Inovação Social = negócios de impacto?

Fábio Deboni[1]

 

Vem ganhando espaço nas discussões no âmbito do ISP a agenda da inovação social. Ora, sua abordagem é mais próxima ao campo de finanças sociais e negócios de impacto, ora ela ganha contornos mais próximos ao meio acadêmico, ora na relação com políticas públicas. Estas várias perspectivas (dentre outras) ilustram a abrangência do tema e suas múltiplas interfaces e possibilidades, além de reforçar que a agenda vem ganhando força no Brasil mais recentemente.

Temos visto que há uma vinculação mais “automática” de que inovação social seria sinônimo de investir em negócios de impacto. Não que isso também não seja, mas, como veremos, inovação social é muito mais amplo do que isso.

Não há uma concepção única que explique ou oriente todos os processos que se supõem de “inovação social”. Não há, portanto, uma bala de prata que resuma toda a complexidade do tema. Restringir inovação social a atuar/investir em negócios de impacto é, a nosso ver, um equívoco que precisa ser sinalizado e debatido.

A inserção da dimensão “social” na área de inovação traz consigo diversos desdobramentos e significados. Como se trata de um fenômeno relativamente recente no Brasil e no mundo, ainda pairam no ar muitas dúvidas sobre o que seria uma inovação “social” (e/ou ambiental) e o que seria apenas inovação. Afinal, nem toda inovação é social/ambiental:

Inovação social é distinta (da inovação “convencional”) tanto em termos de resultados quanto em formas de relacionamento, pois traz novas formas de cooperação e colaboração entre os envolvidos. Como resultado, os processos, métricas, modelos e métodos utilizados na inovação comercial ou tecnológica nem sempre são diretamente aplicáveis no campo social[2].

(The open book of social innovation, 2010)

 

Como se vê, nem toda inovação é “social” (ou ambiental). Elas se diferem não apenas em questão de produtos/resultados (objetivos) mas também em métodos. O tão falado “propósito” é tão necessário quanto a forma como uma determinada solução irá construir os caminhos que a levarão a inovar.

A compreensão abaixo segue sendo “clássica” e bastante atual sobre o assunto:

Uma solução inovadora para um problema social que seja mais efetiva, eficiente e sustentável na comparação com as outras opções de soluções já existentes, na ótica da sociedade (coletividade) e não dos indivíduos. Uma inovação social pode ser um produto, processo de produção ou tecnologia (bem como a inovação em geral), mas também pode ser um princípio, uma idéia, uma legislação, um movimento social, uma intervenção ou alguma combinação entre eles[3]

(Stanford Social Innovation Review, Phills, Deiglmeier e Miller, 2008 )

 

Ampliando as referências sobre o tema, encontramos bastante sinergia com a SIX[4], uma rede global focada no tema. Eles agregam a seguinte reflexão ao tema:

A inovação social não tem limites fixos: ocorre em todos os setores – público, privado e no terceiro setor. Na verdade, grande parte da ação mais criativa está acontecendo nas fronteiras entre setores, em campos tão diversos quanto comércio justo, ensino à distância, hospícios, agricultura urbana, resíduos, redução e justiça restaurativa.    (The open book of social innovation, 2010)

 

Esta compreensão que a SIX traz, agrega ainda a necessidade de que iniciativas que almejem alavancar efetivas inovações sociais precisam enfrentar a dimensão das “mudanças sistêmicas”. Querer promover inovação social sem enfrentar, discutir e propor alternativas sistêmicas, na lógica da SIX e nossa, não trará transformações efetivas que a sociedade necessita e almeja. Em função desta necessidade de “descontruir” práticas, repensar propósitos e valores e redesenhar plataformas de atuação e de gestão, muitas organizações (públicas e privadas) vem sendo questionadas (e vem se questionando) acerca da sua real capacidade de deflagrar processos de mudanças sistêmicas que gerem transformações sociais/ambientais mas profundas.

 

Percursos da Inovação Social

Contextualizada a dimensão conceitual, a pergunta que vem em seguida é “como” impulsionar processos de inovação social, como colocá-la em prática? Dada a sua complexidade, seria óbvio perceber que não há receitas prontas para a sua ideal aplicação. Ainda que o campo da inovação social venha refutando ideias de receitas prontas, há alguns caminhos possíveis que poderiam nos levar em direção à inovação social[5].

O diagrama abaixo, da SIX, sinaliza um percurso metodológico e conceitual para se pensar e praticar a inovação social. É importante considera-lo como sendo algo cíclico. Ao se alcançar o item 7, se retornaria ao 1, criando um ciclo de continuidade.  Como se vê, o próprio percurso da inovação social é complexo e não trivial, apontando para reflexões mais profundas, a olhares mais sistêmicos e a soluções mais holísticas.

Fonte: http://inovasocial.com.br/inova/workshop-inovacoes-sociais/

Diversas abordagens e métodos têm surgido para impulsionar processos de mudanças sistêmicas. A Teoria U[6], por exemplo, é uma destas metodologias inovadoras. Em geral, todas elas, têm servido como “enzimas” que alavancam processos transformadores, nas áreas social, ambiental, de negócios, em políticas públicas, etc. A inovação social, portanto, encontra-se inserida neste contexto, seus atores e organizações exercem e sofrem influência destes conceitos e métodos.

O diagrama abaixo reúne a leitura sobre inovação social da Agência de Inovação do país Vasco[7]:

Fonte:http://www.innobasque.eus/microsite/innovacion_social/proyectos/basque-social-innovation/

 

Nossa proposta aqui não é a de construir um estado da arte das formas de se impulsionar inovação social, mas tão somente evidenciar que não há entendimentos nem caminhos únicos, e que, os vários já disponíveis em boa medida conversam entre si. As diferentes leituras e entendimentos sobre estes vários caminhos reforçam que o processo é tão complexo quanto os resultados que se pretendem alcançar com eles.  Mesmo diante desta complexidade toda, é possível começar a impulsionar inovação social com passos simples e acessíveis às organizações. Não se advoga aqui algo mirabolante e de alto custo. É possível sim começar fazendo o “arroz com feijão” e depois preparar pratos mais elaborados.

 

O que Institutos e Fundações têm a ver com isso?

Em suma, vislumbramos 5 frentes possíveis de atuação para Institutos e Fundações:

  1. ferramentas e metodologias em inovação social
  2. inovação em políticas públicas
  3. inovação social em modelos de negócio
  4. inovação social no/para o terceiro setor (OSCs, redes, etc)
  5. inovação social no âmbito acadêmico (universidades)

A primeira, está mais vinculada ao aprendizado de institutos e fundações sobre conceitos, linguagens, práticas, ferramentas e metodologias para se implementar inovação social. Há cursos, eventos e publicações já disponíveis sobre o assunto e não há uma única porta de entrada ao tema. O famoso ditado “quem tem boca vai à Roma” cabe aqui como uma luva.

As outras três (2,3 e 4) frentes são direcionadas a segmentos de atuação que façam mais sentido à estratégia de cada Instituto/Fundação. Apesar da segmentação, vale sempre lembrar que o mais rico nos processos de inovação social são os que ocorrem entre estes diferentes setores. O diálogo inter-stakeholders é, de fato, sempre mais desafiador mas traz consigo um maior potencial de gerar impacto em mudanças sistêmicas. E a última (5) mais vinculada à dimensão do ensino superior – ensino, pesquisa e extensão.

O que temos visto é que para alavancar estas possíveis frentes de atuação, é fundamental a abertura ao diálogo e ao relacionamento com outras organizações para além de institutos e fundações. Já há OSCs, startups, negócios de impacto, aceleradoras, consultorias e diversas outras organizações e pessoas construindo iniciativas muito interessantes em inovação social. Fica a dica: se jogue de cabeça neste universo e construa sua própria trilha de aprendizagem e de experiência sobre o assunto. Que o tema veio para ficar parece estar claro. Onde ele vai desaguar é o que ainda é mais incerto e imprevisível. Tudo indica que sua passagem será como um tornado, deixará estragos (no bom sentido) pelo caminho e exigirá esforços de reconstrução. Talvez seja isso, no fundo, o que precisamos, ainda que, muitas vezes, lutemos contra. Afinal, sair do nosso porto seguro é mais difícil do que pode parecer.

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A título de exemplo, alguns links de iniciativas que dialogam com o tema aqui no Brasil, sem qualquer pretensão de esgotar as possíveis e inúmeras referências em Inovação Social:

http://inovasocial.com.br/

http://www.tellus.org.br/

http://ponteaponte.com.br/

http://socialgoodbrasil.org.br/

https://brasil.ashoka.org/

http://www.impacthub.net/

http://amaniinstitute.org/pt/

http://echos.cc/

http://www.perestroika.com.br/

http://www.sementeirainovacaosocial.com.br/

http://www.sense-lab.com/

http://www.mobilizaconsultoria.com.br/

http://www.kaleydos.com.br/

 

[1] Gerente Executivo do Instituto Sabin (www.institutosabin.org.br). Atualmente coordena a Rede Temática de Negócios de Impacto do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas). Membro do Conselho do Gife. É autor do livro “Reflexões contemporâneas sobre Investimento Social Privado”. fabio@institutosabin.org.br

[2] https://youngfoundation.org/wp-content/uploads/2012/10/The-Open-Book-of-Social-Innovationg.pdf

[3] https://ssir.org/articles/entry/rediscovering_social_innovation

[4] Social Innovation Exchange: http://www.socialinnovationexchange.org/home

[5] Note que há, inclusive, no mercado opções crescentes de cursos, oficinas e eventos sobre o tema. Inovação Social se tornou um nicho de mercado? Isso é ruim?

[6] Saiba mais: http://projetodraft.com/verbete-draft-o-que-e-teoria-u/

[7] http://www.innobasque.eus/