Fundações comunitárias estimulam uma filantropia estratégica

Rodrigo Zavala

Com mais de 15 anos de experiência no terceiro setor, Candace “”Cindy”” Lessa, já foi representante da Ashoka para o Brasil e o Uruguai até meados da década de 90 e depois passou vários anos prestando serviços de consultoria a organizações, como a MacArthur Foundation, a Levi Strauss Foundation. Hoje é a diretora do Synergos Institute no Brasil, uma das organizações internacionais independentes mais importantes quando assunto é a busca de soluções efetivas, sustentáveis e de base local para a redução da pobreza no mundo.

Em entrevista ao redeGIFE, um dos destaques da programação do 4º Congresso GIFE sobre Investimento Social Privado, Cindy, traz um panorama sobre a difusão do modelo de fundações comunitárias no Brasil, e defende que esse tipo de organização pode levar recursos a regiões que eles ainda não chegam.

Segundo ela, o modelo faz chegar recursos a organizações que trabalham em desenvolvimento local de uma forma que ninguém mais faz e estimula as pessoas a investirem através desse mecanismo em diversas áreas.

As organizações filantrópicas comunitárias começaram a se multiplicar pelo mundo nos últimos anos. As fundações comunitárias, que tiveram origem na América do Norte, são um bom exemplo. Há vinte anos, havia menos de 400, localizadas exclusivamente nos Estados Unidos e Canadá.

As estimativas mais recentes são de que existem 1.175 em todo o mundo, quase 30% localizadas em 44 países, fora dos Estados Unidos e Canadá. Além disso, os números estão crescendo a uma velocidade muito maior fora dos Estados Unidos do que nesse país.

redeGIFE – As fundações comunitárias começam a se multiplicar pelo mundo, sendo consideradas o tipo de organização social que mais cresce no mundo. Como esse movimento chega ao Brasil?

Candace Lessa – O modelo de fundação comunitária pode vir a servir a dois propósitos: por um lado, estimular uma filantropia estratégica e, por outro, como uma forma de fazer os recursos chegarem a lugares que ainda não chegam. Então, uma fundação comunitária que trabalha em uma determinada região precisa ser plural. Precisa representar essa comunidade, já que ela pode enxergar e fazer investimentos nessa comunidade de uma forma mais independente.

Em um resumo simples: fazer chegar recursos a organizações da sociedade civil que trabalham em desenvolvimento comunitário local de uma forma que ninguém mais faz e, de outra, estimular as pessoas para que elas invistam através desse mecanismo em diversas áreas.

redeGIFE – E como está a difusão desse conceito aqui no país?

CL – Ainda está muito incipiente, porque existem apenas dois modelos até agora. Embora existam organizações que se assemelham a fundações comunitárias, cientes dessa denominação são apenas duas: uma no Rio de Janeiro e outra em Santa Catarina.

A de Florianópolis, iniciada agora com a liderança de Lucia Dellagnelo (presidente do Instituto Comunitário da Grande Florianópolis), envolve todo a comunidade e tem ensinado o conceito. Assim, tenta criar esses recursos sustentáveis para o desenvolvimento lá de Florianópolis.

O outro exemplo é o Instituto Rio, que já tem uma vivência mais longa. E o modelo do instituto vem funcionando muito bem, como um articulador de diferentes grupos na zona Oeste da cidade. A iniciativa tem conseguido articular uma rede enorme de organizações sociais que trabalham dentro da comunidade, capacitar essas organizações, conseguindo recursos para desenvolver esse conceito de fundações comunitárias.

redeGIFE – Eles podem servir como referência, então?

CL – Aos poucos, o conceito está ′sangrando′ na consciência de diferentes pessoas. Como é um conceito novo, precisa de ter um ′campeão′, como se diz em inglês, que tenha esse conceito, identifique os parceiros idéias, e implemente isso com a intenção de criar e mobilizar recursos para aquela comunidade.

redeGIFE – E campeão nós podemos definir como…

Como lideranças sociais.

redeGIFE – Então faltam lideranças ou falta conhecimento para a multiplicação dessas fundações?

CL – São várias coisas. A primeira é: onde houve a disseminação do conceito, houve um empurrão de algumas fundações para que isso acontecesse, aliado a um interesse por parte de algumas lideranças de usar esse conceito em prol do desenvolvimento local. No Brasil ainda não houve esse investimento.

Em segundo lugar: é um conceito que embora seja o modelo filantrópico que mais cresce no mundo, na realidade, é recente. As pessoas ainda não conhecem o que é uma fundação comunitária.

No Brasil, por exemplo, vê-se a fundação comunitária como um mecanismo de filantropia mesmo, de investimento social privado, conceito que também é ainda muito novo no país e que teve a sua forma de desenvolvimento diferenciada. O ímpeto e a energia da responsabilidade social coorporativa desenvolveu a nossa forma de investimento social privado. Não foram as famílias que criaram organizações, nos foram os indivíduos com suas ações.

Apenas agora o modelo é que o conceito está pousando no Brasil com alguma promessa de ser útil para o desenvolvimento do país.

redeGIFE – E em relação ao arcabouço legal para essa prática. Existe alguma inadequação legislativa para o seu desenvolvimento?

CL – Eu acho que toda a infra-estrutura para o terceiro setor tem aspectos que vão além do marco legal. E esses outros aspectos, eu acho, estão ligados à maturidade do terceiro setor, que está vindo à tona. O marco legal deve seguir as demandas da sociedade civil, e não determina-las a priori

A necessidade de se pensar a sustentabilidade de organizações, por exemplo. Muitas organizações importantes, as maiores, estão desenvolvendo mecanismos de criação de um fundo patrimonial, campanha de membros. Essa iniciativa está evidenciando uma necessidade de se criar mecanismos de repasses de recursos de indivíduos de família de entidade e empresas de uma outra forma.

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