Empresas lançam Associação Movimento Mulher 360 para o empoderamento econômico feminino

Alinhada com os Princípios de Empoderamento da ONU Mulheres, acaba de ser lançada a Associação Movimento Mulher 360, que propõe uma visão 360 graus do empoderamento feminino, abordando a atuação das mulheres em todos os seus papéis.  A iniciativa é de 12 empresas: Bombril, Boticário, Cargill, Coca-Cola, DelRio, Diageo, Johnson & Johnson, Natura, Nestlé, PepsiCo, Santander, Unilever e Walmart.

A ideia é trazer ainda mais força para o Movimento Empresarial pelo Desenvolvimento Econômico da Mulher, que agora se torna uma instituição independente e com estrutura própria, na qual pautará suas ações em três frentes: mulheres nas empresas, na cadeia de suprimentos e inclusão social.

O MM360 foi fundado em 2011, a partir de uma iniciativa do Walmart Brasil que convidou organizações – entre empresas brasileiras e multinacionais, ONGs, entidades de classe, sociedade civil e o poder público – para fazer parte de um grupo que pudesse articular e mobilizar o setor produtivo para ações coordenadas visando a transformação na vida das mulheres. O Movimento tem atuado, a partir de Grupos de Trabalho, em quatro pilares – mulheres nas empresas, nas comunidades, na cadeia de suprimentos e imagens das mulheres na sociedade.

Agora, com a associação, a proposta é realizar atividades a serem organizadas em três pilares estratégicos: fomento, sistematização e difusão de práticas que permitam o avanço do desenvolvimento econômico feminino. Para isso, estão previstas ações como diálogos entre associados, café com CEOs, assessorias entre pares, divulgação de conteúdos, realização de eventos, criação de banco de boas práticas empresariais, além de publicações a respeito do tema e dos aprendizados adquiridos.

Oportunidades

Na abertura do evento de lançamento da associação, realizado no dia 08 de outubro, em São Paulo, Tatiana Trevisan, diretora da Associação Movimento Mulher 360 e gerente de Sustentabilidade do Walmart Brasil, falou sobre as diversas pesquisas que mostram os benefícios para as empresas ao garantir a igualdade de gênero. Estudos apontam que as companhias que têm mais equilíbrio de gênero nos cargos de liderança, alcançam melhores resultados e perfomance financeira.

Adriana Carvalho, assessora da ONU Mulheres, lembrou a importância em celebrar os avanços que as mulheres conquistaram nas últimas décadas, mas que é preciso atenção, pois o ritmo deste crescimento está muito lento. Hoje, 25% das mulheres ainda ganham menos do que os homens nos mesmos cargos e apenas 5% estão entre os principais cargos de liderança das grandes companhias. “Se mantermos esse ritmo iremos demorar mais de 80 anos para acabar com o gap de oportunidades entre homens e mulheres. Por isso, precisamos avançar em passos mais largos”, disse.

Adriana destacou ainda que, diante da complexidade que se apresenta essas questões, será preciso um engajamento e participação de todos os setores da sociedade – governos, empresas e sociedade civil – a fim de buscar soluções sistêmicas em diversas frentes.

“Uma delas é o empoderamento econômico e, por isso, as empresas são convidadas a olharem para dentro e para fora, garantindo maior comprometimento da alta liderança, promovendo saúde e bem-estar para suas funcionárias e influenciando a sua cadeia de suprimentos. Além disso, é preciso que elas tenham no seu investimento social um olhar também para a equidade de gênero, verificando se está estão impactanto homens e mulheres da mesma forma”, ressaltou a assessora da ONU Mulheres.

Jorge Abrahão, diretor-presidente do Instituto Ethos, destacou a importância do protagonismo das empresas em assumir essa agenda, agora também de forma coletiva, o que permitirá mais avanços no tema, que deve ser visto a partir de um senso de urgência, a fim de transformar o cenário atual, ainda marcado por muitas desigualdades.

Uma das ações concretas nesse sentido, inclusive, foi a criação dos Indicadores Ethos-MM360 para Promoção da Equidade de Gênero. A proposta é  estimular a promoção da diversidade com foco em equidade de gênero nas empresas, assim como oferecer orientação sobre como incorporar a questão de gênero nas práticas e estratégias de negócio e identificar boas que poderão ser replicadas.

Os Indicadores Ethos-MM360 para Promoção da Equidade de Gênero seguem a mesma ferramenta de autodiagnostico e a metodologia dos Indicadores Ethos. Composta por um questionário (publicação PDF) e um sistema on-line, oferecerá às empresas relatórios e funcionalidades que apoiam a gestão do tema pelas empresas e estimulam que estas deem transparência às suas práticas. Assim, os novos indicadores serão incorporados aos demais já existentes, com esse olhar focado na questão de gênero.

Além do questionário propriamente dito, as empresas terão, com a versão final dos Indicadores Ethos-MM360, um glossário com a definição dos principais termos, e instruções para apoiá-las na evidenciação das práticas.

Entre os 12 indicadores, há questões sobre estratégias da empresa em equidade de gênero, assim como em relação à gênero e governança; e o poder de influência na cadeia. “A aplicação dos indicadores pode contribuir, inclusive, na identificação de alguns tabus que podem estar prevalencendo na empresa. Assim, nesse processo, é possível a companhia efetivamente identifcar as questões mais recorrentes e promover mudanças”, disse Jorge.

Conquistas e desafios

Durante o evento, foi promovido também um painel com representantes de várias empresas participantes da associação, a fim de compartilhar suas experiências e discutir oportunidades para avanços na agenda.

Duda Kertész, presidente da Johnson&Johnson do Brasil, chamou a atenção da riqueza para as empresas em contar com a diversidade entre seus funcionários, a fim de garantir diferentes olhares e pontos de vista para as tomadas de decisões. Em sua avaliação, os resultados serão sempre melhores se houver esse equilíbrio entre as partes e a participação mais igualitária entre homens e mulheres. “Mas é preciso que as empresas garantam de verdade essa diversidade e em todas as instâncias de uma empresa. Não basta apenas, por exemplo, ter uma mulher em uma cargo de liderança sozinha”, ressaltou.

Fernando Fernandes, presidente da Unilever Brasil, pontuou também que essa nova postura das empresas permitirá uma nova cultura interna e relação mais sólida não somente com os empregados, mas com a sociedade, garantindo a disseminação de valores oportunos de equidade.

“É a diferença que vai possibilitar a mudança, o crescimento e uma sociedade melhor para todos. É preciso que esse olhar do diferente esteja sempre sobre a mesa”, enfatizou Vanessa Lobato, diretora de Recursos Humanos do Santander.

Há vários esforços das empresas no sentido de trazer a força de trabalho feminina. A DelRio, por exemplo, conta com 94% de mulheres em seu quadro de funcionários, assim como o Santander, que tem mais de 50% de funcionárias e a Unilever que chega aos 48%.

Outras práticas que vêm sendo tomadas pelas companhias é a definição de novos benefícios, como o projeto Mulher em Foco, da Bombril, no qual supervisores indicam mulheres que têm perfil de assumir cargos de destaque na companhia – hoje elas são 32% entre as lideranças; ou a extensão da licença paternidade para 15 dias da Johnson&Johnson, para que os homens possam estar mais próximos de suas companheiras nesse momento de mudança de vida.

Os debatedores lembraram ainda que, apesar dos esforços, é preciso superar algumas barreiras e resistências internas para que a equidade de gênero realmente se faça valer. Na percepção de Guilherme Loureiro, presidente e CEO do Walmart Brasil, é preciso um trabalho persistente para mudar visões, alterar as atitudes e disseminar boas práticas. “Hoje, os consumidores estão mais atentos ao que as empresas fazem e não apenas no que dizem fazer. Por isso, precisamos agir. Não há nada que nos impeça de mudar esse quadro de desigualdade de oportunidades o mais rápido possível”, pontuou.

Outra questão a ser superada, lembraram os empresários, é acabar com preconceitos estabelecidos, como a visão de que a mulher é menos preparada para assumir cargos de liderança, pois não conseguirá equilibrar vida profissional e pessoal.

“Vários estudos mostram que muitos destes preconceitos são invisíveis. Um exemplo é a escolha entre um currículo de um profissional homem, mesmo sendo igual ao de uma mulher, e justificar essa definição dizendo que ele tem mais potencial ou características de líder. O problema é que, em muitos casos, as pessoas não perguntam à mulher, se ela quer assumir um cargo de maior exigência e simplesmente assumem de antemão de que ela não vai dar conta. Hoje, custa muito mais para uma mulher conseguir avançar no mercado de trabalho do que um homem”, lembrou a presidente da Johnson&Johnson do Brasil, destacando a importância de iniciativas como treinamentos para transformar esse olhar, assim como a criação de programas que permitam, por exemplo, mais flexibilidade de trabalho de acordo com as especificidades e necessidades das mulheres.

Na avaliação dos debatedores, o MM360 tem, portanto, um papel fundamental para ajudar na mudança de status quo e disseminar as práticas e exemplos que vêm sendo desenvolvidos para inspirar novas ações e promover o aperfeiçoamento também do que já está sendo realizado.

“Nos próximos dez anos, 1 bilhão de mulheres vão entrar no mercado de trabalho. Por isso, precisamos avançar e levar esse debate para outros espaços e convencer as pessoas que ainda não pensam igual a nós”, lançou o convite aos presentes Fernando Fernandes.

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