Covid-19: a atuação coletiva frente ao cenário atual de crise

A pandemia da Covid-19 já é considerada por muitos um dos maiores desafios enfrentados pela humanidade. Por um lado, o aumento diário no número de pessoas infectadas e vítimas fatais impõe estado de emergência e colapso no sistema de saúde dos países no mundo todo. Por outro, os impactos sociais e econômicos da pandemia têm gerado muita preocupação e incertezas entre governos ao redor do planeta.

Um elemento, no entanto, tem sido comum: a ampliação de ações e redes de solidariedade. Ao redor do mundo, aumentam as histórias de como pessoas, coletivos, movimentos e organizações têm se somado e multiplicado iniciativas para ajudar os mais vulneráveis e os próprios governos nas respostas à crise. Nesse sentido, há quem diga que o momento tem revigorado a capacidade dos modos cidadãos e coletivos, reafirmando seu papel para sociedades democráticas.

O fenômeno da atuação em redes de colaboração e em parceria tem aparecido em todos os setores, desde o empresarial, passando pelo setor público, até o terceiro setor, que inclui nichos como a filantropia e o investimento social privado e também o campo das organizações da sociedade civil (OSCs), também este diverso em sua composição.

É o caso da Rede Brasil do Pacto Global com o lançamento do Pacto contra a Covid-19, que reúne sugestões de resposta à crise, cases empresariais e informações para enfrentar a pandemia.

Radar de desafios e oportunidades

A iniciativa é uma convocatória às 800 empresas-membro da Rede Brasil do Pacto Global para a mobilização e a soma de esforços no combate à pandemia do coronavírus. A plataforma inclui um guia com sugestões de reação diante da pandemia e exemplos de boas práticas, mensagens e respostas de CEOs nacionais e internacionais frente à crise, cursos e webinars, além do Covid Radar, plataforma que agrega dados, estatísticas e tecnologias disponibilizadas pelas empresas e organizações parceiras a fim promover apoios e parcerias entre o setor empresarial, identificando as necessidades emergenciais em todo o país, colocando em contato doadores com instituições que precisam de ajuda e oferecendo à população uma ferramenta de autodiagnóstico, além de disponibilizar aos governos e demais setores informações para a tomada de decisões.

“Essa coordenação de atuação é essencial nesse momento para que as ações tenham mais força e para evitar a pulverização dos esforços, correndo o risco de acabarmos atendendo demais a uma demanda e deixado as outras desassistidas”, afirma Carlo Pereira, secretário executivo da Rede Brasil do Pacto Global.

O secretário explica que a ferramenta contará ainda com um dispositivo de match automático entre as demandas e as ofertas e também a agregação de informações não oficiais por qualquer indivíduo. “Isso permitirá aos atores dos diversos setores uma tomada de decisões mais eficiente.”

De acordo com Carlo, além de se envolver com todas as iniciativas do Pacto contra a Covid-19, ajudando a tornar as ferramentas mais precisas, doando e apresentando demandas, as empresas também podem fazer a diferença com a disseminação de informações de qualidade.

“Uma pesquisa da Edelman, Barômetro da Confiança, mostra que as pessoas confiam mais em seus empregadores do que no setor público e na mídia. Nesse sentido, as empresas podem ajudar e muito no combate às fake news”, pondera Carlo.

A potência da sociedade civil organizada

“Solidariedade é o melhor remédio contra o Coronavírus” é o slogan da plataforma Rede Solidária. A iniciativa coordenada pela Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) tem como objetivo centralizar informações das diversas iniciativas de OSCs, coletivos e ativistas para promover ajuda e proteção e também pressão popular para implementação de políticas emergenciais e de longo prazo e ações sociais colaborativas e criativas, promovendo, assim, o que chama de match solidário.

A nota sobre a iniciativa contém links para o vídeo e os materiais da campanha.

Athayde Motta, membro da diretoria executiva da Abong, observa a importância da iniciativa no espectro de ações que fortalecem a comunicação digital nesse momento de isolamento social.

“O uso das mídias digitais se tornou um instrumento ainda mais poderoso e essencial pela impossibilidade de as pessoas saírem de casa. As informações estão chegando pelo computador e pelo celular e iniciativas como essa se colocam como serviços essenciais para qualificar essa informação.”

O diretor acrescenta que a plataforma também dá visibilidade às ações que as organizações associadas à Abong estão realizando nos territórios, bem como à importância dessas organizações para a garantia de direitos.

“Em um momento como esse nós observamos muitas questões relacionadas a violações de direitos, desde a falta de acesso das populações mais vulneráveis a direitos básicos como saúde e educação, até o aumento da violência contra a mulher no contexto de confinamento das famílias, bem como a atuação das prefeituras, elementos que começam a conformar uma agenda pública relacionada à pandemia, que vai além da situação de emergência”, observa.

“É fundamental que o poder público e as empresas percebam que já existe uma rede que, se apoiada, é bastante potente e capaz de escoar rapidamente todo tipo de recurso e suporte aos territórios e às populações mais pobres e vulneráveis, cujos direitos estão sendo mais violados.”

Para Athayde, essa rede de organizações, movimentos, coletivos e ativistas poderia não só complementar, como ser a principal via de atuação dos governos, tornando-a mais efetiva.

“Um exemplo dessa capacidade da sociedade civil é o que está sendo feito, por exemplo, no Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro, onde os próprios moradores tomaram a iniciativa de desinfetar as vielas e ruas, um serviço que está sendo feito pelo poder público nos bairros de classe média e no centro das cidades, mas que nas comunidades demora a chegar, e que poderia ser feito pelas pessoas se o poder público disponibilizasse os materiais. E essa seria uma maneira mais eficiente de investir na saúde primária porque nas comunidades mais pobres, a falta de higiene vai ser um elemento determinante para a infecção pelo coronavírus.”

Solidariedade é cidadania e vice-versa

A premissa de articulação, colaboração e coordenação de esforços também tem ditado o jogo no campo do investimento social privado para o enfrentamento da pandemia.

No caso da rede de organizações associadas ao GIFE, as ações se traduzem na formulação conjunta de diretrizes para atuação da filantropia e do investimento social privado nesse momento de crise; na plataforma Emergência Covid-19 – Coordenação de ações da filantropia e do investimento social em resposta à crise, que reúne iniciativas, fundos e campanhas emergenciais, além de guias e ferramentas, notícias e eventos online; e na constituição de um grupo de articulação que vem se reunindo virtualmente a fim de contribuir com o mapeamento amplo de ações do campo e de convergir e inspirar outras iniciativas, bem como apontar caminhos para o direcionamento de recursos.

Erika Sanchez Saez, coordenadora da iniciativa Emergência Covid-19, explica que a plataforma é o resultado de um esforço mais amplo de articulação, coordenação e colaboração. “Esses três elementos são algumas das fronteiras para que o investimento social privado possa se desenvolver e contribuir ainda mais. Nesse contexto de emergência, isso se faz mais óbvio e necessário”, observa.

A coordenadora da iniciativa explica que após as duas primeiras rodadas de reuniões, foi possível identificar alguns eixos de atuação dos investidores que passarão a conduzir a dinâmica de trabalho do grupo daqui para frente: assistência social, saúde, educação, inclusão produtiva e apoio a governos locais.

Soma-se à estratégia articulações com outras iniciativas, tais como a da Rede Brasil do Pacto Global e a da Abong, entre outras. “Nossa expectativa é otimizar os recursos e esforços, além de dar visibilidade à importância dessa ação impressionante da sociedade civil nesse momento de crise.”

Para José Marcelo Zacchi, secretário-geral do GIFE, a imensa mobilização de todos os setores da sociedade civil organizada em resposta à pandemia demonstra a força e o vigor da capacidade de ação coletiva e solidária que existe na sociedade brasileira.

“Muitas vezes, no universo das ações regulares, isso fica menos perceptível ou mais adormecido. Mas, nós temos uma malha fundamental de associações, organizações comunitárias e espaços de cidadania de modo geral que cumpre um papel fundamental no dia a dia da nossa vida coletiva, seja na educação, na saúde, na proteção social, na preservação do meio ambiente e em todas as outras frentes. E uma crise dessa proporção evidencia a existência dessa vitalidade e disposição cidadã e seu valor. Que possamos superar a pandemia exercitando esse sentido coletivo e recordando o quão valioso ele é para que, em lugar do conflito e desagregação, nós consigamos produzir respostas juntos.”

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