Empresas devem ter transparência como principal motivação para divulgar relatórios sociais

MÔNICA HERCULANO
Repórter do redeGIFE

Na última segunda-feira (5/9), em cerimônia na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), foram anunciados os vencedores do Prêmio Balanço Social 2005, promovido por Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), Instituto Ethos de Responsabilidade Social, Fides (Fundação Instituto de Desenvolvimento Empresarial e Social), Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial) e Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais).

Pela segunda vez, a Natura Cosméticos foi eleita Destaque Nacional, principal categoria da premiação. Também foram reconhecidas: Companhia Siderúrgica Nacional – CSN e Samarco Mineração (Região Sudeste), Companhia Energética do Ceará (Região Nordeste); Multibrás e Itautec Philco (Região Norte); Banco do Brasil (Região Centro-Oeste); Embraco (Região Sul); CPFL Energia (Região de São Paulo) e Grupo Skill (Micro, Pequena e Média Empresa).

Lançado em 2002, o Prêmio Balanço Social avalia especificamente o relatório anual produzido pelas empresas para mapear suas ações sociais. Neste ano, o processo contou com a auditoria da BDO Trevisan Auditores Independentes. “”Os relatórios de atividades e balanços sociais são muito importantes, pois são ferramentas de gestão da responsabilidade social empresarial. Eles ajudam a divulgar, acompanhar e lançar metas para as ações internas e externas da empresa””, afirma Ciro Torres, coordenador do Ibase.

Ainda assim, a VI Pesquisa Nacional sobre Responsabilidade Social nas Empresas, divulgada recentemente pelo Instituto ADVB de Responsabilidade Social, identificou que, das 2.819 empresas que responderam o questionário, 72% não publicam balanço social como forma de divulgar seus investimentos e despesas em programas sociais. “”Vivemos um processo de transformação gradual da sociedade e das empresas. A maioria ainda não percebeu a importância desta publicação, que traduz o posicionamento das empresas frente aos impactos de suas atividades no meio ambiente e sua visão em relação à comunidade com a qual interage””, afirma Lívio Giosa, diretor do Instituto ADVB e coordenador do levantamento.

Há países, como a França, em que a publicação do balanço social é obrigatória. Porém, a obrigatoriedade é questionada por especialistas. “”O processo tem que ser via conscientização e comprometimento com a informação. A obrigatoriedade facilitaria a dilapidação dos dados””, acredita Giosa.

Miguel Fontes, diretor da John Snow Brasil Consultoria, lembra que foi na área ambiental que a obrigação com o reporte social começou em diversos países. Em alguns casos, como na Alemanha, empresas que podem potencialmente gerar qualquer dano ao meio-ambiente são obrigadas por lei a demonstrar seus sistemas de compensação ambiental ou redução de emissão de carbono. “”Sendo assim, para causas específicas, como reposição ambiental ou investimentos em causas de grande magnitude, a obrigatoriedade pode ser positiva. Mas sem parâmetro pode resultar apenas em ′maquiagens′ e estratégias de doação de curtíssimo prazo””, afirma.

Alberto Augusto Perazzo, presidente executivo da Fides, conta que, em um primeiro momento, a obrigatoriedade foi positiva, pois exigia que as empresas apresentassem para consideração pública a forma de trabalhar nos domínios social e ambiental. “”Entretanto, com o decorrer do tempo e o excesso de regulamentação, a elaboração obrigatória do balanço social passou a ser um compromisso da área contábil, às vezes, da comunicação, e deixou de ser um documento elaborado pelo conjunto da empresa, com envolvimento de todos seus colaboradores.””

Uma empresa deve ter o livre arbítrio de escolher se deseja ou não comunicar seu investimento social ou sua preocupação com responsabilidade social. É o que defende Ricardo Voltolini, professor de marketing social da Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIA/USP), consultor de terceiro setor e diretor da revista IdéiaSocial. “”Se ela não tiver convicção de que o balanço social é um instrumento importante, se não cultuar a transparência, se não acreditar que a comunicação de suas ações adiciona valor no relacionamento com os stakeholders, então, o máximo que fará, obrigada por lei, é produzir relatórios vazios, com informações vazias, que não poderão ser checadas””, explica.

Voltolini entende que balanço social e relatórios de atividades são, sim, bons e necessários instrumentos de comunicação das ações sociais das empresas. Porém, eles serão mais ou menos eficazes quanto mais atingirem o resultado de comunicação esperado pela empresa com este tipo de documento. “”Se a empresa concentra, por exemplo, todas as suas expectativas de comunicação da ação social no balanço ou relatório, é provável que ele seja insuficiente””, afirma. Isso porque, segundo ele, um balanço social não se presta à comunicação em larga escala, nem para todos os públicos de interesse da empresa.

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