Conferência 2019 da Associação Americana de Avaliação destaca a responsabilidade social intrínseca à agenda

Sob o tema “Paths to the Future of Evaluation: Contribution, Leadership, and Renewal” (“Caminhos para o Futuro da Avaliação: Contribuição, Liderança e Renovação”, em tradução livre), a 33ª edição da Evaluation 2019 – conferência anual da Associação Americana de Avaliação (AEA, na sigla em inglês) – reuniu 3.600 avaliadores, acadêmicos, estudantes e usuários da ciência e prática da avaliação – representando 144 países – com o objetivo de fazer um resgate das importantes contribuições da agenda para a sociedade, evidenciar o papel de liderança que avaliadores podem exercer no contexto atual e projetar as perspectivas das práticas e usos da avaliação para o futuro.

Há mais de 30 anos, a conferência reúne a comunidade de avaliação ao redor do mundo para debater assuntos pertinentes ao tema em diferentes setores da disciplina e prática internacional de avaliação. Este ano, o evento aconteceu em Minneapolis, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos, de 11 a 16 de novembro.

Membros do grupo de avaliação do GIFE compuseram uma delegação brasileira que esteve na edição deste ano. Além da coordenação executiva e consultoria técnica do grupo, participaram representantes de instituições como Itaú Social, Fundação Marilia Cecilia Souto Vidigal e Fundação Roberto Marinho.

Programação

Com cursos e oficinas pré-conferência e mais de 700 sessões entre painéis, debates e mesas-redondas, além de espaços para networking, uma agenda de eventos sociais e sessões de venda de livros com a presença dos autores, o evento abordou temas para todo tipo de interesse.

Segundo o site da conferência, na visão de Tessie Catsambas, presidente da AEA e responsável pela organização da conferência, “em uma era de discórdia e desconfiança, onde os fatos são fortemente debatidos através de lentes ideológicas e onde as pessoas têm dificuldade de encontrar um terreno comum, o papel da avaliação é fornecer conclusões confiáveis, credíveis, baseadas em evidências e equilibradas sobre a qualidade, importância e valor do que é relevante em nossa sociedade”.

A partir desse pano de fundo, a conferência explorou o papel dos avaliadores e da avaliação na formação do futuro do campo. As diferentes sessões procuraram responder a perguntas como:

  • Quais estruturas, experiências, métodos e práticas nos preparam melhor para abordar questões-chave do nosso tempo: migração massiva, mudanças climáticas, impactos da globalização?
  • Como inovamos e adaptamos nossos pensamentos, métodos e práticas para garantir que nossas avaliações abordem os importantes desafios sociais de hoje e permitam que nossas comunidades tenham conversas informadas e produtivas?
  • Como promovemos a equidade, a diversidade e a proteção dos direitos humanos para todos os envolvidos e afetados por nossas avaliações?
  • Como trazemos competência de liderança e credibilidade para nossas avaliações, atuando com independência e imparcialidade e trazendo respostas confiáveis para as questões que realmente importam?

Para Marcia Joppert, especialista na área de monitoramento e avaliação e diretora da Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação (RBMA), o tema representa uma discussão instigante frente às diversas evoluções. “Não há mais lugar para discussões metodológicas ‘quanti x quali’ e os sinais de que a demanda por avaliação tende a aumentar são claros. Nos Estados Unidos, esses sinais estão refletidos no ´Evidence Act´ de 2018. Essa lei encoraja o uso de dados para a tomada de decisões sobre políticas públicas em todas as agências federais. Isso tem causado na comunidade americana um senso de urgência: é preciso profissionalizar o campo”, afirmou em nota sobre o evento em que lista as principais tendências e reflexões resultantes da sessão plenária de encerramento “Caminhos para o futuro: reflexões de líderes de avaliação”.

Competências

Angela Dannemann, superintendente do Itaú Social, acompanhou duas sessões sobre competências de avaliadores conduzidas por Jean King, uma das principais autoras sobre o tema na atualidade. A especialista fez algumas recomendações para o desenvolvimento do tema que, em sua opinião, avançou no último período.

Indicação das competências a serem desenvolvidas por um bom avaliador, necessidade de articulação com a prática, não exclusão dos que praticam e o importante papel de fundações e academia nessa reflexão foram algumas oportunidades mencionadas pela autora. Já como desafios, a especialista apontou a necessidade de adaptação para os diversos contextos e culturas, o fortalecimento da profissionalização do campo e o enriquecimento das competências com atitudes e valores próprios aos contextos.

“Muita gente falando de desenvolvimento de capacidades, de avaliação em diferentes níveis para diferentes perfis nas organizações, cultura avaliativa. Nesse sentido, achei bem interessante a sistematização das competências feita pela AEA”, destaca Ana Lima, consultora técnica do Grupo de Avaliação do GIFE.

Cultura avaliativa

Para Maíra Mascarenhas, analista de pesquisa, monitoramento e avaliação da Fundação Roberto Marinho, o pensamento avaliativo não está atrelado apenas à avaliação, mas os programas devem adotar esse pensamento para ter mais chances de sucesso.

“Nosso desafio no Brasil é muito maior porque não temos uma cultura de avaliação consolidada. A conferência mostra que nesse sentido os Estados Unidos estão anos luz à nossa frente. Eles avaliam coisas pequenas, médias e grandes em todos os campos de atuação.”

A analista aponta o caminho da organização e troca de conhecimentos para enfrentar os desafios da área. “Precisamos nos organizar em uma comunidade e promover a troca, conhecer o que os outros estão fazendo, o que já chegou aqui, quem são as pessoas que estão atuando no campo da avaliação, ou seja, fazer com que isso não fique restrito a um pequeno grupo, mas atuar de forma mais ampla”, defende.

Valores e advocacy

Esmeralda Macana, especialista em avaliação e supervisão do Itaú Social, ressalta a importância de entender a avaliação a partir de uma perspectiva mais ampla, sistêmica e estratégica, envolvendo aspectos desde o desenho de intervenções, sua implementação e avaliação de resultados e impacto até princípios e valores que guiam as ações sociais e as transformações na sociedade.

“O Brasil precisa avançar no entendimento da avaliação de forma mais ampla, capaz de integrar diversidade de abordagens com um papel muito mais estratégico para superar desafios sociais como as desigualdades ou temas como a sustentabilidade ambiental, como trabalhado por Michael Patton em seu último livro Blue Marble Evaluation. A avaliação não deve ficar restrita à identificação da efetividade ou eficiência de ações, mas deve ser uma forma de pensamento avaliativo aplicável a qualquer tomada de decisão estratégica. Nesse sentido, durante a conferência da AEA, vimos temas sobre diversidade de métodos (qualitativos, participativos, quantitativos, mistos, etc.), mas também sobre princípios e teorias de avaliação como Develompmental Evaluation, Outcome Harvesting, Equitable Evaluation, entre outras, e debates sobre equidade, abordagens culturalmente responsivas e avaliações em contextos de complexidade.”

Nesse sentido, Leonardo Hoçoya, da área de projetos e avaliação da Fundação Marilia Cecilia Souto Vidigal, destaca a coleta de dados feita pelo software open source de monitoramento do Twitter que ajuda a identificar posicionamentos de influenciadores. Para o especialista, a ferramenta se conecta com o tema da avaliação em advocacy, podendo resultar em um processo interativo de mapeamento de stakeholders e seus posicionamentos para ações e objetivos relacionados às pautas de atuação junto às lideranças políticas.

Camila Cirillo, coordenadora executiva do Grupo de Avaliação do GIFE, comenta sobre o tema da sustentabilidade, outro tema candente na Conferência. Os especialistas comentam que,  em geral, as avaliações olham ou para os sistemas humanos ou para os sistemas naturais quando deveriam cada vez mais se preocupar em englobar ambos os componentes, o que implicaria em avaliações mais complexas, mas, ao mesmo tempo, social e ambientalmente mais responsáveis. “Promover avaliações atentas às questões a elas inerentes também é nosso compromisso para a construção de uma sociedade mais justa”, defende.

Esmeralda ressalta ainda outros desafios que se conectam com o cenário brasileiro da avaliação tais como a definição de padrões e competências de avaliadores e o reconhecimento da avaliação como ciência. “Sobre estes, o Brasil está dando passos importantes por meio da Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação, que tem como prioridade trabalhar esses aspectos em 2020, e também do Grupo de Avaliação do GIFE”, observa.

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