GIFE lança pesquisa sobre investimento social familiar no Brasil

Quem são os investidores sociais familiares? O que fazem? Quais são seus desafios? Essas são algumas das perguntas que nortearam a pesquisa “Retratos do Investimento Social Familiar no Brasil”, que acaba de ser lançada pelo GIFE, com o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e do Banco J.P. Morgan.

Beatriz Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho de Governança do GIFE, abriu o encontro de lançamento da publicação – realizado no dia 26 de novembro, em São Paulo –, destacando que a instituição tem feito um esforço cada vez maior, nos últimos anos, em fortalecer os investidores sociais familiares e, o estudo, vem ajudar a conhecer com mais detalhes as peculiaridades deste campo, as formas específicas de investimento, a sua governança e a relação com as causas em que atuam.

O número de associados familiares no GIFE, inclusive, dobrou nos últimos cinco anos – passando de oito, em 2008, para 21, em 2015. Os motivos para essa ampliação têm relação com o aumento do número de famílias de alto poder aquisitivo no Brasil; a abertura de capital de grandes grupos empresariais familiares; e o contexto político do país que exige maior contribuição social privada.

“O GIFE colocou na sua visão 2020 a intenção de fortalecer e aumentar a diversidade de investimento social, e o familiar é muito relevante nesse sentido. Sabemos o quanto o investimento social familiar tem mais autonomia e, num momento de crise como o que estamos vivendo, em que corporações estão tendo dificuldade em tomar decisões, as famílias e as organizações ligadas a elas têm um papel muito importante”, disse Beatriz.

Renata Cavalcanti Biselli, do Banco J.P. Morgan, ressaltou também a relevância da pesquisa no sentido de trazer mais clareza sobre a forma de atuação destes investidores e que as informações do estudo poderão também motivar outras famílias a entrar neste campo ao se identificar com as causas. “Trata-se de um material muito valioso para ser compartilhado. Queremos dar continuidade à pesquisa com mais famílias participando”, ressaltou.

Panorama

O estudo é resultado de 23 entrevistas (17 associados e seis não associados) realizadas com integrantes das famílias que lideram as organizações (de diversas gerações). Os investidores familiares foram definidos por critérios de: governança, origem do recurso e autodefinição. Foram utilizados também dados secundários, como o próprio Censo GIFE, para dar embasamento às conversas.

Durante o encontro de lançamento, foram apresentados os principais achados do estudo. Percebe-se que as organizações familiares são lideradas por patriarcas, muitos dos quais são bilionários e fi­zeram fortuna no industrial (35%) e ­financeiro (30%). “Vimos que muito mais do que o investimento financeiro nas atividades, eles dedicam uma parte signi­ficativa de seu tempo em atividades de representação e de articulação e têm seus herdeiros diretos na liderança das organizações familiares”, comentou Andre Degenszajn, secretário-geral do GIFE.

O total investido pelos entrevistados em 2014 foi na ordem de R$ 333 milhões, com uma mediana de R$3 milhões, sendo que 39% vinculam o orçamento a um percentual do patrimônio/renda e a orientação religiosa favorece a doação de um percentual fixo.

Quando questionados sobre o que os faria doar mais, a pesquisa identificou uma composição de motivações de natureza distintas, como “sentir que o trabalho está tendo impacto”, “ter certeza de que o dinheiro está sendo bem empregado”, “acabar com o preconceito: percepção de que há estigma em relação aos ricos no Brasil, ou seja, que são movidos apenas por interesses próprios”, e “sentir um maior reconhecimento da sociedade sobre o trabalho desenvolvido”.

A partir do estudo foi possível perceber que os valores que movem os investidores familiares são pessoais, inspirados em experiências de seus antepassados, muitas vezes mulheres solidárias e religiosas, e os motivos que os levam a realizar são múltiplos, como, por exemplo, preocupação com os contrastes sociais do país e vontade de resolver os problemas do mundo.

Os principais objetivos das ações de investimento familiar são o fortalecimento do setor público e terceiro setor ou realizar aspirações pessoais, com algumas tendências de atuação, no sentido de ter um papel complementar ao setor público, assim como de construção de cidadania (privado atuando pelo público), moral (valor intrínseco do ato de doar) e de “civilizar” o governo (efi­ciência e gestão pública).

Segundo a pesquisa, esses investidores sociais preferem executar seus projetos ou fazer doações de forma participativa, ou seja, a organização familiar não é só financiadora, mas também participa das discussões de concepção e é cocriadora.

Outro aspecto observado é que a gestão das organizações é intensamente feita pelas famílias e a presença das mulheres é notável. Isso porque 52% dos institutos e fundações familiares são liderados por fi­lhas ou netas mulheres dos patriarcas, dentre essas, algumas executivas. E 50% dos familiares são também pro­fissionais de organizações da sociedade civil, com formação em áreas correlatas.

Percebe-se também um movimento para incluir as novas gerações. “É interessante perceber que são famílias estruturadas, que pensam a longo prazo, pois querem envolver as próximas gerações. É algo mais perene. E esse é o olhar do GIFE”, comentou Beatriz.

O estudo apontou, inclusive, que são realizadas diversas estratégias para motivar as novas gerações a se envolver com as ações. “A estratégia adotada pela maior parte dos familiares envolvidos nas organizações é a de atração subliminar. Ou seja, os entrevistados trabalham para os familiares serem ‘picados’ pelo social, como se fosse uma espécie de doença desejadamente transmissível”, explicou Andre.

Debate

Após a apresentação dos resultados do estudo, diversos investidores familiares presentes discutiram perspectivas e tendências para o campo.

Marcelo Furtado, diretor do Instituto Arapyaú, destacou que as fundações familiares podem ocupar um nicho estratégico no investimento social privado, justamente por não terem as características das empresas e também dos governos, estando muito bem posicionadas para estabelecer um diálogo com a sociedade. “O investimento de risco, que dificilmente a empresa ou governo podem fazer, as famílias podem. É uma oportunidade”, destacou.

Outro aspecto levantado pelo grupo é a importância de se ampliar a cultura de doação no país, o que, certamente, traria mais investidores para o campo. Para isso, inclusive, o GIFE lançou o Fundo BIS, que visa apoiar iniciativas que contribuam para ampliar o volume de doações no país. A ideia é estimular investidores sociais e interessados no tema a doarem 1% de seus orçamentos para o Fundo, que será gerido pelo Banco J.P.Morgan, associado ao GIFE.

Ana Maria Wilheim, diretora executiva do Instituto Samuel Klein, destacou, por fim, a importância do grupo se consolidar e atuar de forma conjunta, a fim de multiplicar as ações e também disseminar o conhecimento adquirido em suas causas.