Iniciativas de fomento a negócios de impacto social ganham espaço na agenda do investimento social privado

 

Um novo tipo de empreendimento vem ganhando espaço na sociedade e pretende, cada vez mais, conquistar novos adeptos e, com isso, promover mudanças significativas neste mundo repleto de desafios. Os chamados “negócios de impacto social” não buscam apenas gerar lucro. Esses empreendimentos querem muito mais: buscam a transformação social.

“São negócios que nascem primeiro com o propósito de mundo novo. O lucro é visto só como uma questão de sustentabilidade do negócio. Normalmente, as margens e os dividendos são um pouco menores, assim como os preços praticados, se comparados com um negócio clássico. O perfil do empreendedor também é diferenciado: ele nasce já com o propósito de querer resolver um problema que o incomoda na sociedade”, explica Luiz Guggenberg, gerente de Inovação Social e Voluntariado da Fundação Telefônica Vivo, em depoimento ao sexto episódio da websérie COMUM, que trata exatamente da agenda estratégica do GIFE neste campo.

A aposta do GIFE em ser um indutor de negócios de impacto social, explorando e fortalecendo as diversas formas de destinação de recursos privados para a geração de impacto social, é uma resposta ao crescente interesse dos investidores sociais em explorar e conhecer esses novos modelos de negócio.

Célia Cruz, diretora executiva do Inovação em Cidadania Empresarial (ICE), destaca que esse movimento é ainda novo e tem ocorrido no mundo inteiro. No Brasil, há muitos negócios que já nasceram neste formato, alguns já estão ganhando escala, mas não é possível ainda saber os seus resultados efetivos, pois não se tem o acompanhamento do ciclo e da história completa desses negócios. A Vox Capital estima que, atualmente, existam 1100 negócios deste tipo no país.

“Sabemos que o recurso da filantropia e dos governos não têm sido suficientes para resolver os problemas sociais atuais e, por isso, precisamos começar a pensar em novas formas, trazer novas soluções, que consigam alavancar mais recursos para ter mais impacto social. Nossa crença é que estes modelos de negócios podem sim resolver os problemas sociais fazendo uso, principalmente, de inovação e tecnologias”,  aponta Fernanda Bombardi, gerente executiva do ICE, a respeito da motivação para o ICE investir nesse ecossistema.

Novidade

Com a proposta de fortalecer ainda mais a discussão sobre esse tema no país, o GIFE acaba de lançar a Rede Temática de Negócios de Impacto Social, um ambiente de diálogo para alinhar e promover a troca de conhecimentos neste campo. O primeiro encontro do grupo foi promovido no dia 04 de maio, em São Paulo, e reuniu cerca de 45 pessoas.

Ana Carolina Velasco, gerente de Relacionamento e Articulação do GIFE, abriu o encontro apresentando aos presentes a proposta de atuação do GIFE e o formato de trabalho das redes temáticas e, em seguida, Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin e um dos coordenadores do novo grupo, destacou as motivações para a criação da rede.

“Provocamos o GIFE a aprofundar esse tema, pois, apesar de ainda termos uma presença tímida dos institutos e fundações neste campo, percebemos que essa discussão está ganhando espaço entre os investidores sociais. E queremos que ela avance mais”, ressaltou Fabio.

Segundo o gerente do Instituto Sabin, a nova Rede Temática terá como proposta promover um espaço de diálogo sobre as possibilidades de atuação conjunta entre capital filantrópico/ISP/institutos e fundações e o campo das finanças sociais/negócios de impacto social. Além disso, pretende-se ampliar a participação dos investidores sociais nessa área, com  aporte de capital financeiro e não-financeiro.

Para alinhar os conceitos e pressupostos sobre o campo, Fernanda Bombardi, do ICE e também coordenadora da Rede Temática, apresentou um vídeo a respeito da Força Tarefa de Negócios Sociais (FTFS) – grupo que reúne representantes de diversos setores – que visa ampliar o capital privado e público para o desenvolvimento de mecanismos e negócios de impacto que contribuam para a solução de problemas sociais brasileiros. A meta é elevar os investimentos de impacto no Brasil de R$ 13 bilhões, em 2014, para R$ 50 bilhões até 2020.

A gerente executiva do ICE destacou que, das 15 Recomendações lançadas pela FTFS em 2015 para alavancar mais capital para finanças sociais e negócios de impacto no Brasil, em 2016, foram priorizadas seis delas para implementação. Entre elas, há duas que dizem respeito diretamente à área dos investidores sociais.

Há uma recomendação, por exemplo, direcionada especialmente para Fundações e Institutos (empresariais, familiares e independentes), a fim de que realizem doações e investimentos para viabilizar iniciativas piloto e inovadoras do campo. A meta sugerida é que estas organizações direcionem, até 2020, 5% de seus investimentos e doações ao desenvolvimento do campo de finanças sociais e negócios de impacto, como, por exemplo, no fortalecimento de organizações intermediárias, na atração de novos investidores ou na doação direta a negócios de impacto.

Fernanda lembrou que este é ainda um tema polêmico e que envolve dúvidas sobre a possibilidade ou não deste tipo de direcionamento de recursos, mas lembrou que há um parecer favorável da Derraik sobre riscos jurídicos e tributários relacionados a esse investimento.

Há ainda a possibilidade de alocação de recursos de fundos patrimoniais e comercialização de bens e serviços. A Fundação Telefônica Vivo, por exemplo, fez uma parceria com o Geekiee e comprou licenças para implementar as iniciativas nas escolas nas quais têm atuação. Tem crescido também o crowdequity, modelo em que permite que startups e negócios inovadores possam receber investimentos também de pequenos investidores.

O fato é que há espaço – e muito – para crescer os investimentos no ecossistema de negócios de impacto. Segundo levantamento realizado pela FTFS, em 2014, por exemplo, os recursos disponíveis para o campo social somaram R$ 457 bilhões. Desse total, R$ 13 bilhões (3%) foram alocados por meio de mecanismos de finanças sociais, sendo que R$ 20 milhões foi o volume de recursos direcionados pelos institutos e fundações. A expectativa é chegar, em 2020, a R$ 180 milhões.

“A tese que temos é que, em cinco anos, com um maior aporte dos investidores sociais, esse campo se constituiria e, num segundo momento, atrairíamos mais o capital. É importante vermos o que está acontecendo globalmente nesse campo, pois, se contribuirmos com o ecossistema, esses negócios vão ajudar a resolver problemas sociais com escala e serão grandes aliados do terceiro setor”, ressaltou Célia Cruz.

Para inspirar os presentes, Fernanda apresentou ainda alguns exemplos de negócios de impacto, como a Geekie, uma plataforma de ensino adaptativo; a Brasil Ozônio, que utiliza ozônio para purificação de água; a Agrosmart, que trouxe uma solução ao mercado na qual consegue diminuir em 70% o consumo de água em grandes plantações; entre outras.

Foco de ação

Além de alinhar os conceitos a respeito do tema, a proposta do primeiro encontro da Rede Temática de Negócios de Impacto Social teve como objetivo identificar potenciais temas que irão compor a agenda de atuação do grupo neste ano.

Para isso, os participantes foram convidados a apontar assuntos, inquietações e expectativas sobre o campo. A partir daí, foram identificados dez potenciais temas de foco do grupo: introdução ao tema/conceitos; criação de um censo/portfólio da área;  métricas e avaliação de impacto; aspectos jurídicos e contábeis; gestão e governança; alinhamento ao core business; atuação local/territorial; parcerias; fortalecer o campo/ecossistema; e recursos financeiros.

Dentre os dez temas; o grupo elegeu, por fim,  quatro prioritários que serão trabalhados ao longo deste ano: fortalecer o campo/ecossistema; introdução ao tema; aspectos jurídicos e contábeis; e alinhamento ao core business.

O próximo encontro da Rede Temática já está marcado para o dia 05 de julho e, nos dias 03 e 04 de agosto, todos participarão também do Fórum de Finanças Sociais, a ser realizado no Instituto Tomie Ohtake. As inscrições estarão abertas a partir de 01 de junho.

Na avaliação de Fábio Deboni, o primeiro encontro do grupo superou as expectativas. “Percebemos que realmente o tema que vem ganhando espaço na agenda dos investidores sociais e ficamos felizes em poder liderar uma rede que vai atender parte desse anseio dos institutos e fundações em entender mais sobre o assunto. O encontro foi muito positivo”, avaliou.

Saiba mais

Confira outras informações sobre este temática já divulgadas pelo GIFE:


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