‘Culturas da doação’ será tema de destaque no Congresso GIFE

Conquistar uma democracia vibrante no Brasil passa, necessariamente, por uma sociedade civil cada vez mais forte, participativa e engajada. E, para isso, é preciso  recursos, sejam eles financeiros, técnicos ou humanos. O fato é que os investimentos precisam chegar às iniciativas que geram capital social, fundamental para o desenvolvimento socioeconômico e equidade social no país.

Mas, como ampliar e diversificar essa base de investimento? De que forma engajar mais pessoas em causas que acreditam e querem se envolver? Questionamentos como estes têm sido cada vez mais comuns e têm movido diversas instituições e movimentos para fomentar e promover uma ‘cultura de doação’.

O tema é tão relevante que se tornou agenda estratégica de atuação do GIFE para os próximos anos e, como não poderia deixar de ser, será uma das pautas do 9º Congresso GIFE. No dia 30 de março, como parte da sua programação paralela e, portanto, aberta ao público em geral, o evento contará com a mesa “Cultures of Giving” (será em inglês, com tradução simultânea), promovido em conjunto com a WINGS – uma rede independente que reúne 88 organizações de apoio que servem à filantropia em 36 países. Juntos, os membros da WINGS representam mais de 15 mil fundações, grantmakers e investidores sociais em todo o mundo.

A proposta da atividade será reunir representantes de diferentes instituições e países, inseridas em contextos sociopolíticos diversos, para apresentar suas experiências e modelos em torno da doação. O objetivo é refletir sobre qual é o entendimento que as nações estão construindo e as evoluções em torno da ‘cultura de doação’ ou ‘culturas de doação’. Nesta mesa, está prevista a participação, por exemplo, da Africa Philanthropy Network, da Arab Foundations Forum, entre outras.

“Diante da complexidade das demandas sociais que vivemos hoje, o conceito de doação, sempre vinculado a ações de caridade, tem mudado. Há várias outras formas de engajamento e contribuição que as pessoas podem fazer para o bem comum. Por isso, precisamos construir um melhor entendimento a respeito e também refletir sobre qual é a contribuição do investimento social privado e da filantropia para isso”, comenta Helena Monteiro, diretora executiva da WINGS, e mediadora da mesa.

Helena destaca que, a partir das articulações realizadas pela WINGS ao redor do mundo a respeito do tema, é possível perceber que alguns aspectos impactam diretamente sobre à promoção das doações, como o marco regulatório – que pode favorecer ou dificultar os investimentos – assim como aspectos culturais e religiosos locais.

Além disso, há uma tendência em se agregar formas inovadoras em engajar as pessoas – como crowdfunding, por exemplo, – mas sempre mantendo as boas práticas existentes.  “Todos buscam maneiras diversas de alavancar recursos, envolvendo, cada vez mais, diversos setores e atores sociais. O que diferencia é a criatividade de cada um”, ressalta.

Segundo Andre Degenszajn, secretário geral do GIFE, colocar no mesmo debate experiências internacionais será fundamental para gerar uma reflexão, inclusive, sobre outros modelos que não o setor filantrópico americano, que acaba sendo sempre referendado, inclusive pelos brasileiros.

“O interessante é que o modelo americano não é universal. Em outros países, por exemplo, a doação está pouco ou nada associada ao excesso e ao acúmulo de recursos que vem de uma elite econômica interessada em apoiar agendas sociais, mas de outra lógica, aquela que acontece no nível comunitário”, comenta.

O Brasil

Experiências brasileiras também estarão presentes na mesa de debate, a fim de discutir sobre como este tema tem se expandido no país e no que é preciso ainda avançar.

Atualmente, há várias ações locais que estão sendo desenvolvidas neste sentido, como a elaboração de uma pesquisa coordenada pelo IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), em parceria com um grupo de especialistas no campo da cultura de doação – como o próprio GIFE –, que pretende traçar o perfil dos doadores brasileiros e da doação no Brasil.

A ideia é conhecer quem são, por que doam, como doam e quanto doam, assim como levantar dados sobre o que faria as pessoas doarem mais, quais são as causas que as sensibilizam, quais são suas crenças e desconfianças, entre outros questionamentos. Com isso, espera-se identificar de que forma o campo se comporta no Brasil, afim de realizar novas ações para aumentar a cultura de doação no país. A pesquisa está em fase de elaboração e, em breve, será amplamente divulgada.

Outra experiência é o Fundo BIS – lançado pelo GIFE no final de 2015 – que visa apoiar iniciativas que contribuam para ampliar o volume de doações no país. A proposta surgiu de um grupo de organizações a partir da constatação de que há um volume ainda tímido de doações no Brasil. Para concretizá-lo, o GIFE estimulará investidores sociais e interessados no tema a doarem 1% de seus orçamentos para o Fundo, que será gerido pelo banco JPMorgan, associado ao GIFE.

O Fundo não apoiará projetos de organizações, mas financiará iniciativas que gerem benefícios coletivos para aperfeiçoar o ambiente para as doações no país, como o desenvolvimento de pesquisas e campanhas, por exemplo.

Tendências

O secretário geral do GIFE destaca que todas estas iniciativas vem sendo desenvolvidas no âmbito do investimento social privado, tendo em vista o papel ativo que o setor pode ter a fim de promover o crescimento das doações no Brasil.

Segundo Andre, essa atuação pode se dar, principalmente, em duas instâncias que são interligadas entre si: incidir sobre o marco regulatório e no fomento à cultura de doação. “Ou seja, temos de fazer advocacy para melhorar o ambiente regulatório e também apoiar iniciativas e instituições que estejam trabalhando para motivar a população a doar, assim como naquelas ações que ajudem a melhorar processos e infraestrutura para que essas doações possam ser feitas e as organizações acessem mais facilmente os investimentos. Tudo isso é para aumentar o volume de recursos disponíveis para a causa de interesse público”, destaca.