GIFE promove debate sobre panoramas e conceitos sobre negócios sociais

O GIFE realizou, no dia 11 de agosto, um novo debate online que teve como tema central “Negócios sociais: panorama e conceitos”. A proposta foi trazer para discussão esta que é uma das agendas estratégicas de atuação da organização para os próximos anos.

“Já sabemos que, globalmente, as atuais organizações não dão conta de resolver os problemas existentes e, por isso, é preciso investir em novos modelos, como os negócios sociais. Por isso, o GIFE acredita que esta é mais uma forma de somar em iniciativas que visam promover o desenvolvimento do bem comum”, comentou Mariana Moraes, coordenadora de Comunicação do GIFE na abertura do debate.

Maure Pessanha, diretora executiva da ARTEMISIA – uma das principais organizações que atua fortemente para alavancar este setor no Brasil – iniciou o encontro destacando que há diferentes conceitos e percepções sobre o que sejam os negócios sociais, tendo como base três correntes principais no mundo.

A primeira vem da Europa e está mais relacionada às organizações sociais que são financiadas pelo governo para atender uma demanda pública. Já nos Estados Unidos, a nomenclatura mais utilizada é de “empresa-social”, sendo bastante abrangente no sentido de englobar organizações com lucro próposito até aquelas sem fins lucrativos. Foi nesse país, inclusive, que começou a ser disseminado pelos professores Stuart Hart e Prahalad a existência de um mercado de 4 bilhões de pessoas na base da pirâmide.

“Quando lançaram o livro ‘A fortuna base da pirâmide’, falando que as grandes empresas teriam um mercado que poderiam se beneficiar oferecendo serviços e produtos para essa população, gerou-se uma série de discussão. Isso porque eram vistos apenas como consumidores. E como fica a questão da cidadania? Teve um debate sobre isso, mas foi algo importante porque fizeram com que o tema emergisse também para grandes empresas”, ressaltou.

Já na perspectiva dos países em desenvolvimento, na América Latina, é possível encontrar alguns correntes fortes: tanto de organizações que fazem prestação de serviços para o governo, quanto startups com mentalidade mais empresarial, assim como o uso do conceito de “negócios inclusivos”, ou seja, incluir pessoas de baixa renda na cadeia de valor das empresas.

De acordo com Maure, tanto os negócios sociais, quanto os negócios inclusivos ou negócios de impacto social, trazem uma mesma base, que é: de que forma o modelo de negócio e os mecanismos de mercado podem ajudar a superar as mazelas sociais? Na ARTEMISIA, inclusive, o foco é a atuação junto a negócios que tenham soluções que possam ser escaláveis e resolvam problemas sociais.

“Entendemos o impacto social de forma ampla, ou seja, olhar se o produto ou serviço promove oportunidades para a população de baixa renda, se reduz condição de vulnerabilidade, se fortalece cidadania etc. Há várias formas de analisar impacto. O problema é que medir impacto é difícil e caro e demora anos para se observar  resultados. Por isso, o que temos visto são as organizações estabelecendo ‘teses de mudança’, ou seja, a partir do objetivo – exemplo: melhorar o nivel de nutrição de uma população – vai criando hipóteses e montando uma tese das mudanças que foram obtidas”, explicou.

Outro aspecto importante a ser observado pelos empreendedores é a diferenciação dos diversos tipos societários, apresentados por Aline Gonçalves de Souza, coordenadora e pesquisadora do Projeto Estado e Sociedade Civil no Centro de Pesquisa Jurídica Aplicada da Faculdade Getúlio Vargas (FGV).

A advogada destacou que é preciso levar em consideração a finalidade de atuação do negócio e se distribui o lucro ou não. No Brasil, define-se o “terceiro setor”, que reúne as organizações sem fins lucrativos que buscam atingir uma finalidade pública, e o “segundo setor”, com as empresas, que têm como função maximizar os lucros. Os negócios sociais seriam o setor “2/5”.

“A legislação brasileira reforça estas características nestas diferentes figuras jurídicas. Se fala sociedade limitada há uma indicação de que a empresa tem a finalidade econômica, ou seja, de que partilha entre os sócios os resultados. Por isso, ainda é difícil pensar aqui no Brasil essa lógica de um negócio que não divide os lucros”, comentou.

A advogada ressaltou ainda que é preciso analisar o ecossistema jurídico como um todo, que é complexo, e não tem regra clara para saúde, educação etc, mas sim vai depender do porte, da atividade a ser realizada e do público a ser atingido para definir a natureza jurídica.

“No Brasil, não temos um ambiente que favoreça uma figura jurídica como uma associação na qual consiga realizar com tanta desenvoltura e exercer um negócio social. Um exemplo é que, durante muito tempo, tivemos uma legislação que não permitia às ONGs remunerarem seus dirigentes, ou seja, isso atrai pessoas menos profissionalizadas, com menos tempo de dedicação integral etc, o que pode trazer problemas de gestão, algo que é impensável num formato empresarial de gestão”, disse.

Aline apontou ainda alguns exemplos de tipos societários que têm surgido em outros países e que podem servir de referência para o Brasil, como as “empresas sem fins lucrativos”, na África do Sul; a “empresa privada para benefício público”, em Israel; e a “empresa especial sem fins lucrativos”, no Japão, por exemplo.

Durante o debate, a diretora da ARTEMISIA destacou ainda os desafios a serem enfrentados na área, como a falta de investimento para que os empreendores possam colocar seus produtos na rua, assim como os entraves para aproximação com o governo para oferecimento de oportunidades de bens e serviços à população.

Oportunidades

Segundo os especialistas, o fenômeno é ainda recente no Brasil, mas trata-se de um setor emergente com grande potencial de expansão. O Mapa das Organizações da Sociedade Civil, por exemplo, feita pela FGV há 303 mil organizações não governamentais no Brasil. Já o Plano CDE, por exemplo, identificou cerca de 120 mil negócios sociais no Brasil.

A diretora da ARTEMISIA destacou ainda que há mais de 22 fundos de investimentos interessados em apoiar este tipo de negócio no país, com o potencial de mais de R$ 76 milhões. “Vemos emergir empreendedores de organizações sociais que identificam a necessidade de autonomia financeira, assim como aquelas pessoas que tiveram sucesso em seus negócios de mercado e, agora, querem colocar sua experiência em favor de algo de impacto social, isso sem falar de empresas que têm interesse em desenvolver a base da pirâmide. O que percebemos é o surgimento de uma nova geração que está insatisfeita com os modelos existentes e querem algo mais híbrido, ou seja, que gere lucro e impacto social. Eles estão quebrando as fronteiras”, disse.

Os investidores sociais, como o Instituto Sabin, por exemplo, que participou do debate online, têm olhado com mais atenção esse novo campo de atuação e novas oportunidades têm surgido.

Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin, destacou três caminhos possíveis de como os institutos e fundações podem se engajar mais nesse tema. O primeiro caminho, de acordo com Fábio, seria apoiar a realização de um diagnóstico, ou seja, conhecer o panorama, entender o tema, suas limitações e variáveis, tendo, para isso, dois recortes possíveis: a partir de um olhar territórial ou temático.
O segundo caminho seria focar no ecossistema, ou seja, desenvolver estudos e pesquisas e/ou fortalecer espaços de interlocução e formação dessa agenda que ajudem a identificar os atores que estão atuando nesse campo, quais as frentes de trabalho, quem está investindo, quais as lacunas de atuação etc. “Esse é caminho menos trivial, mas extremamente importante porque olha o todo e não apenas foca no que vai ser importante para o meu negócio”, comentou Fábio.

Por fim, o terceiro foco seria no investimento direto nos negócios sociais ou na realização de premiações, editais etc que atraiam startups que tenham relação com o negócio.

Fábio destacou que o Instituto Sabin tem procurado atuar tanto na parte de diagnóstico, buscando dar luz a negócios de impacto na área de Saúde, assim como no ecossistema, estabelecendo parcerias e alianças estratégicas.

O gerente do Instituto ressaltou ainda a existência da “Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais”, que é um grupo empenhado em mapear os entraves e oportunidades para o desenvolvimento das finanças sociais no Brasil, lançado em maio do ano passado. O grupo tem desenvolvido uma série de iniciativas, como pesquisas e relatórios sobre o tema.

No dia 14 de outubro, inclusive, será promovido o evento “Finanças Sociais: tendências globais e recomendações para o Brasil”, em São Paulo, para apresentar as recomendações da Força Tarefa Brasileira para avanços no campo, com a participação do Sir Ronaldo Cohen, co-fundador da Social Finance Ltd. (leia mais a respeito).
* Para assistir ao debate completo clique aqui.

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