciativas voltadas ao fortalecimento democrático, à equidade racial, à justiça climática e à participação cidadã, o campo religioso ainda costuma ser visto como um tema periférico ou sensível.

Na avaliação de Lívia Reis, essa percepção acaba produzindo uma assimetria. Enquanto grupos ultraconservadores investem de forma consistente na formação de lideranças e na ocupação de espaços religiosos, organizações comprometidas com direitos humanos frequentemente deixam de atuar nesse campo. 

“Ignorar a religião não é uma posição neutra. Em um país como o Brasil, significa abrir mão de disputar um espaço onde se constroem vínculos, pertencimentos e valores democráticos”, avalia.

Para Sônia Mota, apoiar iniciativas ecumênicas, espaços de diálogo inter-religioso e organizações comprometidas com a liberdade religiosa representa uma oportunidade de fortalecer agendas que já fazem parte da atuação de muitos investidores sociais. 

“A religião continua sendo uma linguagem potente para milhões de brasileiros. Apoiar experiências que dialogam com a fé para promover direitos, combater o racismo religioso e fortalecer a democracia é também investir em uma sociedade mais justa, plural e democrática”, conclui.


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