Impacto na encruzilhada: para onde estamos indo?

Fábio Deboni[1]

 

Inovação Social se confunde com impacto social, que, por sua vez, procura contrapor-se à filantropia e ao ‘mundo das ONGs’. É nesta encruzilhada temática que outras encruzilhadas se somam ao desafio diversificarmos formas de endereçar questões sociais e/ou ambientais diante da sua urgência, complexidade e escala.

Meu novo livro[2], de mesmo título deste artigo, procura trazer à tona um debate pouco trivial no setor de ‘impacto social’. Sob o nome de encruzilhada no singular se levantam, na verdade, 4 encruzilhadas: a. de compreensão e narrativas; b. de ferramentas e modos de fazer; c. de financiamento; d. de transparência, avaliação e governança. Falaremos brevemente sobre cada uma delas a seguir. Ao invés de um texto explicativo sobre cada uma, optei por trazer perguntas que nos façam refletir sobre elas.

1. A encruzilhada de compreensão e narrativas

  • Nos referimos a mesma coisa ao falarmos sobre ‘impacto social/ ambiental’ (positivo)?
  • Estas diferentes e divergentes visões sobre ‘impacto’ estão a serviço de quem?
  • Impacto pra enfrentar causas (estruturantes) dos problemas socioambientais ou para remediar seus sintomas?
  • A moda do ‘impacto’ contribui para que esta agenda saia da bolha e alcance mais mentes e corações?
  • Quem são os principais emissores das narrativas ‘vencedoras’ nesta agenda?

2. A encruzilhada de ferramentas e modos de fazer

  • Apenas as ferramentas de mercado e tecnológicas são as mais adequadas para gerar/escalar impacto positivo na sociedade?
  • As formas antigas de gerar impacto não servem mais? As ONGs se tornarão obsoletas?
  • Só há salvação na escala? Existe vida fora de soluções escaláveis? É possível escalar em termos de profundidade?
  • A lógica do Venture Capital aplicada ao ‘impacto’ seria a mais adequada para a produção de transformações estruturantes?
  • Como alavancar soluções de impacto no seio das políticas públicas e da atuação do Estado?
  • Qual o papel da filantropia, do terceiro setor e da ‘base’ neste contexto?

3. A encruzilhada de financiamento

  • Como/quem vai financiar soluções ‘não-escaláveis’ e que não param de pé como negócio?
  • Por que há escassez de investimento para este tipo de solução?
  • Melhoria do gasto público não deveria entrar nesta discussão? Qual o papel do Estado nesta agenda? Apenas não atrapalhar?
  • Quem deve financiar organizações intermediárias do ecossistema de impacto? Existe vida possível pra elas para além de equity?
  • Qual o papel de indivíduos neste contexto?

4. A encruzilhada de transparência, avaliação e governança

  • A quem interessa forçar a mão na agenda do compliance?
  • Há espaço para formas mais criativas de métricas e avaliação?
  • Quem deveria ‘tocar o bumbo’ neste complexo ecossistema de impacto? Qual o papel de cada setor e organização?
  • Como alinhar interesses divergentes em prol de um sentido comum deste setor? Isso é viável?
  • Como fortalecer transparência a partir da lógica de mercado notadamente menos transparente que o terceiro setor e o Estado?

São inúmeras dúvidas e questionamentos que trazemos em nossa bagagem e sobre os quais temos tido poucos espaços de diálogo no setor de ‘impacto’. Conversas interessantes têm ocorrido nos corredores e cafezinhos dos eventos do setor, mas trazer parte delas para os palcos e painéis segue sendo um tremendo desafio. Enquanto fizermos de conta que ‘vai tudo muito bem obrigado’ neste setor por receio de ‘quebrar este novo brinquedinho’, seguiremos varrendo muitos destes incômodos pra baixo tapete e perderemos excelentes oportunidades de aprendizado.

Por se tratar de um campo novo e em franca construção, a agenda dos investimentos e negócios de impacto (impact investing) avança a passos largos global e localmente. Ela traz consigo áreas afins, seja de forma ‘natural’ seja por ‘livre e espontânea pressão’. Neste contexto os campos do terceiro setor, da filantropia, do investimento social privado — de um lado, o Estado — de outro — e o mercado — de outro, configuram uma teia complexa, diversa e divergente a partir da qual parecem emergir ‘novas’ oportunidades e ‘novas’ soluções para endereçar questões sociais e/ou ambientais.

É neste contexto que estas e tantas outras encruzilhadas emergem.

Aos que seguem apostando no potencial transformador da tecnologia e da inovação como motores de ‘transformação social’, não custa questionarmos: afinal, a serviço de quem e de quais tipos de transformação essas iniciativas estão?

É inegável que o boom tecnológico e da internet que vivemos atualmente traz consigo inegáveis avanços planetários e civilizatórios. Neste sentido, a tecnologia (IA, blockchain, coins, algoritmos, robôs, etc) nos permite fazer coisas, escalar iniciativas e atuarmos de forma muito mais veloz que décadas atrás.

Por outro lado, todo este arsenal de possibilidades traz consigo formas obscuras, antiéticas e que nos levam no sentido contrário ao ‘impacto’ que tanto buscamos. Algoritmos nos manipulam para certas ‘verdades’, formando opiniões controversas e anti-científicas[3]; fábricas de fake news influenciam eleições; gigantes tech adquirem poder (político e financeiro) maior do que muitas nações; o submundo mercado da deepweb. É neste contexto que precisamos discernir sobre intencionalidades e externalidades que todo este pacote tecnológico e ‘inovador’ traz consigo.

Não se trata aqui de nos voltarmos contra o avanço tecnológico, muito menos de soluções binárias do tipo a ‘favor ou contra’. Se trata, no entanto, de sairmos das narrativas cor de rosa que insistem em nos apresentar apenas o maravilhoso mundo da inovação e da tecnologia para camadas mais profundas de compreensão do que ele traz consigo e dos impactos positivos e negativos que gera.

Coisas no mínimo curiosas têm surgido (links abaixo) e nos evidenciam essas externalidades sobre as quais tão pouco falamos. De associação de vítimas de atropelamentos de patinetes motorizados, em Paris, à crescente articulação de entregadores de comida por APPs, nos fazendo refletir sobre outras narrativas e realidades por trás do ‘maravilhoso mundo a um clique’.

Atuar com ‘impacto’ social/ambiental e ficarmos alheio a estas questões me parece tão alienante quanto a ONG das ‘dondocas’ que se reúnem para tomar chá e ‘mudar o mundo’. Se é pra atuarmos em prol de ‘impacto’ pra inglês ver, melhor mudarmos de área.

Continue mergulhando no tema:

 

* * * * *

* artigo publicado originalmente em:  https://medium.com/deep-wylinka/impacto-na-encruzilhada-para-onde-estamos-indo-8608e6805606

[1] Gerente Executivo do Instituto Sabin (www.institutosabin.org.br). Atualmente coordena a Rede Temática de Negócios de Impacto do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) em conjunto com ICE e Fundação Grupo Boticário. Membro do Conselho do GIFE. É escritor e está lançando novo livro “Impacto na encruzilhada: inovação social, negócios de impacto e investimento social privado: caminhos e descaminhos, à venda em: https://mymag.com.br/projeto/encruzilhada/  e na Amazon. Contato: [email protected] / www.fabiodeboni.com.br e www.linkedin.com/in/fabiodeboni 

[2] À venda aqui: https://mymag.com.br/projeto/encruzilhada/  na Amazon.

[3] Tais como: crença na Terra plana, movimentos anti-vacinas, etc.

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