Desinformação, censura e sustentabilidade financeira: os obstáculos enfrentados pela imprensa brasileira

Durante a pandemia de Covid-19, multiplicaram-se iniciativas de verificação de notícias, redes sociais e plataformas como Twitter e YouTube baniram usuários e vídeos com informações incorretas a respeito do vírus e de vacinas.

Desenvolvidas por veículos e profissionais da comunicação, essas iniciativas têm em comum o fato de que a disseminação de informações apuradas e corretas, sobretudo em um momento de emergência pública como a pandemia, é de vital importância. Entretanto, às vésperas do Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas (2 de novembro), o redeGIFE compila dados alarmantes.

O cenário 

De acordo com a Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa 2021, elaborada pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o Brasil ocupa a posição 111 entre 180 países analisados, quatro a menos em relação ao ranking do ano anterior, sendo o quarto ano consecutivo de queda para o país. A posição faz parte da penúltima categoria do ranking, que reúne nações onde a situação da liberdade de imprensa é considerada difícil, ficando atrás apenas de lugares onde o cenário é considerado grave. 

Segundo o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil 2020, elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), 2020 foi o ano mais violento desde o início da década de 1990, quando a Federação deu início à série. No total, foram 428 casos de ataques à imprensa, incluindo dois assassinatos, um aumento de 105% em relação a 2019. 

O caminho até aqui 

Uma das causas apontadas por especialistas para esse cenário é o projeto por trás do atual governo federal e a postura do presidente Jair Bolsonaro. Outro levantamento da Repórteres sem Fronteiras mostra que, durante o primeiro semestre de 2021, o número de ataques do presidente contra a imprensa aumentou 74% em relação ao segundo semestre de 2020, totalizando 87 ocorrências. A postura rendeu, pela primeira vez, uma vaga no grupo dos 37 chefes de Estado ou de governos que impõem repressão massiva à liberdade de imprensa em todo o mundo, de acordo com a edição 2021 da Galeria de Predadores da Liberdade de Imprensa, da RSF. 

André Petry, diretor de redação da revista Piauí, e João Moreira Salles, presidente do conselho editorial do Instituto Artigo 220, comentam que, com a chegada da pandemia, o governo federal poderia ter escolhido o vírus como seu principal alvo, mas escolheu a imprensa. 

“[O governo] passou a acusar a imprensa de superdimensionar a crise sanitária, empenhou-se em espalhar mentiras sobre remédios e tratamentos – ao mesmo tempo em que acusava a imprensa de divulgar mentiras -, desprezou o noticiário sobre a eficácia da vacina e ainda tentou limitar a divulgação sobre o total de vítimas, o que resultou na formação, talvez inédita, de um consórcio de veículos para ‘furar’ o bloqueio oficial. A isso tudo se somou o tratamento comumente hostil que o governo dedica à imprensa profissional. Seria surpreendente se o Brasil mantivesse a mesma posição no ranking do ano anterior.”

A desinformação como fenômeno 

Notícias parcial ou inteiramente falsas não apenas fazem com que a população questione o trabalho desenvolvido por veículos e profissionais da imprensa, mas também deixa as pessoas mal informadas – a depender das intenções do interlocutor -, e, com isso, somam-se ao fenômeno crescente da desinformação.

O portal Desinformante, elenca os múltiplos fatores que contribuem para uma sociedade mal informada ou alheia. Um deles diz respeito ao papel fundamental desempenhado por líderes políticos e autoridades na circulação de informação e desinformação. 

“A postura do presidente Bolsonaro desrespeita a própria lógica do jornalismo como uma atividade fundamental para informação da sociedade. Suas ações de desqualificar a imprensa como um todo criam, no fundo, uma instabilidade na própria democracia brasileira, já que a liberdade de imprensa é um de seus pilares”, afirma João Brant, coordenador geral do Desinformante

Para o jornalista, o fenômeno da desinformação é grave, pois afeta a democracia, os direitos sociais, a dimensão coletiva da liberdade de expressão e o direito da sociedade de estar bem informada a partir do acesso a informações plurais e confiáveis. 

Diversidade de vozes

Enquanto um veículo de comunicação independente e feminista, a revista AzMina representa uma alternativa à imprensa tradicional, sobretudo por realizar um trabalho pautado na perspectiva de gênero. 

“Quando começamos a sonhar em fazer uma revista feminista independente, que respeita e valoriza a mulher em toda a sua diversidade, feminismo ainda era palavrão, sexo vinha com manual de instrução para ‘satisfazer seu homem’, feminicídio era tratado como ‘crime passional’, gordura era crime e mulheres negras, indígenas, transexuais e lésbicas eram invisíveis para a grande mídia. Nós acreditamos no jornalismo como serviço público, cujas informações e narrativas contribuem para mudanças sociais”, explica Thais Folego, diretora operacional e de tecnologia da AzMina

Apesar dos desafios e percalços, que não são poucos, Thais comenta que a revista deu novos passos ao longo de seus seis anos de existência, incluindo dados, tecnologia e o uso de campanhas na sua atuação com o objetivo de caminhar em direção a um mundo aonde o gênero não influencie o acesso das pessoas a direitos e oportunidades. 

“Temos visto cada vez mais iniciativas independentes de jornalismo, que contribuem com uma comunicação mais democrática, plural e inclusiva, que trazem perspectivas de gênero, raça/etnia e territorialidades que não víamos antes na mídia. Isso aproxima o leitor da mídia profissional, fator importante num cenário crítico de desinformação”, enumera a diretora. 

Desafios 

Além do cenário da desinformação que, por si só, já seria uma grande questão a ser vencida, veículos da imprensa brasileira – sejam tradicionais ou não – enfrentam obstáculos todos os dias no fazer jornalístico. Para João, por exemplo, a possibilidade de receber represálias, ameaças e ataques é grave. 

A grande concentração da mídia brasileira é outro desafio apontado pela Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa 2021. “A paisagem midiática brasileira ainda é bastante concentrada, sobretudo nas mãos de grandes famílias de industriais, com frequência, próximas da classe política. O sigilo das fontes é regularmente prejudicado e muitos jornalistas investigativos são alvo de processos judiciais abusivos”, aponta a publicação. 

A censura também configura uma questão a ser enfrentada atualmente pela imprensa. Thais exemplifica que a AzMina foi alvo de uma denúncia da ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) ao Ministério Público em 2019 por conta de uma reportagem sobre aborto seguro, que também gerou múltiplas denúncias realizadas por um deputado estadual em diferentes delegacias de São Paulo.  

A relação entre sustentabilidade financeira e imprensa livre 

Um ponto apontado por João e também por Thais é a sustentabilidade financeira do jornalismo. A revista AzMina, por exemplo, não prevê a publicidade como fonte de receita, como faz a mídia tradicional. As principais fontes da revista são doações de organizações filantrópicas e de pessoas físicas e editais e prestação de serviços, como consultoria e palestras.

A sustentabilidade financeira está relacionada aos obstáculos citados acima, pois, em muitos casos,  os canais são proibidos de seguir com determinada cobertura noticiosa a depender dos interesses dos patrocinadores, anunciantes e políticos com relações próximas às famílias que detém veículos de comunicação. 

Com o objetivo de caminhar em direção a mais liberdade de imprensa, a Revista Piauí passou, no início de outubro, por uma mudança em seu modelo de gestão. Antes administrada pela Editora Alvinegra, fundada por João Moreira Salles, agora o veículo passará a ser mantido com recursos de um fundo patrimonial gerido pelo Instituto Artigo 220, além de contar com a receita de publicidade, assinantes e vendas em bancas. 

Recém-criado especificamente para esse fim, o Instituto traz no nome a alusão ao Art. 220 da Constituição Federal do Brasil, que diz: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição”. 

Apesar de ser pensado e estudado desde 2012, André Petry e João Moreira Salles avaliam que o fundo patrimonial da Piauí se concretizou na hora certa. 

“O fundo patrimonial traz estabilidade financeira, independência editorial, segurança para os jornalistas e capacidade de planejamento. Nesse sentido, a revista ganha uma autonomia que não tinha antes e essa nova conformação contribui para o fortalecimento da liberdade de expressão no país. A imprensa forte é importante não apenas num contexto de crise, ainda que, nesses momentos, sua relevância se sobressaia”, completam.

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