Muito além do espetáculo, campos de futebol de várzea seguem mobilizando comunidades, fortalecendo vínculos, memória e organização coletiva e revelam um potencial ainda pouco reconhecido pelo Investimento Social Privado.
A Copa do Mundo de Futebol está próxima, e em um país onde o futebol frequentemente aparece associado ao alto rendimento, às cifras milionárias e disputas de audiência, outro jogo continua sendo disputado longe dos grandes estádios e das transmissões televisivas. Em campos improvisados, ruas fechadas, terrenos comunitários e periferias urbanas e rurais, a várzea segue mobilizando pessoas, fortalecendo laços e reafirmando uma dimensão do futebol que vai além do entretenimento: sua capacidade de produzir pertencimento, memória e coesão social.
Marianne Serra, coordenadora da Incubadora de Esporte e Cidadania no Instituto Formação, concorda com o escritor uruguaio Eduardo Galeano quando ele diz que “há alguns povoados e vilarejos do Brasil que não têm igreja, mas não existe nenhum sem campo de futebol”. Para ela, são esses campos espalhados, que formaram muitos atletas, contribuíram e ainda contribuem para o Brasil ser considerado o país do futebol.
“Da infância à idade adulta, tem sempre um grupo de amigos jogando, é o dia do encontro. O futebol se espalhou pela simplicidade dos insumos. Uma bola pode ser da Adidas, mas também pode ser feita por uma meia velha cheia de pano. Um campo, pessoas e uma bola. Todos podem participar.”
No entanto, a coordenadora, que também é formada em Educação Física, demonstra preocupação com o desaparecimento dos campos de várzea nas periferias das cidades, substituído por investimentos imobiliários e pela privatização crescente dos espaços públicos. “Em muitos casos o que passa a existir são as escolinhas onde o jogo passa a ser cobrado. O futebol está na alma do brasileiro, os espaços públicos e campos das comunidades precisam continuar.”
Luciano Jorge de Jesus, membro do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, alerta ainda para os diversos grupos que são afetados quando se perde esse espaço, como as mulheres e também a população LGBTQIA+. “Quando a gente tem um retrocesso da cidade em que a especulação imobiliária tenta decidir sobre esses espaços, e o futebol de várzea perde esse lugar, o futebol feminino também, em alguma medida, perde.”
Evecs
Se o futebol ocupa um lugar central na construção simbólica da identidade brasileira, é na sua expressão popular que esse vínculo se manifesta de forma mais potente. Nas cidades pequenas e nas periferias, ele permanece como espaço de sociabilidade e organização comunitária — uma dimensão que revela um campo fértil para o Investimento Social Privado (ISP) aprofundar sua atuação em estratégias de desenvolvimento territorial.
Para o jornalista e escritor Franciel Cruz, autor de Tá pensando que tudo é futebol?, é justamente a dimensão periférica que revela a essência social do esporte. “O futebol que essencialmente me interessa é o das cidades pequenas e das periferias. O sentido de comunidade, aquilo que mobiliza uma localidade e permite que as pessoas vivam suas paixões e desejos, é o que mais me comove.”
Segundo ele, cenas como finais de campeonatos amadores disputadas entre bairros sintetizam um tipo de vínculo coletivo que extrapola a competição esportiva, aparecendo como expressão coletiva da identidade brasileira.
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A força social da várzea está ligada à própria história de apropriação popular do futebol no Brasil. Introduzido inicialmente pelas elites no final do século XIX, o esporte foi progressivamente ocupado pelas classes populares, que o transformaram em linguagem coletiva e ferramenta social.
Para Franciel Cruz, essa trajetória ajuda a compreender o futebol como espaço de disputa simbólica e territorial.
“O futebol é o Brasil levado às últimas consequências. Ele expressa nossas contradições sociais, mas também essa luta constante de apropriação do território.”
A ideia de que o futebol seria apenas alienação, acrescenta, ignora sua potência. Embora parte da tradição crítica brasileira tenha associado o esporte ao “ópio do povo”, essa leitura desconsidera sua dimensão de mobilização popular. “O futebol também é espaço de luta pela democracia, não apenas no sentido formal, mas na garantia de dignidade, território e vida coletiva”, afirma o escritor.
Nesse sentido, Marianne Serra explica que há um grande espaço para ampliar a atuação do ISP. A coordenadora ressalta que muitas organizações no país têm desenvolvido estratégias e iniciativas de esporte que contribuem com o desenvolvimento de pessoas, transformam realidades e que chegam também em aldeias indígenas e comunidades rurais.
É o caso do Centro Esportivo Voluntário Educacional e Cultural da Sucupira (EVECS). Sediado na zona rural de Irará, cidade do interior da Bahia com cerca de 28 mil habitantes, o projeto foi criado em 1996 a partir de encontros informais entre crianças da comunidade. A iniciativa evoluiu para uma organização estruturada que hoje, apesar das dificuldades para se manter, atende mais de 150 crianças e adolescentes. “O objetivo passou a ser usar o futebol como ferramenta de construção cidadã”, explica o diretor presidente Geovanio de Cerqueira Damasceno.
Com atividades quatro vezes por semana, o projeto vai além dos treinos. Oferece apoio escolar, impressão de materiais para estudantes, acompanhamento das famílias e ações culturais, como uma quadrilha junina que mobiliza dezenas de participantes.
Segundo Geovanio Damasceno, os impactos aparecem rapidamente na convivência e no desenvolvimento social dos participantes. “As crianças melhoram a autoestima, tornam-se mais comunicativas, criam novas amizades e vínculos. Muitos querem passar o dia inteiro no projeto. São espaços que transformam vidas.”
A experiência evidencia como iniciativas ancoradas no esporte podem atuar simultaneamente em diferentes dimensões: educação, cultura, fortalecimento comunitário e prevenção de vulnerabilidades. “Muitas dessas crianças não têm um espaço adequado onde possam ser acolhidas. Em cidades pequenas, muitas vezes há pouco a oferecer. Por isso é tão importante investir em projetos assim”, reflete o diretor.
O Instituto Vini Jr. também aponta para esse potencial de articulação entre esporte, educação e transformação territorial. Para a organização, o futebol, por seu forte enraizamento na cultura brasileira, funciona como uma linguagem capaz de aproximar crianças e jovens dos processos de aprendizagem, desde que associado a metodologia e intencionalidade pedagógica.
O instituto afirma que o ISP tem papel estratégico para estruturar projetos, ampliar equipes e garantir continuidade às ações desenvolvidas nos territórios. “Quando existe compromisso de longo prazo com os territórios e com a educação, o esporte ganha ainda mais capacidade de gerar transformação social”, afirma o Instituto, que atua em escolas públicas com metodologias inspiradas no universo do futebol para fortalecer a aprendizagem, a formação de educadores e a valorização das comunidades escolares.
Instituto Vini Jr.
Apesar desse potencial, o futebol comunitário ainda recebe atenção limitada dentro das estratégias de investimento social. Dados do Censo GIFE 2024-2025 mostram que o esporte segue entre as áreas menos priorizadas pelo ISP, aparecendo em 17% dos focos de atuação.
Parte desse cenário reflete a forma como o esporte tem sido tradicionalmente mobilizado em diferentes estratégias institucionais, com maior concentração em iniciativas de ampla visibilidade ou voltadas ao desenvolvimento de atletas de alto rendimento. Essa lógica, embora legítima, frequentemente deixa em segundo plano iniciativas que operam como infraestrutura social dos territórios.
Para lidar com essa realidade, Marianne Serra destaca a importância de leis de incentivo, apoio direto e da ampliação de canais de diálogo entre os atores do setor para fortalecer iniciativas já existentes. Segundo ela, projetos do Instituto Formação, como Olimpíadas do Brincar ao Jogar e Escola de Mediação, contribuem para ampliar metodologias de ensino da educação física e do esporte nas escolas públicas, alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), embora outras iniciativas também possam ser desenvolvidas.
Entre elas, a coordenadora aponta a importância de apoiar o futebol feminino, que enfrenta ainda mais obstáculos na busca por recursos. “Investir no esporte, no futebol e em outras modalidades é fundamental não apenas como estratégia de fortalecimento cultural, de valorização territorial, de aprendizagem, mas também de saúde mental e desenvolvimento integral. É fundamental que o investimento social se amplie para apoio nesse campo.”
Para Luciano Jorge de Jesus, é importante que a atuação do ISP trabalhe em diálogo com o poder público, e com a construção de espaços democráticos para reinventar a vida na cidade. “É preciso lutar por políticas públicas de acesso ao lazer. Entidades do terceiro setor têm um potencial muito grande, que é o de reinventar a política. A questão é pensar em como ela vai ser. Porque tem como reinventar esse lugar enquanto mantenedor dos status quo, ou enquanto um lugar de reflexão e questionamento do modo como a cidade se configura”, finaliza.
Instituto Vini Jr.
autor de Tá pensando que tudo é futebol?
diretor presidente do Centro Esportivo Voluntário Educacional e Cultural da Sucupira (EVECS)
coordenadora da Incubadora de Esporte e Cidadania no Instituto Formação
Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO
Geovana Miranda
ANALISTA DE COMUNICAÇÃO
Afirmativa
REPORTAGEM/TEXTO
Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO