Especialistas convocam a filantropia para um novo posicionamento frente às desigualdades globais

 

Mais do que apenas investir em projetos ou ações pontuais de interesse público, mas se engajar, propor e incidir em questões que são de fatos estruturantes para reverter a crise da desigualdade global, que está chegando a novos extremos.

Esse foi o desafio lançado às instituições filantrópicas durante o último debate online promovido pelo GIFE, no dia 23 de fevereiro, sobre o tema “Filantropia e Desigualdade”. O encontro foi um aquecimento para a conferência especial sobre este tema que acontecerá no 9ºCongresso GIFE, com a presença de Darren Walker, presidente global da Fundação Ford.

Mediado por Andre Degenszajn, secretário-geral do GIFE, o debate contou com a presença de Nilcea Freire, representante da Fundação Ford no Brasil, e Katia D. Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil: duas organizações globais que têm se debruçado intensamente sobre o tema e lançado novas reflexões sobre a forma da filantropia atuar diante de um cenário global cada vez mais chocante.

Dados do relatório da Oxfam “A Economia para o 1%”, apresentado no Fórum Econômico Mundial, em Davos, mostram que, em 2015, apenas 62 indivíduos no mundo todo detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões de pessoas – a metade mais afetada pela pobreza da humanidade.

Além disso, a riqueza destas 62 pessoas mais ricas – sendo que 53 eram homens – aumentou em 44% nos cinco anos decorridos desde 2010 – o que representa um aumento de mais de meio trilhão de dólares (US$ 542 bilhões), que saltou para US$ 1,76 trilhão. Ao mesmo tempo, a riqueza da metade mais pobre caiu em pouco mais de um trilhão de dólares no mesmo período – uma queda de 41%.

“Para todo lado que olhamos no conjunto dos números, vemos que estamos diante de uma tendência muito preocupante. Como podemos conviver com o fato de existir 3,6 bilhões de pessoas nesta situação de pobreza, muitas sem acesso à alimentação, saúde e educação? Isso é inaceitável numa sociedade do século XXI. É a hora de nos unirmos e buscarmos um novo caminho para a nossa sociedade, pois não é um problema de indivíduos, mas de sistema”, convocou Katia D. Maia.

No debate, a diretora da Oxfam destacou quatro linhas de tendências a respeito das desigualdades globais. A primeiras delas é a relação do capital e o retorno do trabalho. Isso significa que os trabalhadores, atualmente, ganham muito menos do que os donos do capital, que veem seus investimentos rendendo a uma taxa mais acelerada do que as economias. Hoje, quem ganha mais, paga menos impostos.

Ainda no mundo do trabalho, mais uma tendência diz respeito à distância entre o ganho do trabalhor e das lideranças das empresas. Segundo o levantamento da Oxfam, enquanto os salários médios ficaram estagnados, os salários dos executivos aumentaram 54%. O diretor executivo de uma grande empresa da Índia, por exemplo, ganha 400% a mais do que um funcionário médio da mesma empresa.

Outra tendência diz respeito à captura política, ou seja, a relação que existe entre o grande poder econômico e a influência que exercem sobre as decisões que são tomadas no âmbito político. E, por fim, a tendência que vem sendo observada nos últimos anos, que diz respeito aos paraísos fiscais e operada à favor dos mais poderosos. De acordo com o documento da Oxfam, ao analisar as 200 empresas do mundo que são parceiras do Fórum Econômico Mundial, nove de cada 10 está em paraíso fiscal.

Diante destas constatações, a organização indicou algumas propostas e recomendações, que foram apresentadas durante o debate por Katia. Entre elas está a importância de se garantir melhores salários e a diminuição das bonificações para os executivos das empresas; promover a igualdade econômica e os direitos das mulheres, eliminando as diferenças salariais por gênero; o fim do financiamento das campanhas políticas pelas empresas; e a definição de uma carga tributária mais justa, diminuindo a carga em trabalho e consumo e aumentando sobre riqueza e capital.

A Oxfam, inclusive, está fazendo uma mobilização global de uma petição a ser apresentada à ONU em setembro, para por fim à era dos paraísos fiscais, propondo, inclusive, a criação de um órgão internacional para monitoramento, a fim de que exista transparência e as análises incluam os impactos sociais deste capital.

“Se o volume do que foi direcionado aos paraísos fiscais fosse investido em iniciativas estruturantes, por exemplo, seria possível enfrentar a pobreza mundial”, comentou.

Novos rumos

Nilcea Freire ressaltou o fato de que, até o momento, não foi possível avançar e as desigualdades se aprofundaram ao longo das décadas.

“Temos a consciência de que é preciso mobilizar esforços não só do ponto de vista financeiro, mas do ponto de vista intelectual de ampliação da solidariedade, de maneira que, ao entender que estamos num mundo tão desigual, possamos contribuir nessa mobilização global em combate às desigualdades”, disse.

Por isso, a Fundação Ford – criada há 78 anos, sendo que está há 53 no Brasil – tem redefinido sua estratégia de atuação nos 10 escritórios ao redor do mundo – instalados na Ásia, África e América Latina – para contribuir, enquanto fundação filantrópica, na redução ou eliminação das desigualdades estruturais no mundo. (leia matéria completa no site do GIFE sobre o novo posicionamento da Fundação).

“É preciso clareza de que estamos falando das diferentes dimensões da desigualdade e dos diversos determinantes que a conformam. Sem tocá-los não vamos avançar. E isso significa que precisamos reconhecer que as desigudaldes são determinadas por raça e gênero, por exemplo, e que elas estruturam as demais dimensões da desigualdade. Da mesma maneira, precisamos tocar em questões como o sistema tributário, de como operamos o capital etc”, disse.

O secretário-geral do GIFE relembrou, inlcusive, o recente artigo  de Darren Walker publicado no “The New York Times”, no qual defendeu a ideia de que não basta retribuir à sociedade, mas é preciso combater as causas estruturais das desigualdades. Em outras palavras, a filantropia não pode mais lidar simplesmente com o que está acontecendo no mundo, mas também deve questionar a forma como isso vem acontecendo e o porquê.

A partir desta perspectiva, Nilcea ressaltou a importância da filantropia em influenciar as políticas públicas para mudar realmente o cenário da desigualdade no mundo. “Não serão os 10 mil doláres investidos aqui ou lá que venham da filantropia que irão mudar o quadro de desigualdades. Prova disso é que o Brasil pode avançar do ponto de vista da redução das desigualdades nos últimos 20 anos por meio das políticas que tinham como foco os indivíduos que vivem em pobreza extrema ou em pobreza”, enfatizou.

Entre as políticas de destaque estão às ligadas ao incremento real do salário mínimo, à taxação de grandes riquezas, àquelas ligadas à redução da desigualdade de gênero e racial, por exemplo. “Sem um arcabouço de políticas públicas que foquem nas populações sub-representadas ou aquelas que estão fora do contexto da distribuição permanente de renda, não vamos conseguir mudar este quadro”, disse Nilcea.

Papel da filantropia

Mas, de que forma então a filantropia pode contribuir para alterar este cenário? Na visão da diretora da Oxfam, as instituições podem investir em advocacy, assim como em organizações e movimentos que estão buscando enfrentar as desigualdades estruturantes da sociedade.

Outra iniciativa é ajudar os cidadãos a compreenderem essa temática, mobilizando mais instituições e pessoas para a realizações de ações efetivas.

“É preciso mostrar à sociedade de que há caminhos para sairmos desta situação e que é possível por fim às desigualdades. O empoderamento das comunidades é fundamental, assim como a concretização de políticas, que devem ser de Estado e não de governo, e defendidas pelo conjunto da sociedade”, ressaltou Katia.

Darren Walker falará mais sobre o papel da filantropia no 9º congresso gife:

 

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