Empreendedores apostam em processos inovadores para promover transformação social

Ousadia, persistência, gestão inovadora e, acima de tudo, um olhar diferenciado para o outro. Essas são apenas algumas das características que marcam aqueles que, mais do que empreendedores, buscam ser empreendedores da transformação social. Na mesa de trabalho, ideias, projetos e negócios que visam garantir novas oportunidades para a população mais vulnerável, melhorar a qualidade de vida das comunidades e ampliar o acesso a direitos fundamentais que, muitas vezes, ficam esquecidos.

Histórias inspiradoras como estas é o que movem os vencedores da 11º edição do Prêmio Empreendedor Social, uma iniciativa da Folha em parceira com a Fundação Schwab. O cientista político Sergio Andrade, fundador da Agenda Pública, ganhou na categoria Empreendedor Social; Fernando Assad, fundador do Programa Vivenda, como Empreendedor Social de Futuro, e de Luis Salvatore, do Instituto Brasil Solidário, na categoria Escolha do Leitor. Na pauta dos vencedores, questões urgentes para o país.

Para a Agenda Pública, o foco central é o aprimoramento da gestão pública e o incentivo à participação da população nas políticas públicas de localidades impactadas por grandes obras. Nestes locais, a Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) – criada em 2009 – faz um trabalho intenso para ajudar a melhorar capacidades e habilidades, principalmente por parte dos governos locais e da sociedade civil, em questões como diagnóstico, planejamento, articulação e negociação, administração financeira, etc.

“É preciso mudar o olhar ‘enviezado’ das pessoas em relação à política, como algo que não é nobre e nem portador de mudanças. Se olhamos os últimos 25 anos, vivemos um novo país, que é fruto das opções políticas que foram feitas. Temos um Brasil que ampliou o combate à mortalidade infantil, contamos com uma história diferente na educação e que avança em relação à desigualdade de gênero. Além disso, temos uma economia que se modernizou e é capaz de promover bem-estar. É preciso mostrar isso ao cidadão, pois a participação na política faz também toda a diferença”, ressalta Sergio.

Para o diretor executivo da Agenda Pública, a premiação ter dado destaque a uma organização que atua junto às políticas públicas traz luz a um tema essencial e estruturante para o país. “Houve uma modernização da gestão pública, mas os municípios não acompanharam essas evoluções, principalmente os pequenos. Não há como construir soluções bem-sucedidas aos problemas sociais se temos ainda governos frágeis. Isso é um desafio e um gargalo. Ou seja, a capacidade institucional das cidades para entregar políticas públicas efetivas à população precisa ser melhorada”, comenta.

Segundo o cientista político, o prêmio reconhece também um modelo de atuação que é o do investimento social privado junto às políticas públicas, tendo em vista que os vários projetos analisados da Agenda Pública pela premiação contam com esta proposta. Foram avaliadas diversas iniciativas promovidas pela organização em dezenas de municípios em parceria com institutos, fundações e empresas, como o Instituto Votorantim, Instituto Natura, Fundação Avina, Instituto Ethos, entre outros. “Isso demonstra que é possível termos relações bem-sucedidas entre ISP e politicas públicas”, comenta.

Sergio Andrade destaca ainda que é justamente a criação de processos colaborativos e cooperativos que irá permitir a elaboração e implementação de políticas públicas mais eficazes. E isso passa, necessariamente, pela criação de novas relações internas ao governo – com mais diálogo entre Estados e municípios, por exemplo, como entre as próprias secretariais -, assim como entre as empresas, comunidades e governos.

Mas, para que isso possa ocorrer de forma mais impactante, os modelos de participação deverão ser revistos e será preciso equilibrar visões e expectativas de ambas as partes em relação, por exemplo, aos tempos de respostas das empresas e das políticas públicas, que trabalham numa visão de mais longo prazo. Outro aspecto fundamental é em relação ao acesso à informação, transparência e clareza de propósitos.

Inovação

“A conversa entre os empreendimentos sociais com as políticas públicas é muito sadia. É uma relação de ganha-ganha, pois os empreendedores têm a bandeira de inovação – algo que não existe no governo -, buscam escala para serem sustentáveis, algo que é inerente às políticas públicas, e ambos querem promover impacto social”, comenta Fernando Assad, criador do Programa Vivenda, e vencedor da categoria Empreendedor Social de Futuro.

O negócio social está instalado no Jardim Ibirapuera, na periferia de São Paulo, e visa desenvolver uma solução completa em reformas habitacionais que, de forma rápida e não burocrática, possibilita que o cliente possa, em até 15 dias, ter seu projeto elaborado e sua reforma pronta. A atuação acontece em quatro frentes: planejamento, material, mão-de-obra e crédito.

Há dois modelos de trabalho a ser desenvolvido: a reforma com subsídios, voltada à famílias com renda de zero a um salário mínino/mês, e o modelo no qual o morador paga 100% do trabalho, esse direcionado àqueles com renda de um a quatro salários mínimo/mês. Neste caso, é oferecido um parcelamento do valor.

Segundo o empreendedor social, a ideia é revolucionar o mercado de reforma, que é mal estruturado, mas tem um grande potencial, podendo ajudar, inclusive, a resolver o problema habitacional que o país enfrenta. “Hoje, o Brasil conta com políticas como o Programa Minha Casa Minha Vida, mas é focado na construção. Passou da hora de termos algo similiar para reformas, ou seja, uma solução mais abrangente para esse problema social”, comenta o administrador de empresas.

Para o empreendedor, é preciso olhar para este momento de crise pelo qual o país vive, como oportunidade para inovar cada vez mais. O próprio Vivenda, inclusive, já busca trazer aos moradores atendidos novos opções de crédito.

Outra novidade é a inserção na Broota, uma plataforma de investimento coletivo que conecta investidores com empresas inovadoras que buscam capital. O investimento coletivo, ou equity crowdfunding, é a oferta pública de valores mobiliários que uma empresa disponibiliza para um grupo de investidores por meio da internet. O investidor recebe, como contrapartida pelo capital aportado, uma participação acionária ou um título de dívida, que pode ser conversível em ações da empresa apoiada.

O Programa Vivenda já está aprovado para participar, mas estará disponível para receber aportes nas próximas semanas. “O ano de 2016 será essencial para consolidar o nosso modelo de negócio e, em 2017, começarmos a escalar”, comenta o empreendedor.

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