Estudo da Pipe.Social mostra o que investidores consideram relevante na hora de apoiar um negócio de impacto

Como os investidores de impacto avaliam os negócios e o que buscam em empreendedores e soluções? Essas foram algumas perguntas que o Scoring de Impacto, nova publicação da Pipe.Social, procurou responder. 

A iniciativa, que contou com patrocínio de Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, Itaú e Instituto Renault, partiu do fato de que, apesar de haver financiamento disponível para negócios de impacto, muitos empreendedores ainda não conseguem acessar o recurso, segundo mostraram a primeira e segunda edição do Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental no Brasil, ambos de autoria da Pipe. 

O estudo ouviu 15 investidores e 36 negócios para analisar o setor, listar 22 indicadores utilizados por investidores na hora de avaliar um negócio para investir, detalhar os mecanismos de investimento mais utilizados e as cinco etapas do percurso dos investidores na hora de escolher um negócio de impacto. 

Para entender como o conteúdo pode apoiar a jornada de amadurecimento de empreendedores e negócios, o redeGIFE conversou com Mariana Fonseca, cofundadora da Pipe.Social. Confira a seguir. 

 

redeGIFE: Por que a Pipe achou relevante realizar um estudo sobre os critérios levados em consideração pelos investidores em negócios de impacto? 

Mariana: Hoje, temos quase quatro mil negócios cadastrados na base da Pipe. Os empreendedores sempre perguntam ‘por que eu não consegui um investimento?, ‘por que eu não fui escolhido em um processo de aceleração?’. Parte do nosso exercício é tentar ajudá-los na busca dessas respostas para que possam melhorar suas métricas e entregas e, assim, ter mais chances de escalar a solução e, consequentemente, atingir o impacto pretendido. Quando começamos a receber muitos questionamentos como esses, pensamos que era a hora de procurar entender quais são as métricas usadas atualmente para avaliar se um negócio é bom ou não para investimento. 

redeGIFE: Quais são os principais achados do estudo? 

Mariana: Pela primeira vez, fizemos um compilado do perfil desse investidor de impacto e conseguimos entender quais são as oportunidades que eles veem no mercado e quais são os drives de investimento. Por isso, construímos uma régua do 2,25 até o 2,75 para ilustrar  esses diferentes perfis de investidor. O investidor que vem do mercado mais tradicional é o 2,25. Ele vê uma oportunidade de investir em impacto, o que é ótimo, além de trazer recursos para o setor, mas com uma exigência de escalabilidade e tecnologia do setor 2. O 2,75 é o investidor que está com muito foco em fomentar o setor. Por isso, talvez ele tope não ter o retorno financeiro alto, mantendo ao menos a sustentabilidade financeira do negócio. Já o 2,5 são os investidores de impacto que estão muito alinhados na construção desse equilíbrio ideal, exigindo o mesmo grau de foco no negócio e no impacto socioambiental. Além disso, o compilado de 22 indicadores que os investidores olham na hora de investir em um negócio de impacto pode ajudar o empreendedor a se autoavaliar e a pensar como melhor se estruturar para captar. 

redeGIFE: Como os negócios podem usar as informações do Scoring na busca por investimento? 

Mariana: Primeiro, eu acho que tem essa questão de entender os investidores, suas expectativas, demandas e pontos de tensão, para que o empreendedor esteja preparado durante as conversas e tenha mais de linguagem desse mercado, além de estofo para negociar e ter uma conversa mais horizontal, com compreensão dos processos. O ruído de comunicação é sempre desafiador nessa relação entre investidor e empreendedor. Além disso, com as métricas, acredito que tem um grande serviço para os empreendedores. É necessário entendê-las, ou seja, saber o que significa uma governança ou gestão financeira bem feita, por exemplo. 

redeGIFE: Os investimentos são sempre necessários?

Mariana: Os investidores precisam parar de olhar para o investimento como algo milagroso e entender se há uma demanda real de investimento, ou se não conseguem seguir sem o dinheiro, o que, em alguns casos, pode ser uma melhor opção. E, se realmente existe a demanda, entender a que vem esse dinheiro, para onde ele deve ir e como vai ajudar na estruturação do negócio. 

redeGIFE: Com base nesse e em outros estudos da Pipe, você acredita que falta conhecimento por parte dos empreendedores dos desejos e expectativa dos investidores? 

Mariana: Antes de sair ‘pedindo café’ para conversar com investidores, é muito importante pesquisar e entender quais são as teses desse investidor, as áreas de impacto que ele está olhando, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em que ele atua, a quais áreas ele tem recursos destinados e como tudo isso se encaixa com a solução proposta pelo seu negócio. Conhecer o outro lado economiza muita ‘bateção de porta errada’. Além disso, é preciso ter muito claro como o core business do seu negócio resolve um problema social e ambiental, pois os investidores vão cobrar.  

redeGIFE: A alta expectativa e o sentimento de frustração dos investidores são apresentados no estudo como recorrentes quando entram em contato com os negócios de impacto do país. Nesse cenário, é possível apontar um principal desafio para que investidores e empreendedores estejam, de certa forma, ‘na mesma página’? Você avalia que é necessário um ‘ajuste’ de expectativa? 

Mariana: Os investidores precisam ter olhar para o global e o local ao mesmo tempo,  têm que ser ‘glocal’. Isso significa que eles precisam ter essa visão de investimento, seja de impacto ou do universo de investimento tradicional, mas devem ‘tropicalizar’ isso, considerando a realidade do Brasil, o estágio de evolução dos negócios, o nível do desafio burocrático e governamental, por exemplo, e muitas outras questões. Isso vai evitar que tenham a expectativa de encontrar negócios prontos. Em muitos casos, eles vão precisar colocar a ‘mão na massa’ em áreas como governança, gestão e métricas de impacto.  

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