Filantropia empresarial: “Se preocupar com o impacto é necessário para a regeneração da humanidade e do planeta”, defende especialista

Frente à pandemia que marcou o ano de 2020 no Brasil e no mundo, ganhou força o debate sobre o papel das empresas para além da geração de emprego e renda, movimentação da economia e pagamento de impostos.

O conceito de responsabilidade social ganha um novo significado, que supera as relações entre empresas, funcionários, fornecedores, comunidades e outros stakeholders e, até mesmo, ações de minimização de impactos negativos no meio ambiente, como utilização de matérias primas e recurso naturais ou emissões de dióxido de carbono em cadeias logísticas, entre tantos outros.

Frente à crise global gerada pela disseminação da Covid-19, esses desafios foram potencializados e muitas empresas deram início a um amplo movimento de doação, inovação e colaboração para responder aos efeitos da pandemia.

Esse cenário foi o ponto de partida do painel Empresas e Sociedade: propósito, impacto e a busca por novos paradigmas, realizado em agosto de 2020, como parte do trilho de atividades do 11º Congresso GIFE.

Para aprofundar esse debate, o redeGIFE entrevistou Francine Lemos, diretora executiva do Sistema B Brasil e especialista nas áreas de desenvolvimento de negócios, marca e cultura organizacional.

Conceitos como filantropia empresarial, ESG (Environmental, Social and Governance) e responsabilidade social, além do papel das empresas frente à uma das maiores crises sanitárias da história recente foram alguns dos pontos explorados pela especialista.

Confira a entrevista na íntegra.

redeGIFE: O que está por trás do conceito de filantropia empresarial?

Francine: Qualquer iniciativa de impacto socioambiental que não vise o lucro e não tenha uma relação direta com a atividade da empresa – ou seja, toda ação que a empresa resolva fazer sem esperar nada em troca. É importante frisar que responsabilidade social e filantropia são coisas distintas. Responsabilidade social se refere à avaliação do impacto das atividades da empresa nas comunidades com as quais se relaciona de alguma maneira.

redeGIFE: Como o conceito de ESG, bastante repercutido no universo dos investimentos de impacto e no campo do investimento social privado e da filantropia, se relaciona com a filantropia empresarial?

Francine: Ambos compartilham o viés do impacto socioambiental. Porém, possuem objetivos e aplicações distintas. O ESG representa um conjunto de valores e critérios éticos que uma companhia desenvolve com o objetivo de melhorar suas práticas ambientais, sociais e de governança. Ele também é usado como um critério para investimentos. Empresas atentas aos critérios ESG que se comprometem com as melhores práticas de gestão passam a ter uma operação mais sustentável em diversos aspectos – incluindo o econômico e a gestão de riscos – e, como consequência, geram resultados melhores ao longo do tempo.

redeGIFE: Que papel ganharam as empresas frente à maior crise sanitária da história recente e que oportunidades devem ser vislumbradas pelo mundo dos negócios para aprofundar sua interface com a defesa de causas sociais e ambientais?

Francine: Sem dúvida alguma, a crise ocasionada pela pandemia do coronavírus nos fez ver que o atual sistema econômico, baseado somente no lucro, não é mais uma realidade possível. Mais do que os resultados financeiros, as empresas precisam estar atentas ao impacto que causam no mundo, mitigando danos ambientais e sociais. Não é um discurso vazio para vender produtos ou atrair investidores: se preocupar com o impacto é necessário para a regeneração da humanidade e do planeta.

redeGIFE: Como o investimento social privado pode contribuir com a criação ou ampliação de pontes entre as empresas e temas como mudanças climáticas, Amazônia, equidade racial e de gênero e tantos outros que ganharam ainda mais notoriedade frente à pandemia?

Francine: Não podemos depender única e exclusivamente das esferas governamentais para que haja mudanças. Não há braços e força suficiente para isso. É preciso que o empresariado se mobilize, aponte caminhos e suporte essa ideia para que possa ser absorvida pela sociedade de maneira clara.

redeGIFE: Qual é o papel da sociedade civil nessa interlocução de empresas com o campo socioambiental?

Francine: 2020 foi um ano em que pudemos comprovar a força da união pela busca de novos caminhos e na pressão por mudanças. Estamos vendo pressão de todos para que o modelo atual seja revisto, para que a degradação ambiental seja parada de alguma maneira. E no atual modelo econômico, a sociedade civil é também formada por consumidores e formadores de opinião. Eles querem mudança, querem acreditar em um futuro possível e as empresas já perceberam que se a mudança não vier, vão perder clientes e vendas. São essas mesmas pessoas que elegem líderes ao redor do mundo e vão cobrar também por medidas mais efetivas.

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