Evento aponta oportunidades para promoção da igualdade de gênero

Com o objetivo de detectar oportunidades para a promoção da igualdade de gênero, cerca de 200 pessoas se reuniram durante a atividade paralela do 7º Congresso GIFE, “Construindo novas pontes: O Feminino, as questões de gênero e o investimento social privado”, que ocorreu no dia 27 de março. Agora, o Instituto Avon, Childhood Brasil, Fersol, Fundação Ford, Fundação Orsa, Fundo Elas, Instituto Lojas Renner e Instituto Walmart, que se uniram para promover o encontro, lançam a sistematização do debate que contou com lideranças nacionais e internacionais.

Entre as sugestões propostas figuram o apoio a projetos focados na educação de meninos e na inclusão dos homens como agentes de transformação sociocultural. “O homem não é o inimigo da igualdade de gênero, mas fruto de um caldo de cultura calcado em clichês sobre o feminino e o masculino no qual todos nós estamos navegando”, afirmou Carlos Zuma, do Instituto Noos. Zuma participou da mesa Gênero e a Dimensão Masculina, uma das sete mesas temáticas em torno das quais se reuniram os participantes no período da tarde.

Palestras
A abertura ficou a cargo de Fernando Rossetti, secretário-geral do GIFE, que classificou o painel como “histórico”, além de declarar que políticas públicas mais consistentes têm colaborado para o crescimento dessa agenda no Brasil. Depois foi a vez da ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) e atual representante da Fundação Ford, Nilcea Freire, apresentar as primeiras palestrantes do dia. Lydia Alpizar, CEO da AWID (Associação Desenvolvimento e Direitos das Mulheres), e Rebecca Tavares, da ONU Mulheres, forneceram o contexto global da questão de gênero. Lydia Alpizar apresentou os resultados inéditos de uma pesquisa da AWID sobre a situação atual e as tendências de financiamento para organizações de mulheres em todo o mundo.

O estudo demonstra que, principalmente em função da crise financeira no hemisfério norte, os investimentos diminuíram. Por outro lado, o número de doadores individuais, especialmente em países de economias emergentes, aumentou entre 2006 e 2010. “Na Índia, por exemplo, os recursos duplicaram e quatro entre os 10 maiores doadores são mulheres”, disse. Brasil, índia, Coréia do Sul e Turquia figuram entre os países onde houve aumento significativo do investimento social privado nos últimos 10 anos. Entre as principais tendências estão o investimento em projetos voltados ao “empoderamento” de meninas e mulheres.

Igualdade e crescimento
Rebecca Tavares argumentou que o Brasil, que vem aumentando sua participação em espaços de governança global, precisa trabalhar com mais afinco a questão da igualdade de gênero. “O país, que ainda enfrenta sérios problemas de diferença de sexo, raça e etnia, investe apenas 0,004% do PIB em projetos voltados a esses temas”, disse. Para a sexta economia do mundo, que deve chegar a quinta até o final deste ano, abrir mão das competências femininas é um risco. “Há estudos que comprovam que a eliminação de barreiras contra a mulher, em certos setores, provocou um aumento de 25% na produtividade em vários países”, disse, conclamando empresas, países e sociedade a partilharem responsabilidades para que essa transformação ocorra.

A necessidade de ocupar mais espaços de poder foi um dos temas da palestra de Tatau Godinho, subsecretária de Planejamento da Secretaria de Políticas para as Mulheres. “Ou mudamos a legislação para garantir a eleição de mais mulheres ou não vamos inverter o patamar de discriminação. Precisamos de mulheres nas câmaras e no Congresso, para aprovar leis que mudem esse cenário”, disse. Ela falou, ainda, da urgência em responsabilizar também os homens pela execução de tarefas cotidianas. “Está comprovado que mulheres com filhos e marido dedicam mais tempo às tarefas domésticas do que aquelas sem marido e com filhos. Por isso, medidas como licença paternidade e construção de creches são essenciais. Não existe autonomia feminina se não tiver quem cuide das crianças”, frisou.

Jorge Lyra, do Instituto Papai, que atua em Pernambuco, com ramificações por todo o Brasil, expôs sua visão inovadora: “O problema não são as desigualdades, mas fazer todo um trabalho que nos impeça de cair na equação fácil do ‘coitadinho do homem` ou ‘as culpadas pelo machismo são as mulheres, que educam esses homens´”.

Michael Michael Haradom, presidente licenciado da Fersol – uma das primeiras empresas brasileiras a conceder licença paternidade – disse que o mundo “está turbinado de testosterona e precisa de estrogênio para seu equilíbrio. Precisávamos voltar 10 mil anos atrás, para a sociedade matrística, acolhedora, colaborativa.”

Ideias e oportunidades
Olga Corch, do Instituto Avon, abriu os trabalhos do período da tarde. Os participantes se reuniram em sete mesas para discutir e apresentar sugestões para o avanço da questão de gênero no país. Abaixo, algumas das conclusões do encontro:

• JOVEM – É preciso atrair o jovem para o trabalho de reflexão e ação sobre o tema e investir no protagonismo juvenil. Trocar o ‘legislar pelo jovem’ pelo ‘legislar COM ele’ e usar linguagens e meios de comunicação com os quais o jovem se identifique.

• RECONHECIMENTO – Criação de um selo de certificação a ser concedido a empresas que promovam a igualdade de gênero e os direitos humanos. A sociedade fiscaliza e contribui, dando visibilidade às empresas certificadas e não consumindo produtos e serviços das empresas sem selo.

• DESENVOLVIMENTO FEMININO – As empresas devem capacitar as mulheres como agentes impulsionadoras do desenvolvimento sustentável e usar sua capilaridade na multiplicação da mensagem do consumo sustentável. A cadeia de valor deve ser envolvida nesse esforço pela sustentabilidade e pelo desenvolvimento econômico da mulher.

• ESFORÇO COLETIVO – As empresas, tal como o Estado e o conjunto da sociedade, devem se mobilizar para resolver a principal equação impeditiva da igualdade de gênero: a mulher ainda acaba sendo a principal responsável pelo cuidado com os filhos, com a casa, com os enfermos. Só quando os homens também compartilharem essas tarefas, as mesmas condições estarão disponíveis para que homens e mulheres convivam nos mesmos espaços de poder.

• REFERÊNCIAS – Criação de um banco de dados com indicadores sobre os bons retornos do investimento em mulheres. Uma forma de prover as mulheres de autonomia financeira é capacitá-las a formatar projetos que as tornem empreendedoras, fornecendo a elas assessoria em todas as fases de formalização da nova empresa.

Todas essas reflexões serão encaminhadas ao grupo de organizações que promoveram o painel. A riqueza do que foi discutido no encontro passará a permear, a partir de agora, as discussões dos investidores sociais privados. A idéia é ampliar o leque de critérios disponíveis para a escolha de projetos a serem privilegiados com recursos.

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