Dia Mundial da Saúde: desafios e oportunidades para a atuação de investidores sociais privados

No próximo dia 7 comemora-se o Dia Mundial da Saúde, data instituída em 1948 pela Assembleia Mundial da Saúde, que tem como objetivo conscientizar a população a respeito da qualidade de vida e dos diferentes fatores que afetam o bem-estar populacional. Trata-se de um marco que coincide com a fundação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Para lembrar esta importante data e problematizar alguns desafios que enfrentam investidores sociais que adotaram a área como foco e a população brasileira em geral, convidamos dois associados GIFE que atuam no campo da saúde pública. Contribuíram com essa jornada Fabio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin, e a Dra. Fatima Rodrigues Fernandes, diretora executiva do Instituto de Pesquisa PENSI.

De acordo com a OMS, “a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. Esse conceito, que data da década de 1940, ainda rege o que se entende hoje como saúde em sua concepção mais ampla. Dessa forma, vale a ideia de que, mais do que o tratar de enfermidades, a saúde está ligada à ideia de qualidade de vida.

No campo brasileiro dos direitos, o tema é tratado na esfera da lei 8.080 de 1990, que determina que saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. A política também é imperativa no sentido de direitos que determinam a qualidade de vida de um ser humano – como acesso a alimentação, moradia, saneamento básico, educação, lazer e outros bens e serviços essenciais.

Ainda no resgate histórico, vale lembrar que a Constituição de 1988, instaura o Sistema Único de Saúde (SUS), alicerçado até hoje sobre três pilares fundamentais: universalidade, integralidade e participação social. O modelo, apesar de todos os seus problemas de estrutura e gestão, é considerado exemplar entre sistemas públicos de saúde mundo afora.

Já no campo do Investimento Social Privado, o tema da saúde ainda se mantém forte entre o leque de áreas prioritárias para atuação no Brasil. De acordo com o Censo GIFE 2014, 43% dos associados atuam nesta área. Ou seja, esta frente de investimento está no radar de quase metade do grupo de institutos e fundações que constituem a rede de associados GIFE.

 

Desafios 

O tipo de investimento no campo da saúde vem mudando ao longo dos anos. Para além das campanhas de prevenção a doenças e do atendimento direto em organizações sociais, institutos e fundações têm investido, cada vez mais, em programas e projetos que buscam interconexões com outras áreas do campo social, como educação e esporte, por exemplo.

Organizações ligadas a financiadores que atuam com negócios na esfera da saúde também têm buscado o alinhamento com o financiador e o fortalecimento de sinergias para oferta de benefício social. “Seguindo a tendência atual de alinhamento ao negócio, fazemos parte do Grupo Sabin que atua na área de medicina diagnóstica, o que nos conecta ao tema da saúde. A partir desta vinculação institucional procuramos aproveitar a expertise da empresa na área e também ampliar o foco de atuação para outros subsetores da saúde, sobretudo, buscando construir maior vinculação com a dimensão social”, explica Fabio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin.

Para Fabio, a questão central está no financiamento (sustentabilidade financeira do setor) e também no maior empoderamento e autonomia dos pacientes (cidadãos) ao serem mais proativos na gestão e cuidado de sua saúde.

“Tentar fechar essa conta [de financiamento] passa, necessariamente, por modelos de gestão mais eficientes [no setor público e no privado], pela erradicação de práticas de corrupção – neste quesito não só a punição é necessária, mas também a transparência de dados, contratos, tabelas, salários, etc – e pelo redesenho do sistema de saúde [público e privado] como um todo. Hoje o sistema é ineficiente, pois dá prioridade a pagar os procedimentos mais caros, muitos dos quais poderiam ser evitados e tratados de forma preventiva a um custo muito mais baixo.”

A Fundação José Luiz Egydio Setúbal, ligada ao Instituto PENSI – Pesquisa e Ensino em Saúde Infantil – e ao Hospital Infantil Sabará, adota como frente de atuação a pesquisa no segmento da saúde infantil. Em sete anos de atuação, tem encampado ações na disseminação de conhecimento – a partir de pesquisas, estímulo à inovação e capacitação de educadores – e mobilização para o voluntariado.

“Nosso foco é dar maior atenção e visibilidade às necessidades no âmbito da saúde infantil, entendendo saúde como o bem-estar biopsicossocial. A pesquisa em saúde infantil no nosso país é ainda embrionária e não preenche as lacunas existentes. O Instituto PENSI tem a vocação para buscar respostas importantes e soluções que possam contribuir para a melhoria de políticas públicas existentes”, explica a Dra. Fatima Rodrigues Fernandes, diretora executiva Instituto de Pesquisa PENSI.

Ambos concordam que o país precisa juntar esforços – Estado, organizações sociais e setor produtivo – para avançar. As posições encontram ressonância na fala do professor da Universidade de São Paulo Gonzalo Vecina, destacada na Cartilha de Gestão de Saúde Pública. “No campo da saúde são duas transformações críticas: uma nova forma de abordar as doenças, o processo de adoecer e morrer, e uma nova forma de gestão dos recursos disponibilizados para a sociedade. (…) O cerne da proposta é mudar a partir da mobilização conjunta do Estado, dos empresários e da sociedade civil, gerando um processo de cocriação para enfrentar o desafio da mudança , continuar evoluindo e criar um mundo melhor para todos.”

 

Para saber mais

  • A Cartilha de Gestão de Saúde Pública é um material desenvolvido pela organização social Comunitas que sistematiza boas práticas desenvolvidas em prefeituras no campo da saúde. A ideia é que essas experiências possam ser replicadas em outras cidades e, dessa maneira, amplie o alcance e garanta a perenidade das ações.
  • O Projeto Ludoteca, do Instituo Sabin, busca para qualificar o enfrentamento de violações de direitos a crianças e adolescentes – também atua nesta direção ao proporcionar um atendimento mais humanizado a essas vítimas que podem desenvolver transtornos depressivos.
  • Em 2015 o Instituto PENSI incorporou a ONG Autismo & Realidade para difundir o conhecimento atualizado sobre o autismo, com campanhas e atividades direcionadas e estimular, apoiar e divulgar os estudos científicos cujos resultados possam beneficiar as pessoas com autismo. O tema ainda é muito pouco difundido na sociedade como um todo. No próximo dia 29 será realizado o Simpósio de Autismo voltado para profissionais que trabalham com educação, saúde e também pais de crianças autistas.